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Equilíbrio e Felicidade

Felicidade
"(...) faltou-me o amparo da esposa. Enquanto a tive a meu lado, verificava-se profundo equilíbrio em minhas forças psíquicas. A companhia dela, sem que eu pudesse explicar, compensava-me todo gasto de energia mediúnica. Minha noção de balanço estava nas mãos de minha querida Adélia.

Esqueci-me, porém, de que o bom servo deve estar preparado para o serviço do Senhor, em qualquer circunstância. Não aprendi a ciência da conformação e nem me resignei a percorrer sozinho as estradas humanas. Quando me senti sem a dedicada companheira, arrebatada pela morte, amedrontei-me, por sentir-me em desequilíbrio e, erradamente, procurei substituí-la, e fui acidentado. Extremamente ligada a entidades malfazejas, minha segunda mulher, com os seus desvarios, arrastou-me a perversões sexuais de que nunca me supusera capaz. Voltei, insensivelmente, ao convívio de criaturas perversas e, tendo começado bem, acabei mal. Meus desastres foram enormes; entretanto, embora reconheça minha deficiência, entendo, ainda hoje, que o triunfo, mesmo no futuro, ser-me-á muito difícil sem a companheira bem-amada." [1]

 

Conduzido por Vicente, André Luiz se aproximou de um grupo de Espíritos que conversava na colônia Nosso Lar sobre suas quedas morais. Um dos presentes, reconhecendo que faliu, passou por expiações nas regiões inferiores do plano espiritual e aguardava confiante novos recursos da Providência Divina. Admitiu que não soube viver de forma adequada na ausência da esposa querida, pois para ele, Adélia era a grande responsável pelo equilíbrio de suas energias psíquicas, o que refletia em suas atividades mediúnicas. Pelo exposto, podemos deduzir que, enquanto esteve em companhia de sua consorte, ele era feliz. Mas permita-me, caro leitor, conduzir o assunto para além da lide mediúnica. A presença da esposa era garantia de equilíbrio, paz e, consequentemente, felicidade para aquele Espírito. Contudo, mediante o desencarne de alma tão querida, seu mundo desmoronou e ele se entregou ao desequilíbrio, vinculando-se a entidades infelizes e situações dolorosas. Na verdade, todos nós estamos à procura da felicidade. Mas será que ela realmente existe? Se não existe, por que a procuramos incessantemente? A questão é que, normalmente, procuramos a felicidade nas coisas exteriores, fora de nós mesmos, com conotações que variam de um indivíduo para outro. Para uns felicidade é aquisição de bens materiais, para outros é fama, sucesso, poder, riqueza, inexistência de problema e até mesmo ser bem sucedido em um relacionamento amoroso, como no caso do nosso irmão em estudo. Com o desencarne da esposa, ele se tornou infeliz. Daí, lhe pergunto: devemos estar felizes ou ser felizes? Do que depende ou a que condicionamos a nossa felicidade?

Para Allan Kardec, "A felicidade depende das qualidades próprias do indivíduo e não do estado material do meio em que se acha." [2] Ela não está fora de nós; é um estado de espírito, uma maneira de ver a vida e não um determinado acontecimento. Ser feliz é uma atitude comportamental frente à execução das tarefas que viemos desempenhar na Terra. "Só há felicidade no trabalho", dizia o pintor francês Fernand Léger. Ora, se estamos tendo tempo de nos sentirmos infelizes é porque talvez esteja nos faltando disposição para as ocupações verdadeiramente úteis, não é mesmo?

Podemos ser felizes hoje, mesmo com os problemas que enfrentamos? Claro que sim, pois problemas são desafios, oportunidades, tarefas, lições e a felicidade pode ser encontrada em qualquer lugar, principalmente, dentro de nós e até mesmo nos maiores reveses pelos quais passamos. O como encarar uma dificuldade faz toda diferença, tendo em vista que o homem não é feliz em possuir ou deixar de possuir, mas sim pela forma como possui ou como encara a falta de posses e será bem-aventurado se conseguir superar suas provas e expiações.

A felicidade ou infelicidade é o resultado direto de nossas atitudes distorcidas ou não, vivenciadas ao longo do caminho evolutivo. "Infelicidade é o desconhecimento da Justiça Divina, com permanência na rebeldia. (...) Toda e qualquer aflição é o processo de cobrança que chega ao tribunal da consciência, impondo reparação." [3] Felicidade não é simplesmente a realização de todos os nossos desejos, mas sim a noção de que podemos nos satisfazer com nossas reais possibilidades. Iremos encontrá-la na harmonização, no amor verdadeiro, na renúncia e no desprendimento, bem como quando nos dedicamos aos que sofrem, procurando amenizar-lhes as dores. Aprendemos com o Espiritismo que a felicidade não é meta de uma curta etapa, mas que é edificada ao longo de muitas existências. Na Terra ela se resume a momentos de alegria e muitas vezes é rápida como uma labareda, uma vez que a verdadeira felicidade é um estado permanente e não é deste mundo[4], mas começa aqui. É necessário aprender que ela deve ser construída a partir do lugar onde estamos, da situação que vivenciamos, pois a dificuldade de hoje é a experiência de amanhã e uma oportunidade de depuração do Espírito. Felicidade não é uma estação na viagem da vida, mas sim a maneira pela qual viajamos. E há três pré-requisitos para alcançá-la: consciência reta, vida correta e coração de paz.

Vicente de Carvalho, poeta santista, disse que nunca encontramos a felicidade porque ela sempre está apenas onde a colocamos e nunca a colocamos onde estamos. Procuramos sempre nos lugares errados, criamos ilusões e culpamos os outros por nossos fracassos e quedas. De fato, não podemos e nem devemos colocar em outras pessoas ou mesmo nas coisas, situações e lugares, a nossa felicidade. O nosso equilíbrio, a nossa paz e a nossa felicidade devem estar em nós e não no outro, pois nem sempre o outro estará conosco ou corresponderá às nossas expectativas. Feliz é quem ama, não aquele que se faz amado. Felicidade é a arte de exalar alegria e sua proposta é a auto-superação, o domínio das más tendências. Enfrentemos com dinamismo e alegria os obstáculos da vida e assim, amando e servindo, encontraremos a felicidade que há muito tempo espera por nós. Vivamos na condição de homens perecíveis e Espíritos imortais, sem nos esquecermos que existe um Pai que nos sustenta os destinos e nos impulsiona ao progresso. Vivamos e confiemos! E não se esqueça, amigo leitor, que a nossa felicidade será proporcional à felicidade e ao bem que fizermos aos outros.

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 9 (Ouvindo impressões).
[2] Revista Espírita – Allan Kardec – edição de Março/1865.
[3] Alerta – Pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografado por Divaldo Pereira Franco – capítulo 32.
[4] O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec – capítulo 5 (Bem-aventurados os aflitos) – item 20.

Valdir Pedrosa – Junho/2013