Evangelho no Lar

Desejos os chamam, pensamentos os atraem

Antes de partirem com Aniceto rumo ao plano físico visando realização de tarefas e aquisição de conhecimentos, André Luiz e Vicente receberam auxílio magnético para ampliarem suas capacidades visuais. Por isso, ao chegarem à Terra, se depararam com cenas assustadoras, as quais não haviam presenciado em excursões anteriores ao círculo carnal. Disse André: “Entre dezoito e dezenove horas, atingimos uma casa singela de bairro modesto. No longo percurso, através de ruas movimentadas, surpreendia-me, sobremaneira, por se me depararem quadros totalmente novos. Identificava, agora, a presença de muitos desencarnados de ordem inferior, seguindo os passos de transeuntes vários, ou colados a eles, em abraço singular. Muitos dependuravam-se a veículos, contemplavam-nos outros, das sacadas distantes. Alguns, em grupos, vagavam pelas ruas, formando verdadeiras nuvens escuras que houvessem baixado repentinamente ao solo. (…) As sombras sucediam-se umas às outras e posso assegurar que o número de entidades inferiores, invisíveis ao homem comum, não era menor, nas ruas, ao de pessoas encarnadas, em contínuo vaivém. Não havia, ali, a serenidade dos ambientes de “Nosso Lar”, nem a calma relativa do Posto de Socorro de Campo da Paz. (…) Tinha a impressão nítida de havermos mergulhado num oceano de vibrações muito diferentes, onde respirávamos com certa dificuldade.” [1]

De fato trata-se de uma situação terrível. Já imaginaram a quantidade enorme de desencarnados que convivem conosco diariamente? Como ainda somos um tanto quanto atrasados no aspecto moral, vivendo até o momento em um planeta de provas e expiações, podemos deduzir que a maioria dos Espíritos que pululam conosco no dia a dia é formada por seres que também se mantém atrelados à retaguarda evolutiva. São irmãos inferiores que só se aproximam de nós porque permitimos, porque damos guarida e abrimos para eles as portas de nossa casa mental, franqueando-lhes livre acesso ao nosso mundo interior. Um velho adágio popular diz: “Diga-me com quem tu andas que eu direi quem tu és.” Entretanto, com os ensinamentos do Espiritismo podemos atualizá-lo da seguinte forma: Diga-me a natureza de teus desejos e pensamentos e eu te direi a natureza das tuas companhias espirituais. Os guias da humanidade disseram a Allan Kardec que o homem tem totais condições de se livrar da influência dos Espíritos inferiores que tentam arrastá-lo para o mal, tendo em vista que “(…) tais Espíritos só se apegam aos que, pelos seus desejos, os chamam, ou aos que, pelos seus pensamentos, os atraem.” [2]

Porém, essas entidades infelizes não renunciam totalmente às suas tentativas, pois ficam à espreita, em uma espécie de tocaia, aguardando um momento de invigilância do encarnado para retornarem com toda força.[3] Não obstante, é imperioso ressaltar que o meio definitivo para neutralizarmos essas influências nocivas é sempre praticar o bem em todas as oportunidades que nos forem concedidas e colocar toda a nossa fé e confiança em Deus.[4] São condições imprescindíveis para nos afastar dos maus Espíritos e, consequentemente, nos colocar em contato mais direto com os bons.

Percebam que a escolha é sempre nossa. Temos o poder de atrair para junto de nós tanto os maus quanto os bons Espíritos. Tudo depende da nossa sintonia e da nossa afinidade. Por isso, quando percebermos que nossos pensamentos, desejos e sentimentos não estão condizentes com as lições do Cristo, é imprescindível buscarmos o socorro da prece, rogando a Deus e a Jesus o amparo da Espiritualidade Superior, a fim de nos livrarmos das más influências. No entanto, é necessário também nos esforçarmos diariamente na prática do bem em todas as oportunidades possíveis.

Não obstante as dificuldades enfrentadas por André e Vicente na crosta terrestre, Aniceto esclareceu que, com o passar do tempo, seus poderes de resistência seriam ampliados, o que minimizaria os efeitos das sensações penosas que experimentavam. O instrutor, contudo, recomendava aos alunos bom ânimo e fortaleza mental ante todo e qualquer quadro menos agradável com o qual se deparassem. Com sua vasta experiência, explicava aos pupilos que a eficiência do auxílio, a quem quer que seja, depende muito de uma persistente educação, uma vez que não é possível ajudar alguém prendendo-nos a fraquezas de qualquer tipo. E aqui nos lembramos de Kardec, que nos ensinou que “a educação é o conjunto de hábitos adquiridos” [5]. Isso quer dizer que precisamos renovar os nossos hábitos e nos reeducar. Assim, estaremos próximos dos bons Espíritos e em condições de sermos instrumentos úteis em suas abnegadas e luminosas mãos. Seremos, enfim, parceiros de Jesus!

Valdir Pedrosa
[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 34 (Oficina de Nosso Lar).
[2] O Livros dos Espíritos – Allan Kardec – 2ª parte (Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos) – capítulo 9 (Da intervenção dos Espíritos no mundo corporal) – questão 467.
[3] O Livros dos Espíritos – Allan Kardec – 2ª parte (Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos) – capítulo 9 (Da intervenção dos Espíritos no mundo corporal) – questão 468.
[4] O Livros dos Espíritos – Allan Kardec – 2ª parte (Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos) – capítulo 9 (Da intervenção dos Espíritos no mundo corporal) – questão 469.
[5] O Livros dos Espíritos – Allan Kardec – 3ª parte (Das leis morais) – capítulo 3 (Da lei do trabalho) – comentário de Kardec à questão 685-a.

Ser luz

Falando novamente ao povo, Jesus disse: “Eu sou a luz
do mundo. Quem me segue, nunca andará em trevas, mas
terá a luz da vida”. (João, 8:12).

 

Em sentido figurado, a luz é aquilo ou aquele que esclarece, ilumina ou guia o espírito. O simbolismo da luz pode ser observado em toda a revelação bíblica e nos pensadores notáveis de nossa história. Temos que a primeira ação de Deus registrada pela Bíblia é a separação da luz e das trevas (Gênesis 1: 3-5). No relato, Deus é o único autor da luz e até as próprias trevas reconhecem o seu poder. A metáfora da luz é encontrada em outros trechos dos livros que compõe o Antigo Testamento, nas profecias. Por isso, diz-se que “Deus é luz”.

No Novo Testamento, a luz prometida pelos profetas surge quando Jesus começa a sua pregação na Galiléia e cumpre-se o oráculo de Isaías 9:1 (Mt, 4:16). Quando ele ressuscita, “segundo as profecias”, é para “anunciar a luz ao povo e às nações pagãs ”(At: 26: 23). Cristo é revelado como luz, mas é sobretudo por seus atos e palavras que vemos Cristo revelar-se como luz do mundo. A metáfora da luz está presente em Santo Agostinho, que compara o conhecimento à luz e atribui a Deus a fonte que ilumina as coisas e as portas à luz do dia. Locke (filosofo inglês e ferrenho defensor da liberdade e da tolerância religiosa) compara a luz da lamparina, sua chama um tanto débil, com o entendimento humano.

Na Codificação, realizada por Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, questão 625, encontramos o esclarecimento de que: “Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da lei do Senhor, porque, sendo ele o mais puro de quantos têm aparecido na Terra, o Espírito Divino o animava.” No Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo I, item 3, para elucidar o que Jesus representa para os espíritas temos que seu papel não foi de um simples legislador moralista, cheio de promessas. Sua autoridade vinha da natureza excepcional do seu Espírito e da sua missão divina, que se resume em nos ensinar que a verdadeira vida não é a que transcorre na Terra e sim a que é vivida no reino dos céus, estágio de conexão contínua com Deus.

Na obra A Caminho da Luz, psicografada por Francisco Cândido Xavier, em que o Espírito Emmanuel traça a história da civilização à luz do Espiritismo, encontramos a seguinte afirmativa sobre Jesus: “[…] Todas as coisas humanas se modificarão. Ele, porém, é a Luz de todas as vidas terrestres, inacessível ao tempo e à destruição”. Este mesmo autor espiritual, comentando a passagem evangélica na qual o Cristo designou seus discípulos como sendo a luz do mundo (Mateus, 5:14), assinalou-lhes tremenda responsabilidade na Terra. É que quis enfatizar que todos nós, seguidores de Jesus, sem espírito de sacrifício, renúncia, tolerância e boa vontade, somos lâmpadas mortas no santuário do Evangelho.

Recomenda-nos, assim, não nos determos em conflitos ou indagações sem proveito, visto que a luz não argumenta, mas sim esclarece e socorre, ajuda e ilumina (Xavier, F.C, Fonte Viva, cap. 105). Podemos concluir que Jesus, governador espiritual da Terra, nosso modelo, impõe sua autoridade moral, fazendo luz todo o tempo, naturalmente, sem ofensas e violências. Usa da autoridade do Amor. Procurando seguir seus passos poderemos, pouco a pouco, transformarmo-nos em autênticos discípulos, que sabem refletir a luz do Evangelho nas inúmeras atividades de caridade. Somos convocados a cada dia a doar as nossas forças na atividade incessante do bem, levando consolo, alegria, esperança e conhecimento nas nossas palavras e atos. Já refletiu sobre isto? É hora de abraçarmos nossas responsabilidades! Ser luz!

Leticia Schettino Peixoto

Vibrações ruins ao chegar à Terra

“Reparem as sombras que nos rodeiam, identifiquem a mudança geral. Infelizmente, as emissões vibratórias da Humanidade encarnada são de natureza bastante inferior, em nos referindo à maioria das criaturas terrestres, e estas regiões estão repletas de resíduos escuros, de matéria mental dos encarnados e desencarnados de baixa condição. Atravessaremos grandes zonas, não propriamente tenebrosas, mas muito obscuras ao nosso olhar. Daqui a duas horas, porém, encontraremos sinais da luz solar.”[1]

Aniceto, André Luiz e Vicente não utilizaram a estrada comum que liga a colônia Nosso Lar à Terra. Sempre objetivando melhor aprendizado de seus pupilos, o mentor escolheu outro caminho, com grandes dificuldades para ser percorrido. A principal delas era a existência de vibrações inferiores por parte dos encarnados, embora se deparassem também com monstros indescritíveis
que fugiam ante a aproximação dos três, buscando refúgio no fundo da paisagem sombria e triste.

Façamos uma comparação grosseira apenas para termos noção do que os amigos sentiram naquele momento. Imagine que estamos no campo, um local arborizado e sereno, com clima agradável e ar puro que nos permite ver e ouvir tudo o que a natureza oferece: vegetação, animais, céu, Sol, etc. Entretanto, precisamos comparecer a uma grande fábrica localizada em movimentado centro urbano e que utiliza inúmeros produtos químicos nas suas atividades. Durante o trajeto, aos nos aproximarmos cada vez mais, sentiremos forte impacto causado pela brusca mudança de ambiente. Assim, seremos alvejados por uma atmosfera nauseante e carregada, que prejudicará visão e olfato, gerando desconforto, olhos lacrimejantes, dificuldade para respirar, dores de cabeça, dentre outras sensações extremamente desagradáveis. Teria sido mais ou menos isso que o trio sentiu ao se aproximar da Terra. Por consequência, podemos imaginar o quanto é meritório o trabalho de Espíritos abnegados que deixam as esferas superiores e se dirigem ao plano repulsivo e hostil em que vivemos, tendo como objetivo nos auxiliar em nossas dificuldades. Para percorrer esses caminhos é necessário muito bom ânimo e algumas disposições especiais, como no caso de André e seus companheiros.

Depois de empreenderem longa caminhada, começaram a vislumbrar a luz do Sol e, um pouco mais adiante “surgia a Terra, (…) como paisagem além, a interpenetrar-se nas extensas regiões espirituais.” Aniceto se alegrou e informou: “Entramos na zona de influenciação direta da Crosta. Poderemos, doravante, praticar a volitação, utilizando nossos conhecimentos de transformação da força centrípeta. A luz que nos banha resulta do contato magnético entre a energia positiva do Sol e a força negativa da massa planetária. Prossigamos. Não tardaremos a entrar no Rio de Janeiro.”[1] É interessante notar que no plano astral, próximo ao planeta, o ambiente é péssimo em função das energias mentais nocivas e densas oriundas dos encarnados. Porém, para podermos viver na crosta terrestre, a Providência Divina se utiliza das emanações energéticas do Sol e da força telúrica do orbe para que assim a atmosfera passe por um processo de assepsia, de tal maneira que as pessoas sofram o menos possível os terríveis efeitos de seus próprios pensamentos.

André questionou sobre como localizariam o caminho para a cidade do Rio de Janeiro. Segundo Aniceto uma bússola ajudaria, contudo, eles deveriam se orientar utilizando a energia do próprio pensamento. E dessa maneira, um pouco mais tarde, se aproximaram exaustos das ruas próximas à baía da Guanabara. Foi quando o mentor os convidou a se abeirarem do mar a fim de praticarem exercícios respiratórios. Tal fato chama-nos a atenção para algo que não é novidade para muita gente: o aspecto revigorante, salutar, relaxante e até mesmo terapêutico que o mar proporciona.

Não obstante, o amigo espiritual constata que “indiferentes à nossa presença, os transeuntes passavam apressados, de mente chumbada aos problemas de ordem material.”[1] Isso nos faz pensar: quantas maravilhas, quantas oportunidades de evolução desperdiçamos diariamente por estarmos desconectados com as forças superiores da vida? Reparem que, não são poucos os dias em que só olhamos para baixo, mantendo a cabeça atolada em atribulações do mundo físico. Mudaríamos inúmeras coisas para melhor se levantássemos os olhos para o Mais Alto e, em silêncio, buscássemos no recurso da oração o contato com os Espíritos superiores.

Valdir Pedrosa
[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 33 (A caminho da crosta).

Nossas emoções e ações

“Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis e desobedientes, e reprovados para toda boa obra. Paulo (Tito, 1: 16.).”

Conhecer o Evangelho de Jesus e respeitá-lo, buscar os esclarecimentos deste roteiro precioso por meio da Doutrina Espírita é certamente um passo importante. Agindo assim, ampliamos nossos conhecimentos, buscamos explicações para os acontecimentos da vida e consolação para as dores de nossas almas. Dizemos que buscamos Deus em tudo  em todos e que nele confiamos, nos declaramos seguidores de Jesus, o Cristo. Entretanto conforme nos assevera o apóstolo Paulo, na rotina das horas negamos a existência do Criador, através daquilo que pensamos, da forma como nos exprimimos e agimos.

Em sintonia com as afirmações de Paulo acima, na obra Caminho Verdade e Vida, o Espírito Emmanuel diz-nos que não há “como conciliar o conhecimento de Deus com o menosprezo aos semelhantes” e que com o apoio dos benfeitores espirituais devemos trabalhar o nosso reajustamento sentimental, “para que a luz divina se manifeste nas relações comuns dos homens”. O seguidor sincero de Jesus busca reconhecer, diariamente, quem realmente é, ou seja, sem se reprimir ou se envergonhar, observa e admite seus sentimentos. Trata-se de um exercício a longo prazo, aprendemos assim o auto-amor e, também, o respeito a cada individualidade. Ao longo do tempo, passamos a pensar e a agir de forma mais amorosa para conosco e para com os companheiros de caminhada.

Reparem, por exemplo, o que ocorre quando, de repente, as coisas acontecem nas nossas vidas sem nosso controle. Qual é nossa atitude, como agimos se algum de nossos planos falha? E se alguma conquist tem de ser adiada, um parente ou colega de trabalho ou de tarefa espírita não se comporta conforme nossas expectativas? E nos casos em que, sem que pudéssemos imaginar, somos traídos, roubados, perdemos bens materiais, o emprego? Os reflexos que mais se destacam mediante as frustações são as reclamações, o mau-humor, a angústia e a raiva. É normal sentir-se incomodado, triste, porque a frustação é uma emoção de difícil domínio, mas lembremo-nos de que todos vamos experimentá-la ao longo de nossas jornadas. Faz parte de nossa educação moral.

Alguns apresentam baixa ou baixíssima tolerância às frustrações e reagem transformando-as num dissabor, numa contrariedade, numa tempestade, ou pior, por vezes descarregam seu desequilíbrio emocional nos outros, com todo tipo de violência e destempero. Sim, muitos de nós sequer percebem estes distúrbios de comportamento, apenas reagem e ferem a si mesmos e aos companheiros. As consequências? Mágoas, rancores, baixa autoestima, culpa, relações destruídas, saúde comprometida.

Sem dúvida, é preciso transformação! A cada destempero, a cada atitude mediante fatos externos e internos que nos perturbam é positivo orar, meditar e se questionar: o que estou verdadeiramente sentindo? Devemos repensar o hábito nocivo de controlar a tudo e a todos e concentrar nossos esforços nos pensamentos construtivos, nas atitudes mais leves e respeitosas, praticando a caridade da tolerância para conosco e para com os irmãos.

Que tal o desafio de buscar, a cada contrariedade, ver outros ângulos da mesma questão? Confiar na Divindade e buscar apoio?Afinal as nossas obras individuais devem ser a real afirmação do bem e refletir a luz Divina! O verdadeiro espírita deve trabalhar para domar suas más inclinações, ensina-nos Kardec. E lembrando Jesus: “Nem todos os que me dizem: ‘Senhor! Senhor!’— entrarão no Reino dos Céus; apenas entrará aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mateus, 7:21)

Letícia Schettino

O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVIII, item 9., Allan Kardec.

Caminho, Verdade e Vida, Lição 116, Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito Emmanuel.
Escutando Sentimentos, Wanderley Soares de Oliveira, pelo Espírito Ermance Dufaux.

Coopere com o bem e aguarde sempre o melhor

Após um curto período de intenso aprendizado em companhia de Ismália e Alfredo, chegou o momento de Aniceto, André Luiz e Vicente continuarem o trajeto rumo à Terra, enriquecidos com as lições sobre a situação de nossos irmãos perturbados e sofredores, bem como sobre os efeitos da oração. Uma pequena máquina que se locomovia a reduzida distância do solo e que mais lembrava um automóvel com asas, movida por fluidos elétricos acumulados, conduziu o trio do posto de socorro até um local de abastecimento e manutenção nas proximidades da crosta. Segundo Aniceto, só seria possível voarem naquele aparelho até o meio-dia, sendo necessário que o restante da jornada fosse concluído a pé.

Ao justificar o motivo da caminhada, o mentor explicou: “Isto, porém, acontecerá somente enquanto não hajam vocês criado asas espirituais, que possam vencer todas as resistências vibratórias. Semelhante realização pode não estar distante. Dependerá do esforço que desejarem despender no trabalho aquisitivo. Todo aquele que opere, e coopere de espírito voltado para Deus, poderá aguardar sempre o melhor. Não é promessa de amizade. É lei.” [1]

A fala do querido benfeitor nos lembra do quanto é importante laborarmos conscientemente no bem, pois só assim venceremos as imperfeições que ainda carregamos e conquistaremos as virtudes que nos faltam. Cabe salientar que cada criatura é responsável por sua própria evolução. Os amigos espirituais, servidores das falanges do Cristo, estão sempre atentos às nossas necessidades e nos auxiliam sempre que possível, dentro dos limites da misericórdia divina e levando-se em conta o merecimento a que fazemos jus. Todavia, o trabalho de ascensão é fruto  do esforço e da perseverança individual. Ninguém o realizará por nós, visto que essa responsabilidade é nossa.

Vale ressaltar que as asas espirituais mencionadas por Aniceto simbolizam as conquistas intelectuais e morais, que resultam no patrimônio da alma, que é inalienável. Com relação a este assunto, os Espíritos responsáveis pela codificação do Espiritismo informaram a Allan Kardec que o progresso moral decorre do progresso intelectual, mas que nem sempre o segue imediatamente. Ensinaram que o intelecto auxilia no aperfeiçoamento moral por fazer o bem e o mal serem compreensíveis ao homem, dando-lhe mais segurança para utilizar seu livre-arbítrio.

Contudo, não podemos nos esquecer que existem povos bastante instruídos, porém ainda muito pervertidos. Os mentores explicaram que “enquanto não se lhes haja desenvolvido o senso moral, pode mesmo acontecer que se sirvam da inteligência para a prática do mal. O moral e a inteligência são duas forças que só com o tempo chegam a equilibrar-se.”[2] E, complementando, o grande preceptor Emmanuel, guia de Chico Xavier, ensinou certa feita que “o sentimento e a sabedoria são as duas asas com que a alma se elevará para a perfeição infinita.”[3] Ele considera que o primeiro é superior ao segundo, porque o intelecto sem  a moral pode conduzir o homem a lamentáveis quedas. Entretanto, “o avanço moral jamais será excessivo, representando o núcleo mais importante das energias evolutivas.”[3]

Convém recordar que a lei de causa e efeito vige em todo o Universo garantindo, segundo Jesus, que cada um receba de acordo com suas obras[4], pois o homem será compelido a colher tudo o que ele tiver semeado, conforme ensinou o apóstolo Paulo.[5] Portanto, se quisermos a presença do bem em nossas vidas, é imprescindível que, desde já, nos tornemos bons semeadores, a fim de espalhar as sementes do amor, da paz e da luz junto à terra íntima de todos que convivem conosco, mediante a adoção de palavras, sentimentos, pensamentos e comportamentos condizentes com os princípios cristãos que professamos.

Com pequenas atitudes no dia a dia, seremos capazes de contribuir para a disseminação do bem no planeta, tornando-nos assim instrumentos do próprio Cristo na edificação do reino de Deus na Terra. No entanto, não podemos esmorecer, tendo em vista que os guias da humanidade asseveraram que ao homem “cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.”[6]

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 33 (A caminho da crosta).
[2] O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – 3ª parte (Das leis morais) – capítulo VIII (Da lei do progresso) – item: Marcha do progresso – questão nº 780.
[3] O Consolador – Pelo Espírito Emmanuel, psicografado por Francisco Cândido Xavier – segunda parte (Filosofia) – capítulo III (Cultura) – item: Intelectualismo – questão nº 204.
[4] Evangelho de Jesus segundo Mateus – 16:27.
[5] Epístola de Paulo aos Gálatas – 6:7.
[6] O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – 3ª parte (Das leis morais) – capítulo I (Da lei divina ou natural) – item: O bem e o mal – questão nº 642.

Povoamento da Terra e diversidades das raças humanas

Depois de se dedicar à compreensão do processo de formação dos mundos e dos seres vivos no geral, no mesmo Capítulo III da Parte Primeira de O Livro dos Espíritos – o qual se destina a estudar a Criação como um dos elementos das Causas Primárias, base científica da doutrina espírita, Allan Kardec voltou sua atenção para o surgimento, povoamento da Terra e para a diversidade de raças humanas no nosso orbe, o que foi objeto das perguntas 50 a 54 de O Livro dos Espíritos, a seguir discutidas nesse artigo.

A explicação da origem da raça humana na Terra é tema controvertido, contando com versões de índole material, filosófica, evolucionista e mesmo puramente religiosa, fundadas, em certos casos, em interpretação literal de texto bíblico. Na realidade, na falta de elementos concretos e de registros históricos fidedignos que permitam ao homem descrever a sua ancestralidade, pulverizaram-se várias versões sobre o tema.

A despeito de tal polêmica, o que os Espíritos da codificação deixam claro na pergunta 50 de O Livro dos Espíritos é que a raça humana não começou por um único homem e que Adão não foi o primeiro e nem mesmo o único a povoar a Terra. A bem da verdade, como ensinam os Espíritos da codificação na pergunta 51 Adão teria vivido mais ou menos cerca de 4000 anos antes de Cristo, o que nos permite concluir que a referência a ele feita é simbólica e alegórica – estilo de escrita comum nos textos bíblicos -, o que não o transforma no primeiro homem da Terra.

A esse propósito, veja a nota explicativa desta mesma pergunta em que Allan Kardec pontua que: “O homem, cuja tradição se conservou sob o nome de Adão, foi dos que sobreviveram, em certa região, a alguns dos grandes cataclismos que revolveram em diversas épocas a superfície do globo, e se constituiu tronco de uma das raças que atualmente o povoam. As leis da Natureza se opõem a que os progressos da Humanidade, comprovados muito tempo antes do Cristo, se tenham realizado em alguns séculos, como houvera sucedido se o homem não existisse na Terra senão a partir da época indicada para a existência de Adão. Muitos, com mais razão, consideram Adão um mito ou uma alegoria que personifica as primeiras idades do mundo”.

Sobre ainda o fato de que Adão não teria sido o primeiro homem a habitar a Terra, a não ser de forma simbólica, interessante refletir sobre o fato de que, como consta no Livro de Gênesis, Caim e Abel foram filhos de Adão e Eva, tendo Caim matado Abel. Quando isso ocorre, Caim vai para a terra de Node, do lado oriental do Éden, tendo conhecido a sua mulher, que deu à luz a Enoque (Gênesis, 4:14-17). Logo, a menos que a mulher de Caim fosse a sua irmã, o que não nos parece ser o caso, a sua mulher não descende de Adão e Eva, o que reforça o entendimento de que Adão não teria sido o primeiro homem a habitar a Terra, havendo pessoas espalhadas pelo mundo.

Coerente com tal explicação, informam os Espíritos superiores na pergunta 53 de O Livro dos Espíritos que o homem surgiu em vários pontos do globo e em épocas variadas. E, como decorrência desse fato, aliado às diversas condições climáticas, de vida e de costumes, é que surgiram diferenças físicas e morais que distinguem as raças humanas na Terra, como se vê nas perguntas 52 e 53. Contudo, apesar das diferenças existentes entre os homens, constituímos uma mesma família, pois, como pontuam os Espíritos da codificação na alínea “a” da pergunta 53 “(…) porventura as múltiplas variedades de um mesmo fruto são motivo para que elas deixem de formar uma só espécie?”. O mesmo raciocínio, por evidente, se aplica à raça humana. 

Ou seja: apesar de nossa diversidades de hábitos, de graus de desenvolvimento físico e moral, de cultura, entre outros, ensinam os Espíritos superiores, na pergunta número 54 que “todos os homens são irmãos em Deus, porque não são animados pelo espírito e tendem para o mesmo fim”, não tornando esse sentimento fraternal menos verdadeiro o fato de a espécie humana não ter procedido de apenas um indivíduo, como Adão, por exemplo. Dessa forma, a espécie humana não proveio de apenas um homem, no caso  Adão, e,apesar das diferenças entre os seres humanos, as quais decorrem de clima, vida, costumes, épocas diferentes de surgimento, entre outros, integramos uma grande família, pois somos filhos de um mesmo Pai, o qual nos criou em momentos distintos segundo a Sua vontade.

Tal realidade fica mais fácil de compreender quando a analisamos sob a ótica espiritual, pois, quando o homem aqui aportou, não foi assim criado naquele instante, sendo, em verdade, resultado de um longo processo evolutivo, iniciado lá no reino mineral, que pode ter ocorrido no planeta Terra ou em outros orbes espalhados pelo universo. Com isso, as diferenças existentes entre os seres humanos são aparentes e jamais devem ser motivo para a exclusão, para a discriminação ou para a desconsideração de quem quer que seja, pois integramos, em essência, uma mesma família e somos filhos de um mesmo Pai, sendo marcados pela mesma essência e origem espiritual.

Frederico Barbosa Gomes

Chamamento

“Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos.” Jesus. Mt .22:14

O Espírito Emmanuel afirma que no estágio atual de nossa caminhada evolutiva somos “Chamados para a luz e escolhidos parabo trabalho. Eis a nossa posição real nas bênçãos de hoje”. O estudo do Evangelho nos permite conhecer a moral do Cristo e quando o fazemos à luz da Doutrina Espírita alcançamos roteiro seguro para aplicá-lo no nosso dia a dia. A ignorância sobre o amor e o trabalho de Jesus em favor de nossos espíritos aqui na Terra, nos faz permanecer num quadro de muitos sofrimentos. Por outro lado, ao estudarmos sua mensagem de sabedoria e amor vislumbramos caminhos de orientação e de libertação. Caminhamos com mais segurança e ânimo rumo ao desenvolvimento espiritual, porque tomamos consciência de nossa origem divina, da imortalidade do Espírito. Assim, temos a oportunidade de desenvolver a fé viva, aquela que sabe, sente e que nos impulsiona a servir a todos. Se servimos com amor, passamos a atuar em nosso benefício e o jugo se torna mais leve.

O apóstolo Tiago, em sua epístola dirigida aos cristãos, registra as seguintes palavras de grande proveito: “Mas todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar” (Tg.1:19). Esse é um convite para a reflexão antes de qualquer atitude, pois é indispensável que estejamos atentos e dispostos a buscar o sentido dos ensinamentos do Mestre, da Doutrina dos Espíritos, frente as sugestões e situações que nos rodeiam. Agindo assim, poderemos, com mais frequência, atuar fazendo o bem, minimizando conflitos e sendo verdadeiramente caridosos e fraternos.

Conforme o registro evangélico de Mateus, acima, Jesus nos escolheu para trabalhar em sua seara. Na obra O Livro dosEspíritos, na questão 676, nos é esclarecido que o trabalho se impõe ao ser humano como necessidade para que aperfeiçoe sua inteligência e forje o próprio progresso. Significa que devemos trabalhar não apenas para prover o próprio sustento material e o da família, como também para adquirir elevação moral e exercer a fraternidade. Somos os “escolhidos” para trabalhar na Terra como verdadeiros irmãos e, para tanto, é necessário a abnegação, ou seja, generosidade para com próximo, ainda que com o sacrifício dos próprios desejos e impulsos.

É momento de relevar as faltas do outro e trabalhar com rigor as nossas próprias imperfeições, sem culpas e adiamentos; de auxiliar os que erram; de ensinar aos que ainda ignoram o Cristo; de servir além de nossas próprias obrigações, sem direito à recompensa; de ser aquele que apaga as fogueiras da maledicência e do ódio, da discórdia e da incompreensão. Em resumo, é tempo de ouvirmos o “chamamento” do Senhor e buscar viver na sua paz.

Letícia Schettino

Chamados e Escolhidos, Francisco C. Xavier, pelo Espírito Emmanuel – Revista o Reformado – Out.1956.
O Livro dos Espíritos, Allan Kardec. Tradução Guillon Ribeiro. Questão 676

A música sublime de Ismália

Ainda no Salão da Música, no Posto de Socorro ligado à colônia espiritual “Campo da Paz”, as excelsas manifestações de música e espiritualidade superior continuavam. Depois de Cecília, a jovem filha do casal Bacelar, ter executado duas belíssimas canções ao órgão, foi a vez de Ismália, atendendo a pedido fraternal de Aniceto, a quem ofereceu divina melodia.

Segundo André Luiz, “(…) ante nossa admiração comovida, começou a tocar maravilhosamente. Logo às primeiras notas, alguma coisa me arrebatava ao sublime. Estávamos extasiados, silenciosos. A melodia, tecida em misteriosa beleza, inundava-nos o espírito em torrentes de harmonia divina. Penetrava-me o coração um campo de vibrações suavíssimas, quando fui surpreendido por percepções absolutamente inesperadas. Com assombro indefinível, reparei que a esposa de Alfredo não cantava, mas no seio caricioso da música havia uma prece que atingia o sublime – oração que eu não escutava com os ouvidos mas recebia em cheio na alma, através de vibrações sutis, como se o melodioso som estivesse impregnado do verbo silencioso e criador. As notas de louvor alcançavam-me o âmago do espírito, arrancando-me lágrimas de intraduzível emotividade”.[1] 

A melodia era, na verdade, uma magnífica oração de louvor, levando todos às lágrimas. Enquanto Cecília os sensibilizou lembrando harmonias terrenas e afeições humanas, Ismália arrebatou os presentes, elevando-os ao Altíssimo e glorificando o Pai Supremo de forma diferente do que ocorre na linguagem humana. André disse que aquela oração tocou-lhe as mais íntimas fibras do coração, levando-o a meditar na grandeza divina como nunca havia feito antes, até aquele momento, em que uma alma santificada utilizava seus vastos recursos espirituais para falar de Deus. Esse é o grande poder e a imensa influência que a música exerce sobre criaturas e ambientes. As canções devem nos elevar e servir, de algum modo, como instrumentos de nosso aperfeiçoamento íntimo. Infelizmente, não é o que comumente observamos no círculo carnal.

Experimentando a profunda serenidade ambiente, vi que luzes prodigiosas jorravam do Alto sobre a fronte de Ismália, envolvendo-a num arco irisado de efeito magnético e, com admiração e enlevo, observei que belas flores azuis partiam do coração da musicista, espalhando-se sobre nós. Desfaziam-se como se feitas de caridosa bruma anilada, ao tocar-nos, de leve, enchendo-nos de profunda alegria. A maior parte caía sobre Aniceto, fazendo- -nos recordar as palavras amigas da dedicatória. Impressionavam-me profundamente aquelas corolas fluídicas, de sublime azul-celeste, multiplicando-se, sem cessar, no ambiente, e penetrando-nos o coração como pétalas constituídas apenas de colorido perfume. Sentia-me tão alegre, experimentava tamanho bom ânimo que não conseguiria traduzir as emoções do momento. Mais alguns minutos e Ismália terminou a magistral melodia. A esposa do administrador desceu até nós, coroada de intensa luz”.[1]

Isso é o que acontece quando nos envolvemos com as obras do Bem, do Amor e da Luz. Entregando-nos de corpo e alma ao Cristo, recebemos recursos inestimáveis dos planos superiores da vida. Tais recursos, somados ao potencial que possuímos e às nossas conquistas evolutivas, se exteriorizam em benefício daqueles que nos rodeiam, tornando-nos canais multiplicadores das energias divinas. Todos nós dispomos, em menor ou maior grau, dessa condição. Entretanto, ainda são poucos os que, de fato, se dedicam a trilhar o caminho ensinado por Jesus e pelos Espíritos Superiores. 

Por fim, impressionado com a grandeza espiritual de Ismália, André Luiz buscou esclarecimentos sobre o ocorrido junto ao seu nobre mentor, Aniceto. O orientador, com sua paternal e costumeira atenção, explicou: “Recorda-se de Ana, a infeliz criatura que dorme nos pavilhões, entre pesadelos cruéis? Lembra-se de Paulo, o caluniador? Não os viu carregando pesados fardos mentais? Cada um de nós traz, nos caminhos da vida, os arquivos de si mesmo. Enquanto os maus exibem o inferno que criaram para o íntimo, os bons revelam o paraíso que edificaram no próprio coração. Ismália já amontoou muitos tesouros que as traças não roem. Ela já pode dar da infinita harmonia a que se devotou pela bondade e pelo divino amor. A luz que vimos é a mesma que jorra do plano superior, de maneira incessante, inundando os caminhos da vida, mas a melodia, a prece e as flores constituem sublime criação dessa alma santificada. Ela repartiu conosco, neste momento, uma parte dos seus tesouros eternos! Peçamos ao Senhor, meu amigo, que não tenhamos recebido em vão as sublimes dádivas!”[1]

E quanto a nós? No dia a dia, o que temos dividido com nossos irmãos de caminhada: o tesouro, a luz e a harmonia do paraíso que estamos trabalhando arduamente para edificar ou a pobreza, a treva e a desarmonia do inferno em que, invigilantes, muitas vezes ainda nos encontramos? 

Valdir Pedrosa 

 

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 32 (Melodia sublime).

Gratidão e equilíbrio interior

“Em tudo dai graças”. (Tessalonicenses, 5:18)

É incontestável que as conquistas da inteligência e os significativos avanços científicos e tecnológicos muito têm nos impulsionado ao progresso. No entanto, nunca foi tão desafiador viver e conviver num mundo com tamanha competitividade e pesada carga de informações, com anseios individuais e coletivos que, em sua maioria, resumem-se em ter, acumular e desfrutar ao máximo os prazeres proporcionados pela vida material.

Viver nesse contexto tem gerado em muitos de nós um sentimento de insatisfação íntima. Não raras vezes, deixamos de valorizar quem somos, o que conquistamos, quem está ao nosso lado e o que a vida nos dá a cada dia para focarmos nossa atenção plena naquilo que está sempre nos faltando. Essa insatisfação constante acaba produzindo um desequilíbrio interior que se torna nítido através da nossa inquietude, desarmonia íntima, falta de paz interior e alegria de viver, o que reflete, naturalmente, em nosso relacionamento com o próximo. 

Metaforicamente, seria como se tivéssemos dentro de nós uma balança espiritual necessitando de ajustes. A angústia decorrente da insatisfação aponta para a nossa dificuldade em conciliar os opostos dentro e fora de nós. Cuidarmos na medida certa da matéria e do espírito, lidarmos com as diferenças, com a idealização e com a realidade, com as mudanças e com a permanência, com nossos anseios, necessidades, prioridades…

Viver exige de nós interiorização e reflexão sobre o que temos valorizado em nossas vidas, o que temos escolhido e colocado, talvez em excesso, num dos pratos dessa balança; e o que tem nos faltado para o equilíbrio interior. Será que estamos carregando sentimentos pesados como a mágoa, ressentimento, ódio, orgulho, egoísmo, raiva, ciúmes, inveja, maledicência, etc? E os sentimentos leves como o amor, a gratidão, a fé, a alegria, a compaixão, o otimismo, a empatia, a devoção, o altruísmo, a caridade… Será que que eles têm sido priorizados em nossa vida?

A gratidão é um dos sentimentos importantíssimos para o nosso equilíbrio espiritual. Ela permite que valorizemos tudo o que temos, cada detalhe do que nos acontece, por menor que seja, com contentamento, como algo suficiente e merecedor do nosso reconhecimento. É muito fácil sermos gratos à vida quando tudo está bem, quando recebemos uma dádiva, alcançamos um êxito e nos sentimos plenos, como nos diz um trecho da canção Alma das andorinhas, de João Cabete “eu só sei dizer que sinto Deus sorrindo para mim…”

Mas precisamos ir além das aparências e cultivar a gratidão também na travessia das provações, acalentando a certeza de que Deus segura firmemente nossas mãos nesses momentos e nos acompanha sempre, nunca nos desamparando. O primeiro passo é aceitar-nos merecedores de tudo o que nos acontece, de tudo o que a vida nos tira ou oferece, nunca revoltando contra as dificuldades que nos visitam a alma ou o corpo, mesmo que no momento não consigamos entender o porquê da aflição, mas esforçarmos para reconhecer que cada dor traz uma lição que ainda precisamos aprender para evoluir. Sermos gratos evita que essas aflições endureçam nossos corações e permite que vejamos tudo como oportunidades de crescimento; faz com que a nossa inteligência se recoloque na direção de Deus, que é o manancial de bênçãos. Como Paulo de Tarso, que ensinou e exemplificou com a própria vida, sempre agradecendo a Deus em meio a tantas adversidades.

Nas mensagens Agradeçamos a Deus e Agradecimentos esquecidos, constantes nos livros Paz e Renovação e Fé, Emmanuel e André Luiz nos alertam para a necessidade de se cultivar os agradecimentos esquecidos na hora dos contratempos, de tal forma que para cada aspecto negativo do “contra”, a gratidão nos leve a enxergar o lado positivo do “a favor”, levando-nos a perceber que cada problema traz em si a solução. Exemplificando: Pessoas demostram irritação para conosco? Oportunidade de praticar a tolerância e paciência. Prejuízos aconteceram? Oportunidade de discernimento. Abandono afetivo e desilusão? Mais confiança em nós mesmos, compreensão e perdão. Problemas desafiantes? Estão nos ensinando a arte de pensar com decisão e segurança. Enfermidades? Paciência porque tudo passa. Tribulações? Os tempos de calma voltarão. Perda de entes queridos? Lembrar dos momentos de alegria e carinho que te proporcionaram e reconhecer que eles apenas viajaram antes de nós. 

Pesquisas demonstram que pessoas que cultivaram o hábito de expressar gratidão em suas vidas são mais saudáveis emocionalmente e fisicamente. Robert A. Emmmons é um pesquisador que investiga os efeitos da gratidão na saúde das pessoas. Seus estudos concluíram que exercícios diários de gratidão fortalecem o sistema imunológico devido aos estímulos cerebrais que esse sentimento desperta, podendo reduzir o risco de doenças como infarto, AVC, ansiedade e depressão.

Um dos métodos sugeridos por ele é a criação de um “Diário da gratidão” que consiste em anotar, ao final de cada dia, as coisas pelas quais somos gratos. No início pode surgir uma certa dificuldade, mas como a disciplina antecede a espontaneidade, em pouco tempo se tornará um hábito prazeroso contar as bênçãos que Deus nos dá a cada dia. 

Como afirma Emmanuel, em seu livro Urgência, lição 2, intitulada Contar as bênçãos: “contar as bênçãos que temos é a melhor medida para diminuir o peso das provações. Aprendamos a guardar para com Deus um coração agradecido, para recebermos de Deus a paz necessária para o equilíbrio.” 

 

Adriana Souza