Realizações materiais e as conquistas espirituais

Nosso talento pode ser definido como a nossa “inclinação, desejo de fazer, de conquistar”. Se temos uma aptidão para uma certa atividade, é natural que busquemos desenvolvê- -la aprimorando nossa qualificação, visando bons resultados e satisfação, pois, socialmente, nos destacamos pelo resultado de nosso trabalho, mas também por nossas atitudes ao desempenhá-lo. Cortesia, empatia, tolerância, autoconfiança, objetividade e ponderação são sempre atitudes que nos fortalecem no caminho de aprendizagem, cooperação e serviço.

Pensando assim, podemos concluir que não há qualquer contradição entre buscar a realização profissional, o conforto material e colaborar no serviço divino da evolução, conquistando valores espirituais.

Quando refletimos sobre quais são as características do nosso comportamento que precisam ser desenvolvidas ou mantidas e quais são as que precisamos transformar, podemos nos concentrar no aprimoramento dos nossos pontos fortes e monitorar nossas limitações em todos os campos da existência. É sempre bom lembrar que o autoconhecimento é exercício de amadurecimento, sendo benéfico para nossa caminhada moral e espiritual, bem como para o desenvolvimento de nosso orbe.

No capítulo XVIII, item 2, da obra A Gênese, de Allan Kardec, encontramos a seguinte afirmação sobre como se efetua o progresso do nosso planeta: “fisicamente pela transformação dos elementos que o compõem, e moralmente pela purificação dos espíritos encarnados e desencarnados que o povoam. Essas duas fases do progresso se seguem e caminham paralelamente, pois a perfeição da morada está relacionada com a perfeição do habitante”.

Falando sobre aperfeiçoamento de espíritos, observemos caridosamente que cada individualidade tem o seu próprio dinamismo, características de comportamento, mas todos temos potencial de desenvolvimento. Reflitamos que nem sempre alcançaremos o que queremos no momento em que desejamos, mas, na maioria das vezes, por bondade e justiça divinas, obteremos aquilo de que necessitamos para seguir em frente com leveza.

O Espírito Emmanuel, na lição 57 da obra Pão Nosso, de Chico Xavier, nos instrui sobre o trabalho material: “O trabalho digno é a oportunidade santa. Dentro dos círculos do serviço, a atitude assumida pelo homem honrar-lhe-á ou desonrar-lhe-á a personalidade eterna, perante Jesus Cristo”. O mesmo autor espiritual, na lição seguinte desta obra, conclui: “Tenhamos cuidado contra as tristezas e sombras esterilizadoras. Má-vontade, queixas, insatisfação, leviandades, não integram o quadro dos trabalhos que o Senhor espera de nossas atividades no mundo. Mobilizemos nossos recursos com otimismo e não nos esqueçamos de que o Pai ama o filho que contribui com alegria”.

Vamos trabalhar nossas características, desenvolver potencialidades, vigiar nossas limitações e renovar atitudes. Dessa forma, é possível sucesso nas atividades do mundo e, principalmente, experimentar a satisfação verdadeira de ascender espiritualmente rumo ao Pai.

Letícia Schettino Peixoto

Esferas

Ninguém precisa ausentar-se da Terra para entrar em relações com esferas diferentes. A diversidade de nossas moradias começa neste mundo mesmo.

Cada mente vive na onda dos desejos que lhe são próprios. Cada coração palpita nos sentimentos que esposa. Residimos no lugar em que situamos a própria alma. Há quem se detenha fisicamente num palácio, sentindo-se no purgatório do desespero, e existe quem se demore num casebre guardando as alegrias de um paraíso interior. Há quem penetre no inferno da angústia, usando a chave da fortuna, e há quem alcance o Céu, manobrando uma enxada.

Cada espírito permanece na posição que lhe agrada. Por isso mesmo Jesus, em nos socorrendo na Terra, buscou ampliar-nos a visão e aperfeiçoar-nos o espírito para que se nos engrandeça a esfera individual e coletiva de ideal e realização, de trabalho e de luta.

Cada dia com o Evangelho no coração e nas palavras, nas atitudes e nas mãos é mais um passo para as eminências
da vida.

De modo a elevar-se de condição, ninguém reclame contra o cativeiro das circunstâncias. Se os sentimentos frágeis e enfermiços são produtos do ambiente em que respiram, os sentimentos nobres e robustos são organizadores do ambiente em que atuam, na sustentação de si mesmos e a benefício dos outros.

Jesus, até hoje, convida-nos, através da Boa Nova, a construir a esfera mais elevada em que nos cabe marchar para Deus. Se nos propomos a atingir as Moradas do Amor e da Sabedoria, na Luz Imperecível, aprendamos a renunciar a nós mesmos, avançando, corajosamente, sob a cruz dos deveres de cada dia, a fim de encontrarmos o Cristo em nossa desejada renovação.

(Mensagem do Livro Abrigo – lição 14 – Médium: Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito Emmanuel)

O valor da saúde

“E curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: é chegado a vós o Reino de Deus”.

Jesus. (Lucas, 10:9)

O mestre Jesus pregava aos seus discípulos anunciando o Evangelho, a boa nova do reino de Deus; e os doze escolhidos iam com ele a toda parte buscando conhecimento. Certamente o admiravam, porque ensinava com toda autoridade que sua imensa evolução espiritual permitia. Eles estavam sob a amorosa e verdadeira autoridade do enviado de Deus e queriam aprender e progredir.

 É interessante que, por todas as localidades que passava, o tema da pregação do Cristo era o Reino de Deus, que é o estado permanente de conexão mental e espiritual com o Criador.

Qual o caminho que Jesus indicou aos seus discípulos e a todas as criaturas do orbe terrestre? Aprender a sentir a vontade amorosa de Deus, as Leis Naturais, que estão gravadas nas nossas consciências, para vivermos nossas vidas de acordo com ela.

Jesus e seus discípulos, imbuídos de amor, caridade e justiça, pelos locais que passaram, curaram muitos enfermos, com doenças de toda sorte, que atingiam os corpos físicos causando dor, desalento e exclusão social. Mas quando meditamos sobre estas curas é impossível não observar que a Jesus, e aos seus seguidores escolhidos, não interessava apenas a restauração da saúde do corpo material, mas, em especial, a correção do espírito, a volta dele aos caminhos iluminados do progresso.

Na obra de Chico Xavier, Pão Nosso, capítulo 44, o espírito Emmanuel, dissertando sobre “Curas”, registra: “que o homem comum se liberte da enfermidade, mas é imprescindível que entenda o valor da saúde”.

O benfeitor espiritual quer nos lembrar com o aviso acima que ainda temos enorme dificuldade para perceber as proveitosas lições morais e as oportunidades para o ajuste de condutas, que estão ocultas nas moléstias do corpo físico. Mas é certo também que, com bastante frequência, na vida ansiosa e desregrada que andamos levando, não trabalhamos pelo equilíbrio do nosso organismo, não cuidamos de nossa saúde.

 Em geral, em meio a muitas desculpas e justificativas, cometemos desatinos ao comer, beber e nos divertir. Em muitos casos, os doentes presos nos leitos de hospital, em tratamentos longos e difíceis, oram por suas recuperações já intencionando retornar ao mesmo esquema de vida desregrado que a doença interrompeu como alerta!

É sempre lícito que estejamos em prece pela saúde ou recuperação de nossos corpos e de nossos familiares e amigos, pois eles são os veículos que nossos espíritos se utilizam para experimentar e evoluir. Entretanto é tempo de refletirmos que, se a Providência Divina atua para curar onde há merecimento, quem recebe o beneficio deve entender a necessidade da mudança de hábitos e condutas, retomando com disposição o caminho redentor. Sejamos confiantes, mas também prudentes e sensatos!

 Letícia Schettino

Reencontros oníricos

Já passava das vinte e três horas. Dona Isabel e seus filhos se recolheram em aposento modesto e uma sensação intraduzível de paz inundava a todos, encarnados e desencarnados. Vários amigos espirituais se encontravam no pequeno jardim que rodeava a singela residência. Lá se encontrava uma entidade, assim reconhecida por Aniceto:

“- Esta é a nossa Irmã Emília, servidora em Nosso Lar, que vem ao encontro do esposo ainda encarnado.

– E ele virá até aqui? – interrogou Vicente, curioso.

– Virá pelas portas do sono físico – acrescentou nosso orientador, sorridente. – Estas ocorrências, no círculo da Crosta, dão-se aos milhares, todas as noites. Com a maioria de irmãos encarnados, o sono apenas reflete as perturbações fisiológicas ou sentimentais a que se entregam; entretanto, existe grande número de pessoas que, com mais ou menos precisão, estão aptas a desenvolver este intercâmbio espiritual”.[1]

Segundo o confrade Martins Peralva, em seu livro Estudando a Mediunidade, existem, basicamente, três tipos de sonhos: os comuns, que refletem as lembranças de quadros que permanecem impressos na própria mente; os reflexivos, que são aqueles em que o desprendimento ou emancipação da alma permite um mergulho mais profundo em nossos registros perispirituais, recuperando imagens, cenas de vidas passadas; e os espíritas, que são lembranças de nossa vivência real no mundo dos espíritos. São recordações de encontros, estudos que participamos, conversas, tarefas que desenvolvemos, etc. Além disso, podem surgir ocorrências desagradáveis e perseguições em função da sintonia espiritual.

Os mentores da Doutrina Espírita explicaram a Allan Kardec que a alma não repousa como o corpo, uma vez que “o Espírito jamais está inativo. Durante o sono, afrouxam-se os laços que o prendem ao corpo e, não precisando este então da sua presença, ele se lança pelo espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos”.[2] Ensinaram ainda, dentre outras coisas, o motivo pelo qual nem sempre nos lembramos dos sonhos: “em o que chamas sono, só há o repouso do corpo, visto que o Espírito está constantemente em atividade. Recobra, durante o sono, um pouco da sua liberdade e se corresponde com os que lhe são caros, quer neste mundo, quer em outros. Mas, como é pesada e grosseira a matéria que compõe, o corpo dificilmente conserva as impressões que o Espírito recebeu, porque a este não chegaram por intermédio dos órgãos corporais”.[3]

Todas essas informações são extremamente consoladoras, pois confirmam, até mesmo para os mais incrédulos, que é possível manter contato com os entes queridos que nos precederam no retorno à Pátria Espiritual. Não vou dizer que é impossível, porque há pessoas que não possuem aptidão para este tipo de contato, mas é muito raro encontrar alguém que nunca “sonhou” com um familiar ou amigo já desencarnado. Do mesmo modo, não é incomum escutarmos relatos de indivíduos que “sonharam” que estavam fugindo de uma perseguição, na qual alguém queria pegá-los. Está tudo explicado nos parágrafos anteriores. Pode ser um sonho comum ou reflexivo, pode ser sobre algo que nos impressionou durante o dia enquanto estávamos em estado de vigília. Contudo, a probabilidade de ser um encontro real no mundo dos espíritos é muito grande.

 As obras de André Luiz apresentam diversas passagens nas quais são demonstradas a presença de encarnados no plano espiritual, parcialmente desligados de seus corpos físicos em função do sono. Nestas situações, eles participam de diversos eventos de instrução e trabalho, se encontram com afetos, mas também podem sofrer cobranças e perseguições de desafetos do Além-Túmulo. De qualquer forma, é uma porta que possuímos para a vida depois do mundo físico. É importante salientar que, nestes momentos preciosos de liberdade, o espírito é atraído ou levado para locais com os quais tenha afinidade e para junto de companhias de vibrações semelhantes às suas.

Ressaltando o lado positivo do assunto, lembramos que o homem comum sempre relacionou sonhos à esperança. O Espiritismo vem provar essa realidade, pois através do sonhar pode o homem alimentar não apenas a esperança, mas sobretudo a certeza de que se encontrará com entidades queridas que velam por ele, habitualmente dispostas a lhe oferecer carinho, consolo e orientação. São genuínos reencontros oníricos. No entanto é bom ter em mente o alerta de que os sonhos, sejam eles comuns, reflexivos ou espíritas, serão uma consequência do tipo de vida que levamos quando estamos despertos no mundo material. Até mesmo a natureza de nossos sonhos e os Espíritos neles presentes são de responsabilidade do encarnado.

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 37 (No santuário doméstico).

 [2] O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – 2ª parte – capítulo 8 (Da emancipação da alma) – questão 401.

 [3] O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – 2ª parte – capítulo 8 (Da emancipação da alma) – questão 403

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Mediunidade vitoriosa

Martins Peralva, no capítulo “Mediunidade Vitoriosa” do livro Mediunidade e Evolução, inicia seu comentário afirmando que “o comportamento de quem reencarna com obrigações definidas no setor mediúnico é objeto de preocupação dos amigos da vida espiritual”. Cabe a cada um que se encontra envolvido com o tema se perguntar: por quê? Qual o motivo da preocupação?

Devemos considerar que a mediunidade geral, inerente a todos os seres humanos, é um instrumento sutil que exerce efeitos patentes em todos os campos da vida humana e em todos os momentos. O que pensar, no entanto, em relação àquele que renasce com obrigações definidas no setor mediúnico? Este breve comentário se destina a quem se encontra, de uma forma ou de outra, comprometido com a mediunidade tarefa.

No capítulo citado, o autor afirma ainda que “grande é o número dos que realizam, imperfeitamente, os compromissos mediúnicos”. E os motivos são bem variados: medo, insegurança, vaidade, indisciplina, desorganização, entre tantos outros. No entanto, estou convencido de que a causa raiz é a incerteza da imortalidade da alma, do intercâmbio entre os espíritos e da nossa própria natureza espiritual. Sim, eu sei. O mundo nos confunde! Faz-nos crer que o mais importante é ter, e não ser. Acumular, e não compartilhar. Ser servido, e não servir. Vencer, e não convencer. Aparentar, e não se admitir. Ou seja: tudo aquilo que é contrário à “Oração de São Francisco”. Estes comportamentos geram graves obstáculos para o que almejamos espiritualmente. Uns procrastinam diante do compromisso assumido com a mediunidade tarefa. “Amanhã eu vou! Depois eu estudo! Hoje não!” Outros permanecem matriculados no departamento mediúnico da casa espírita há décadas sem progresso. Estão ali, mas não estão. São assíduos, mas não se pode contar com eles. O tempo passa, a mediunidade fica. “Atendem objetivos inferiores dissociando o serviço do intercâmbio do imperativo evangélico”, alerta Peralva.

A atual pandemia, ao determinar o fechamento momentâneo das portas das casas religiosas, oportunizou valiosos entendimentos
que não teríamos de outra forma. Pelo menos não em tão curto espaço de tempo. Um deles é a visão do papel efetivo das casas espíritas em nossas vidas. Em minha opinião, ficou claro, por exemplo, que o estudo da doutrina (mediunidade) e do evangelho pode perfeitamente ser realizado remotamente, em grupos interativos, de modo seguro, econômico, abrangendo um número bem maior de participantes e com belíssimos reflexos na harmonia no lar. No entanto, não me parece adequado educar a prática mediúnica dessa forma. Por outro lado, caridade e amor ao próximo se exercem no contexto interpessoal, na sociedade, cuja célula mater é a família. Fazer essa distinção é fundamental. Afinal de contas, em que precisamos da casa espírita para exercer a mediunidade? Qual é a contribuição delas no exercício da caridade? E se as portas não mais se abrissem? Reflita inspirando-se no modo como viveu Jesus.

Para alcançar êxito em sua tarefa, o médium deve inicialmente avaliar sua postura em relação ao tema. Eu tenho me envolvido com
a tarefa de corpo e alma? Eu tenho contribuído para o desenvolvimento de outros médiuns? Eu tenho exercido a virtude da tolerância? E da humildade? Eu tenho perseguido um crescimento moral com base no evangelho? Qual tem sido o meu grau de dependência da casa espírita para alavancar a minha reforma íntima? Que benefícios o meu status de médium dentro do movimento espírita tem ofertado a outras pessoas, especialmente as mais próximas?

A reflexão sincera sobre esses e outros tópicos, aliada ao aprimoramento nas atitudes cristãs, darão o desejado impulso rumo à mediunidade vitoriosa. Certamente, deixaremos de ser objeto de preocupação dos amigos da vida espiritual. Muito pelo contrário. A busca da mediunidade vitoriosa nos credenciará a viver na companhia deles, sendo intuídos, protegidos e incentivados, nos posicionando finalmente como espelhos da luz maior refletindo amor a muitos corações. Eis uma boa definição para Mediunidade com Jesus. Dentro e fora da casa espírita.

Vinícius Trindade

A Evolução não é obra do acaso

A teoria da evolução do universo e dos seres no Espiritismo está bastante conectada àquela que a ciência afirma. Na Codificação, Allan Kardec procura demonstrar, sem nenhuma ideia sobrenatural ou fantasiosa, à luz da ciência de sua época, o que há por traz deste complexo processo evolutivo biológico e espiritual: uma inteligência.

Para o Espiritismo, de forma simplificada, temos: Deus criou o universo. Dentro desse universo há vários mundos. Estes mundos são criados gradativamente, juntamente com seus habitantes. Muitos planetas foram criados antes da Terra. Assim como outros ainda são e serão criados.

Segundo o mentor espiritual Emmanuel, o nosso mestre e irmão maior Jesus e sua equipe de espíritos atuaram e coordenaram toda a evolução da Terra. Atuaram sob as Leis Divinas e com os recursos criados por Deus. A questão 45 de O Livro dos Espíritos afirma que os princípios inteligente e material já se achavam […] “em estado fluido no espaço, no meio dos Espíritos, ou em outros planetas, esperando a criação da Terra para começarem existência nova em novo globo”.

No início, o princípio inteligente ou espiritual foi “semeado” pelos Espíritos Crísticos no momento da formação deste planeta. Este princípio inteligente, então, se uniu ao princípio material, posteriormente desenvolvido para organização da matéria que constituiria a natureza da Terra e a formação dos corpos dos seres vivos. Juntos, estes dois princípios se desenvolveram na Terra até que, com o passar de milênios, o principio inteligente chegou ao estágio de humanização constituindo os chamados espíritos.

 A revelação acima nos remete a hipótese, em estudo por parte da comunidade cientifica, de que a vida foi trazida à Terra do espaço, talvez em cometas, meteoritos. Ela é conhecida como panspermia cósmica e, na atualidade, torna-se mais próxima da realidade devido ao desenvolvimento do estudo de planetas extrassolares e da engenharia genética microbiana. Não há consenso, mas já existem algumas evidências avançadas de que microrganismos mais resistentes teriam conseguido sobreviver à hostilidade do espaço e chegado até a Terra. A ciência progride, aprimora seus métodos de investigação e, como afirmou Kardec, também o Espiritismo é passível de atualizações: “se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará”.

O que nos foi trazido pela Espiritualidade é que o princípio espiritual é criado constantemente por Deus, sem complexidade, e deverá estagiar milhões de anos nos reinos inferiores da criação (mineral, vegetal e animal), para estar preparado para funções mais complexas, conquistando a individualidade, habilitando-se para o despertar da inteligência e do senso moral. A evolução dos seres vivos, inclusive dos humanos, ocorre nos dois planos da vida, o físico e o espiritual.

Emmanuel segue nos esclarecendo no livro A Caminho da Luz que na Terra todo esse processo admirável não foi obra do acaso, resultado de forças cegas, inconsequentes, e sim a consequência de um trabalho bem elaborado dos Espíritos superiores, responsáveis pelo destino de nosso planeta.

Ao tratar deste processo evolutivo, os espíritos superiores não se detiveram em maiores detalhamentos, por exemplo, de como Deus cria o princípio espiritual e de como o reino mineral se aproxima desse período inicial da criação. Esta postura dos mentores se justifica porque nós ainda não temos conhecimentos e condições para melhor entendimento desta matéria.

Sobre esta questão, talvez, segundo Gabriel Delanne, no reino mineral o princípio espiritual se submeta a lei de atração e repulsão, gerando aglutinação e solidez, rumo a complexidade evolutiva. Certo é que, com o avanço da ciência, que se dá em um ritmo acelerado, futuramente poderemos ter mais orientações sobre a evolução do princípio espiritual no reino mineral e nos demais reinos.

 Emmanuel, na obra O Consolador, questão 79, diz que “a escala do progresso é sublime e infinita. No quadro exíguo dos vossos conhecimentos, busquemos uma figura que nos convoque ao sentimento de solidariedade e de amor que deve imperar em todos os departamentos da natureza visível e invisível. O mineral é atração. O vegetal é sensação. O animal é instinto. O homem é razão. O anjo é divindade”.

Conclui André Luiz no livro No mundo Maior: “não somos criações milagrosas, destinadas ao adorno de um paraíso de papelão. Somos filhos de Deus e herdeiros dos séculos, conquistando valores, de experiência em experiência, de milênio a milênio. […] Ao entrar no reino hominal, o princípio inteligente – agora sim, Espírito – está apto a dirigir a sua vida, a conquistar os seus valores pelo esforço próprio, a iniciar uma evolução de orientação centrífuga (de dentro para fora)”.

A Codificação de Kardec e as afirmativas dos espíritos mentores, Emmanuel e André Luiz, nos estimulam a refletir sobre a perfeição Divina e a importância de valorizarmos as oportunidades de cada encarnação, nos empenhando para seguir evoluindo e conquistando os valores superiores da alma: “a responsabilidade, a sensibilidade, a sublimação das emoções, enfim, todos os condicionamentos que permitirão ao Espírito alçar-se à comunidade dos Seres Angélicos”.

Leticia Schettino Peixoto

Bibliografia: Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, capítulo XI, da 2ª parte.

 Kardec, Allan. A Gênese, capítulo XI.

Xavier, Francisco Cândido. A Caminho da Luz. Pelo Espírito Emmanuel.

Xavier, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Questão 79.

Xavier, Francisco Cândido; Waldo, Vieira. Evolução em dois mundos, capítulo 3. Pelo espírito André Luiz. Gabriel Delanne, Evolução Anímica, Cap. II.

A bênção do lar

“Esperemos que esses celeiros de sentimentos se multipliquem – disse Aniceto, sensibilizado. O mundo pode fabricar novas indústrias, novos arranha-céus, erguer estátuas e cidades, mas, sem a bênção do lar, nunca haverá felicidade verdadeira.” [1]

 Ao término do estudo do Evangelho na casa de dona Isabel, Aniceto destacou a importância do lar em nossas vidas, colocando-o como um dos principais fatores para a aquisição da felicidade eterna. Vamos tentar entender um pouco melhor esse assunto iniciando com um ensinamento fantástico ministrado pelo instrutor espiritual Alexandre: “o lar não é somente a moradia dos corpos, mas, acima de tudo, a residência das almas.”[2] Para o homem comum, a residência não passa, de fato, de um local onde moram corpos físicos. Entretanto, para o homem mais espiritualizado, o lar possui aspectos muito mais amplos e complexos, pois é nele que, inicialmente, almas se encontram ou reencontram para darem continuidade a suas longas e árduas jornadas evolutivas.

Todos reencarnamos trazendo uma imensa bagagem adquirida em vidas passadas, na qual consta não apenas os valores conquistados à custa de muito esforço e perseverança, mas, mormente, trazemos vícios, mazelas, defeitos e uma infinidade de dificuldades que precisamos sanar nesta encarnação. O lar e a família são elementos imprescindíveis para se alcançar tal desiderato, tendo em vista que é nesse ambiente, junto aos pais, que o espírito reencarnado na tenra fase infantil recebe as primeiras lições, as quais devem se basear não apenas em palavras, mas sobretudo, em exemplos. Jesus ensinou que “o lar é a escola das almas, o templo onde a sabedoria divina nos habilita, pouco a pouco, ao grande entendimento da humanidade’.[3]

Aprendemos com o Espiritismo que a formação da família começa no plano espiritual, mediante estudos e análises das necessidades de todos os membros que irão compor aquele agrupamento. Desta forma é possível reunir-se no mesmo lar devedores em resgate de antigos compromissos, desafetos companheiros de erros passados, afeições queridas e amigos em trabalho de socorro mútuo. Embora possuindo histórias e aspirações distintas, todos têm um único objetivo: vivenciar o amor. Instrui Allan Kardec: “Deus permite que, nas famílias, ocorram essas reencarnações de Espíritos antipáticos ou estranhos, com o duplo objetivo de servir de prova para uns e, para outros, de meio de progresso. Assim, os maus se melhoram pouco a pouco, ao contato dos bons e por efeito dos cuidados que se lhes dispensam. O caráter deles se abranda, seus costumes se apuram, as antipatias se esvaem”.[4] Face ao exposto, podemos dizer que normalmente o lar, em sua feição educadora, nos permite o contato com lutas, dores, desavenças, menosprezo, ingratidão, alegria, amizade, amor e mais uma gama de experiências, todas preciosas para o nosso crescimento espiritual. No final das contas é o comportamento de cada pessoa que irá determinar se o ambiente no lar será celestial ou infernal.

No livro O Consolador, Emmanuel foi perguntado sobre onde estaria a base mais elevada para os métodos da educação e sobre qual seria a melhor escola de preparação das almas reencarnadas na Terra. Destacando a importância da família e do lar, o benfeitor pontificou que “as noções religiosas, com a exemplificação dos mais altos deveres da vida, constituem a base de toda a educação, no sagrado instituto da família”. Em seguida completou: “a melhor escola ainda é o lar, onde a criatura deve receber as bases do sentimento e do caráter. Os estabelecimentos de ensino, propriamente do mundo, podem instruir, mas só o instituto da família pode educar. É por essa razão que a universidade poderá fazer o cidadão, mas somente o lar pode edificar o homem. Na sua grandiosa tarefa de cristianização, essa é a profunda finalidade do Espiritismo evangélico, no sentido de iluminar a consciência da criatura, a fim de que o lar se refaça e novo ciclo de progresso espiritual se traduza, entre os homens, em lares cristãos, para a nova era da humanidade.”[5]

Para que saibamos aproveitar bem a bênção que o é o lar, o querido amigo espiritual André Luiz nos deu algumas dicas no livro Conduta Espírita, dentre as quais destacamos: “começar na intimidade do templo doméstico a exemplificação dos princípios que esposa, com sinceridade e firmeza, uniformizando o próprio procedimento, dentro e fora dele.” [6]

Em carta a Timóteo, o Apóstolo Paulo ressaltou a gratidão que devemos ter por aqueles que nos recebem como filhos e que nos proporcionam a bênção do lar: “aprendam primeiro a exercer piedade para com a sua própria família e a recompensar seus pais, porque isto é bom e agradável diante de Deus. (…) Mas se alguém não tem cuidado dos seus e principalmente dos da sua família, negou a fé e é pior do que o infiel”. [7]

E para terminar, reproduzimos uma frase curta e simples, porém de enorme relevância, proferida por uma simpática senhora que assistiu ao estudo do Evangelho na casa de dona Isabel ao lado de André Luiz: “bem-aventurados os que cultivam a paz doméstica”. [1]

Valdir Pedrosa

 [1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 37 (No santuário doméstico).

[2] Missionários da Luz – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 6 (A oração).

[3] Jesus no Lar – Pelo Espírito Neio Lúcio, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 2 (A escola das almas).

[4] O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec – capítulo 4 (Ninguém poderá ver o Reino de Deus se não nascer de novo) – item 19.

[5] O Consolador – Pelo Espírito Emmanuel, psicografado por Francisco Cândido Xavier – questões 108 e 110.

[6] Conduta Espírita – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Waldo Vieira – capítulo 5 (No lar).

 [7] I Epístola de Paulo a Timóteo – capítulo 5 – versículos 4 e 8.

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Praticar o desapego é um ato de libertação

Joanna de Ângelis, mentora de Divaldo Franco, trouxe uma elucidativa mensagem no dia 15 de janeiro de 2004, enquanto Divaldo estava em Miami, Flórida, Estados Unidos. A mensagem chama-se Apego e Libertação1 . Joanna nos diz: “beleza ou feiúra, saúde ou enfermidade, inteligência ou idiotia, são decorrências naturais das conquistas e prejuízos conseguidos nas experiências anteriores, ensejando reparação ou aprimoramento interior, a fim de que a vida estue em plenitude”. Segundo Joanna, “nosso corpo físico é uma máquina sublime que a divindade empresta ao espírito e este se organiza conforme as necessidades de evolução, portanto é um empréstimo a fim de que o ser aproveite a oportunidade da reencarnação e desenvolva e aprimore a moral”. Tudo aqui neste mundo é transitório em suas expressões materiais. Portanto, como nos diz a mentora, “perseguir as ilusões da posse, do destaque político ou social, religioso ou artístico, científico ou cultural, estético ou afetivo, desembocam em verdadeiros desastres interiores, que se apresentam como depressões, agressividade, violência, lutas contínuas, homicídios e suicídios lamentáveis”. Se essas ambições fossem usadas enquanto recursos à disposição de se alcançar metas verdadeiras em prol de promover o bem maior, valeria o esforço envidado. Nos diz Joanna: “acautela-te a respeito de qualquer tipo de apego”. É fundamental nos despojarmos de toda uma carga de crenças e falsas ilusões, as quais acabamos nos apegando, e elas pesam muito, tal como um verdadeiro fardo, nos impossibilitando de ver a realidade como ela realmente é e de perseguir objetivos reais que conduzam concretamente a nossa evolução individual, que, por conseguinte, impacta o coletivo. A mentora enfatiza: “com esta atitude emocional superarás questiúnculas e desafios infantis, caprichos e sentimentos de mágoas, de inferioridade ou de superioridade, aos quais te aprisionas por orgulho ou presunção, descobrindo a felicidade de viver com equilíbrio”. Joanna ao final desta preciosa elucidação sobre o desapego, conclui nos lembrando da importância de não acumularmos bens materiais que não nos fazem falta, que ocupam espaços, permanecem cobertos de poeira e esquecidos pelo tempo. Ela fala inclusive de medicamentos não utilizados, com data de validade em dia, que poderiam ser utilizados por quem precisa, mas que para nós não tem serventia e acabarão sendo descartados devido ao prazo de validade. Conclui a mentora: “a existência somente tem sentido profundo quando o indivíduo descobre a arte de auxiliar, tornando-se célula pulsante e valiosa do conjunto social. […] Desse modo, perceberás melhor que os teus são problemas de pequena monta diante dos inabordáveis desafios que se apresentam para outras pessoas, algumas das quais lutam sem descanso, confiando e mantendo alto padrão de harmonia interior. Outras, no entanto, que não têm a mesma resistência moral, sob tais conjunturas, derrapam no crime e na loucura.[…] Com visão fraternal desenvolvida constatarás que alguns dos órgãos que hoje constituem apoio para o teu crescimento espiritual, depois de utilizados e em perfeito estado, quando não mais necessitando deles, poderás doá-los desde já a outros companheiros de jornada que os carecem, a fim de ensejarem continuidade ao processo iluminativo da reencarnação, que te bendirão mesmo ignorando o teu gesto”.

 Denise Castelo Nogueira

 1 FRANCO, Divaldo Pereira pelo Espírito Joanna de Ângelis . Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, no dia 15 de janeiro de 2004, em Miami.

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Glacus, o mensageiro da bondade

O momento atual, caracterizado pela angústia da incerteza do amanhã, tende a nos aproximar de tudo o que há de espiritual. A humanidade está sendo convidada a ampliar o entendimento sobre a vida e a morte, a saúde e a doença, a aflição e a paz, o individual e o coletivo, o egoísmo e o altruísmo. Uma bela oportunidade, sem dúvida. Você já pensou que, apesar de necessária, essa busca espiritual não é tarefa fácil para muitas almas estagiando na Terra? E que o exercício das virtudes cristãs é tarefa ainda mais laboriosa, especialmente para aqueles que vêm conduzindo a sua vida à margem da realidade do espírito? Portanto, são felizes os convidados para compor a família do Irmão Glacus.

A primeira encarnação de Glacus Flaminius que temos notícia ocorreu no ano de 45 da Era Cristã, quando nasceu na região de Corinto, na Grécia nas cercanias de Peloponeso. Mais tarde, no ano 70 da Era Cristã, aos 25 anos de idade, já formado em ciências médicas na Grécia, foi levado pelas autoridades romanas para Roma. Viveu ainda outras valiosas experiências no campo da medicina, sempre chamando a atenção para o modo sensível por meio do qual ele exercia a profissão. Mais recentemente, no início do século XX, em reunião de espíritos de alto escalão presidida pela Irmã Veneranda, definiu-se que uma nova casa espírita deveria iniciar suas atividades, e que caberia ao Irmão Glacus essa nova missão pela grandeza de trabalho e por ser um espírito agregador. Você se lembra das antigas árvores genealógicas de família? Aquelas que, em virtude do seu nascimento, você aparecia nas últimas folhas, nos últimos galhos? Pois então, como trabalhador da última hora, você faz parte da família do Irmão Glacus, cujas raízes estão na gênese do cristianismo e cuja seiva é o amor incondicional. E o que significa isso?

Antes de tudo, é preciso recordar o princípio de nossa Casa – “O compromisso da Fraternidade é com o ser humano”. Recentemente vi uma postagem muito sensível por meio da qual um filhote de gato bem carismático dizia: “Não adianta ir à igreja rezar e envenenar os gatinhos”. De forma semelhante, não adianta frequentar uma casa cristã e não desenvolver paciência, tolerância, renúncia, desapego e caridade dentro e fora dela, especialmente em família. É de nosso Irmão Glacus essa frase: “Gradativamente, compreenderemos que fraternidade espírita é fruto da nossa transformação e só a construiremos se cooperarmos uns com os outros”.

 É verdade que alguns se sentem inaptos para conduzir essa transformação. Não se sabe se é por vaidade ou por orgulho, deixam-se levar por um sentimento de autopiedade quando o assunto é o desenvolvimento espiritual. Tomados de ansiedade, que é uma é uma doença pandêmica nos dias atuais, imaginam que deveriam se santificar imediatamente, da água para o vinho. Esquecem que a água possui o seu sublime valor e, a prova disso é que a maior parte do vinho é água. Glacus nos esclarece afirmando que “Os benfeitores espirituais nunca nos pediram certidão de perfeição, atestados de virtudes, certificados de capacitação. Eles pedem somente que nos esforcemos, sempre mais um pouco”.

Cada um de nós encontra-se num estágio evolutivo e devemos ter consciência de que estágio é este. O estudo e a vivência do evangelho são condições para se alcançar essa autocompreensão. Ninguém deve não fazer nada porque apenas pode fazer um pouco. Sempre mais um pouco, como assevera o meigo mentor. Esta é a lei! Engana-se quem baliza o seu grau de elevação espiritual tendo o outro como referência. Somos seres singulares. E por pertencer à maravilhosa família do Irmão Glacus, não precisamos ter vergonha do nosso estado espiritual. Não são assim também as famílias humanas? Todos estão no mesmo nível intelectual, moral e espiritual na intimidade do lar? Não. Nunca estão. Então por que vivem juntos? A resposta está no Hino ao Glacus: “Confiados seguiremos, à luz da fraternidade, o roteiro da esperança, praticando a caridade.”

Assim, como uma boa família, convivamos celebrando a oportunidade de elevação espiritual, sem desconsiderar os desafios de cada dia. Nosso querido mentor nos indica o que devemos fazer: “e, convertendo-se ao Pai Maior, Deus de amor, ele viu em Jesus a oportunidade da revolução amorosa. Vá e faça o mesmo!”.

Vinícius Moura

A distinção entre seres orgânicos e inorgânicos e a importância do princípio vital

Encerrando a parte primeira de O Livro do Espíritos, temos o capítulo IV, intitulado “Princípio Vital”, o qual foi didaticamente apresentado depois daqueles outros destinados ao estudo de Deus, dos elementos gerais do universo e da criação. Neste último capítulo, as atenções se voltarão para compreender os conceitos e as diferenças, sob a ótica espiritista, entre seres orgânicos e inorgânicos, vida e morte, inteligência e instinto.

De início, destaca-se a didática da exposição do tema, pois se parte de uma distinção maior, isto é, entre seres inorgânicos e orgânicos, para, então, centrar-se em temas relacionados aos seres orgânicos, que são vida e morte, inteligência e instinto.

Seguindo este roteiro, conforme nos ensinam os espíritos superiores nas respostas às perguntas 60 a 62 de O Livro dos Espíritos, vemos que a diferença entre os seres orgânicos e inorgânicos não está na matéria em si que os constituem e nem na força que une os elementos materiais que integram os seus corpos, mas no fato de que a matéria que constitui os seres orgânicos é animalizada, isto é, unida ao princípio vital.

Portanto, o princípio vital desempenha papel fundamental na caracterização de um ser orgânico. Como ensina Kardec na Introdução de O Livro dos Espíritos, o princípio vital é “[…] o princípio da vida material e orgânica, qualquer que seja a fonte donde promane, princípio esse comum a todos os seres vivos, desde as plantas até os homens”. Portanto, pouco importa se estamos diante de um ser orgânico inteligente ou não: tendo ele vitalidade, a matéria que o constitui estará animalizada e, pois, ligada ao princípio vital. Assim, “[…] há um fato que ninguém ousaria contestar, pois resulta da observação: que os seres orgânicos têm em si uma força íntima que determina o fenômeno da vida, enquanto essa força existe; que a vida material é comum a todos os seres orgânicos e independe da inteligência e do pensamento; que a inteligência e o pensamento são faculdades próprias de certas espécies orgânicas; finalmente, que entre as espécies há uma dotada também de um senso moral especial, que lhe dá incontestável superioridade sobre as outras: a espécie humana” (Livro dos Espíritos, FEB, 2007:18).

Dada a relevância da compreensão do princípio vital para a caracterização dos seres orgânicos, Allan Kardec aprofunda no estudo do tema e, na pergunta 63, questiona os espíritos da codificação se tal princípio residiria nalgum agente particular ou se seria propriedade da matéria organizada, isto é, se poderia ser considerado como causa ou consequência da vida orgânica. Em resposta, esclarecem os espíritos que o princípio vital seria ambas as coisas, pois a vida é efeito de tal agente sobre a matéria e ele dá vida aos seres que o absorvem e assimilam. Portanto, da mesma maneira que a matéria não pode viver sem a ação de tal princípio, este, sem a matéria, não é vida, por isso é considerado causa e efeito da vida do ser orgânico.

Nesse contexto, como ensinam os espíritos superiores na resposta à pergunta 67 da mesma obra, a vitalidade não é atributo permanente do agente vital, já que se desenvolve com o corpo. Assim, isoladamente, o princípio vital não é vida, sendo, portanto, necessária a sua união com a matéria e é por isso que a vitalidade estará em estado latente enquanto o princípio vital não estiver unido ao corpo.

Apesar da importância do princípio vital na constituição do universo, não é ele um dos seus elementos primitivos, ao lado do espírito e da matéria. É, como ensinam os espíritos na pergunta 64 de O Livro dos Espíritos, uma derivação da matéria universal modificada. E como se vê da resposta à pergunta 65, o princípio vital “[…] tem por fonte o fluido universal. É o que chamais fluido magnético, ou fluido elétrico animalizado. É o intermediário, o elo existente entre o Espírito e a matéria”.

Esclareça-se, por oportuno, que o princípio vital, a teor da resposta à pergunta 66 da obra de Kardec, é o mesmo para os seres orgânicos, porém modificado segundo as várias espécies existentes, sendo responsável por lhes conferir movimento e atividade. Nesse ponto, veja que o movimento da matéria em si não é a vida, mas consequência dela.

Ao ensejo de compreender melhor a discussão em torno do princípio vital, vale trazer uma explicação de Allan Kardec sobre o tema contida em A Gênese:

“Tomamos para termo de comparação o calor que se desenvolve pelo movimento de uma roda, por ser um efeito vulgar, que todo mundo conhece, e mais fácil de compreender- -se. Mais exato, no entanto, houvéramos sido, dizendo que, na combinação dos elementos para formarem os corpos orgânicos, desenvolve-se eletricidade. Os corpos orgânicos seriam, então, verdadeiras pilhas elétricas, que funcionam enquanto os elementos dessas pilhas se acham em condições de produzir eletricidade: é a vida; que deixam de funcionar, quando tais condições desaparecem; é a morte. Segundo essa maneira de ver, o princípio vital não seria mais do que uma espécie particular de eletricidade, denominada eletricidade animal, que durante a vida se desprende pela ação dos órgãos e cuja produção cessa, quando da morte, por se extinguir tal ação”. (A Gênese, FEB, 2008: 228).

Como se vê, a constatação da vida orgânica é, em si, muito complexa, pois, apesar de nos ter sido revelado que ela ocorre a partir da união da matéria ao princípio vital, o modo como efetivamente essa união se dá e como se constitui plenamente a essência de tal princípio são dados que fogem de nossa compreensão. Contudo, isso não nos impede de reconhecermos que o simples fato de existirmos e de vivermos já é algo que é fruto de uma complexidade tamanha que apenas um Ser que nos ama ao infinito seria capaz de fazer.

 Frederico Barbosa Gomes

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