Jarbas Franco de PaulaJarbas Franco de Paula

Uma das lideranças mais expressivas do movimento espírita brasileiro, Jarbas Franco de Paula, nasceu em 24 de setembro de 1927, em Melo Franco, aglomeração urbana circunvizinha a Santa Bárbara, Minas Gerais. Veio para Belo Horizonte ainda jovem. Na vida profissional militou como mensageiro dos Correios e a seguir integrou o sistema previdenciário do País, ali permanecendo por mais de trinta anos. Comportamento ilibado, caráter cidadão estruturado em rígidos princípios de moralidade, pautou seu trabalho com dedicação e esmero, merecendo citações honrosas como a que constou em documento emitido por órgão da Previdência Social, em 17 de janeiro de 1955, onde se lê: “Jarbas Franco de Paula, como tesoureiro auxiliar, exerceu o cargo com eficiência e firmeza, demonstrando elevada idoneidade. Nas centenas de pagamentos mensais a pensionistas, aposentados e outras partes nunca houve reclamações nem diferença em caixa nas respectivas auditorias periódicas”.

Casou-se com uma moça espírita que se transformaria ao longo de sua vida física num dos esteios de sua jornada frutuosa. Olga Rodrigues de Paula, que o acompanharia em todos os momentos de sua vivência terrena, viria trazer-lhe três filhos e, ainda no plano terreno, abraçaria seis netos e uma bisneta.

Levado por amigos ao Centro Espírita Célia Xavier, descobriu ali sua vocação para reflexões e múltiplos cismares. Logo depois iria radicar-se no Centro Espírita Oriente – Grupo Scheilla –, onde teria missões relevantes, abrindo um leque inimaginável junto ao Espiritismo da Capital do Estado.

Inconformado com o sofrimento e a miséria alheias e alicerçado em premissa evangélica do relato de Mateus, passou atuar vigorosamente na construção de um Mundo Melhor, auxiliando desgraçados de toda ordem que pipocavam pelas vielas na vida urbana da cidade grande. Moradores de rua, esquecidos em asilos, abandonados em nosocômios psiquiátricos, reclusos privados da liberdade, exilados de instituições hansenianas, miseráveis de todo os lados eram objeto da sua acuidade e interesse. Era como se o evangelista lembrasse diariamente a ele: “sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer” 1.

Determinado, altruísta, incansável, Jarbas expandia cada vez mais suas ações na vivência do Cristianismo Redivivo – o Espiritismo – agora recrutando, alistando e pondo a postos um exército de voluntários que formavam com ele grandes contingentes de ação caritativa cotidiana. Hospital Raul Soares, Hospital André Luiz – onde foi diretor –, Hospital Mario Pena, Abrigo Belo Horizonte, colônias de hansenianos na área metropolitana de Belo Horizonte.

– Que faz você no hospital Raul Soares – perguntou-lhe certa vez um convidado a integrar a frente de trabalho ao semelhante.

– Eu? Fazemos a higienização do enfermo esquecido, abandonado, sofrido irmão em humanidade, para que, quando o médico for visitá-lo, não tenha asco com a sua desdita. Deixamos o sofredor com melhor aparência. Oramos. Quando lúcidos, falamos de esperança, de saúde, de paz, de amor. De Deus. De vida.

No limiar da década de 50 do século passado, diante da escassez da periferia de Belo Horizonte, açulada com o fluxo migratório do campo, inspirou-se em Chico Xavier, sendo um dos pioneiros da implementação da Campanha do Quilo em Belo Horizonte.

– Como trazem isso tudo para esse lugar – perguntou alguém que, convidado a integrar a tarefa, visitava o centro de triagem da Campanha. – Todos vocês têm carro?

– Não, meu irmão. Nenhum de nós tem carro. Trazemos tudo de bonde, de tróleibus.

Notabilizou-se por recrutar novos tarefeiros, contando-se às centenas os que ingressavam em diferentes fronts de trabalho. Certa feita, ao levar os restos mortais de um tarefeiro ao último abrigo do corpo físico, um grupo de amigos espíritas falava amenidades num canto da trilha, quando dois companheiros se aproximaram:

– Jarbas, estava contando pro meu amigo aqui que esta noite tive um sonho com você.

– Eh!?! Sonhou comigo, meu irmão?

Caridoso, solidário, amigo, Jarbas Franco de Paula levou para as fileiras espíritas centenas de irmãos em humanidade pelo exemplo e dedicação constantes. – Sonhei.

– !?!

– Sonhei que estávamos andando em uma favela e que, em dado momento, vi você com um grupo de pessoas construindo barracos. Havia areia, pedra, tijolos por todos os lados e muita gente ajudando.

– Que bom, meu irmão!

– Bom? Eu disse no sonho pro meu amigo aqui: não vamos passar ali não. Venha. Vamos dar o fora. Caso o Jarbas nos veja aqui, vai nos colocar para carregar pedra e assentar tijolos. – E riram descontraidamente, abraçando-se com efusão.

Tinha a veia do empreendedor. Com denodo e inesgotável energia, expandiu com muitos amigos instalações no Centro Oriente e em outras casas espíritas. Equipou dependências, construiu salas, fomentou a instalação de bibliotecas e livrarias.

Leitor contumaz, lia todos os grandes periódicos da imprensa espírita brasileira e, depois de ler, presenteava a algum amigo, estimulando a pesquisa, o conhecimento.

Tribuno apaixonado, estudava a Doutrina com afinco. Sua biblioteca particular tinha milhares de títulos. Desde a história dos Santos e sua mediunidade – como Agostinho, Francisco de Assis, Clara, Antônio de Pádua, Vicente de Paulo – a obras com missionários de brilho estelar como Amália Franco, Barsanulfo, Bezerra de Menezes e Chico Xavier. Conhecia André Luiz com proficiência da cátedra mestral, proferindo estudos sequenciados nas maiores casas espíritas da Capital.

Especializado na administração de conflitos, lembrava reiterada recomendação do espírito Glacus: “o mal não deve ser comentado”, calando-se quando o interlocutor invigilante introduzia no diálogo a crítica ou a reclamação. Diante de um caso de manifesta ingratidão, falou:

– Toda a ajuda deve ser desinteressada. Quem faz o bem recebe de volta o bem. Ampliado. Mas raramente daqueles mesmos a quem beneficiou diretamente – e concluía: – O dia do benefício costuma ser a véspera da ingratidão. Nem por isso desista. Seja grato. Seja bom.

Procurado por um amigo que lhe falava de dissenção na casa espírita, desejoso de saber se não lhe incomodaria viver em ambiente de velada hostilidade, respondia com presteza:

– Sirvo a Jesus.

Quando o amigo dizia conviver em ambiente sem afetividade, com serenidade asseverava:

– Tudo passa; tudo passa. “Segue. Serve. Deus cuidará de ti” 2.

Deparando-se com a desarmonia conjugal, ouvia com atenção, sem interromper e, ao final, propunha:

– Antes de qualquer decisão, consulte Emmanuel.

– Mas, como farei isso? – questionava muita vez o interlocutor.

– No livro Coragem, capítulo 22, Emmanuel oferece um norte seguro. A orientação precisa. Depois de ler, se precisar, volte a falar comigo. Solidário como todo seguidor do Cristo, Jarbas recebera certa feita a visita aflita de um grande amigo. Sentia-se ele em apuros. Idealista e atuante, tinha em passado próximo se tornado liderança altiva entre os ferroviários da região, disseminando ideais e ações materialistas e revolucionárias. O pensamento de que a vida se limita entre o nascer e o morrer vitaliza propósitos nem sempre espiritualizantes. Acreditava, naquela oportunidade, que a alternativa social seria o conflito de classes, a reversão da ordem política e a tomada do poder pelos operários. Seu nome esteva registrado, nos arquivos do governo militar emergente, como ativista, pessoa de comportamento passível de repressão, sujeito a enquadramento na Lei, na nova ordem vigente. Estava muito assustado. A convocação o intimava a comparecer, em data e hora marcada, à unidade militar, já que seu nome constava dos arquivos como ativista. Ele, que andava um pouco recolhido, tivera, através da família, acesso à carta. Decidiu-se, então, procurar um companheiro de tarefa na seara espírita. Alguém que se tornara seu maior confidente. Na oportunidade, indagou:

– Jarbas, você iria comigo atender a esta convocação? Acho que estou precisando do amparo de um bom amigo.

O interlocutor se lembrou da extensa folha de serviços do companheiro de tarefas, da sua profunda transformação, do homem novo que nele se instalara e não se fez de rogado:

– Claro. Vou, sim. – E imediatamente, em pensamento ligara-se a Jesus: Senhor, estou batendo à sua porta. O que posso eu fazer pra ajudar?

No dia aprazado, compareceram à unidade militar. Dirigindo-se ao comando, constataram que estava sob as ordens de um oficial que se projetava no cenário do País pela inflexibilidade. Foram informados do local para onde deveriam se dirigir. Ao se deslocarem, Jarbas, que se mantinha ligado a Jesus em pensamento, reconheceu, no trajeto, um velho conhecido que não via por longo tempo. Foi logo dizendo:

– Capitão. Quanto tempo! Mas que alegria revê-lo.

– Jarbas! Olha só quem vejo. Agora sou Coronel.

– Mas o que é que você está fazendo aqui, meu caro? Veio visitar o quartel?

Antes de responder, o pensamento devaneou por situações passadas, não muito distantes, em que o então Capitão, às voltas com um chamamento pela dor, procurara o Centro Espírita Oriente. Um filho querido enfrentara grave enfermidade, tendo sido socorrido pela ação mediúnica de colaboradores da Casa, tornando-se o militar adepto do Espiritismo. Voltando à realidade do momento que viviam ali, explicou ao Coronel o cenário atual de vida do convocado, afiançando o seu irrestrito aval ao companheiro presente.

Com um escrito num papel que receberam lacrado, foram orientados a procurar determinado setor da unidade. Ali, após breves diálogos, o convocado teve autorização para voltar para casa. Nunca mais foi intimado.

Sorridente e descontraída, Olga, sua esposa e companheira, revela: “Tinha muitos ciúmes dele.” Inteligente e líder nato, Jarbas chamava muito a atenção das pessoas. Mas nunca tive dúvidas sobre a altivez e princípios morais elevados que norteavam seu coração. Quando saia e eu não estava em casa, deixava um bilhete:

– Querida. Fui ao Hospital André Luiz! – e assinava:

“o seu Amor.”

Notas:

(1) Mt, – 25:45;

(2) Espera Servindo, Emmanuel, ed. GEEM;

Fontes consultadas: Olga Rodrigues de Paula (esposa) e tarefeiros contemporâneos do biografado.

Extraído do Jornal “O Espírita Mineiro (UEM)” – Nº 294/2006