Vida social no Posto de Socorro

A vida no Posto de Socorro não se resume apenas às atividades socorristas. Conta-nos André Luiz que, certa noite, Ismália e Alfredo receberam visitantes oriundos da colônia “Campo da Paz”, a qual o Posto era vinculado. “Temos, também, aqui, a nossa vida social. Como não? É preciso saber viver”[1], disse Alfredo. Naquele instante, chegava o casal Bacelar e suas duas filhas em uma carruagem confortável, semelhante as utilizadas no tempo de Luís XV, puxada por dois belos cavalos brancos. Ismália estava contentíssima com a visita e expediu convites afetuosos para que algumas famílias do Posto comparecessem ao castelo, a fim de participarem da seleta reunião.

Ao contrário do que se pode pensar, existe vida social no plano espiritual e, em muitos casos, é intensa. No livro Nosso Lar temos informações sobre eventos que ocorrem no Bosque das Águas e no Campo da Música, por exemplo. Os Espíritos superiores nos ensinam que “Deus fez o homem para viver em sociedade. Não lhe deu inutilmente a palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida de relação”. Aprendemos que o insulamento absoluto é contrário à lei da Natureza, “pois que por instinto os homens buscam a sociedade e todos devem concorrer para o progresso, auxiliando-se mutuamente”. E concluem dizendo que “o homem tem que progredir. Insulado, não lhe é isso possível, por não dispor de todas as faculdades. Falta-lhe o contato com os outros homens. No insulamento, ele se embrutece e estiola”. [2] Não importa onde estejamos, seja no plano físico ou no plano espiritual, sempre precisaremos uns dos outros. A evolução, em si, é individual, entretanto, por mais paradoxal que possa parecer, ninguém evolui sozinho. A troca de conhecimentos e experiências, bem como a permuta de sentimentos e pensamentos, não poderiam ocorrer se vivêssemos de forma isolada.

Outro ponto que nos chama atenção é quanto à aparência dos visitantes. “O chefe do grupo mostrava idade avançada, revelando, porém, excelentes disposições. A senhora dava impressão de madureza, aparentando, contudo, maravilhosa vivacidade, assim como as duas moças”. [1] Temos aí mais uma confirmação dos ensinamentos da Doutrina Espírita, que nos esclarece que, dependendo da vontade e da condição evolutiva do Espírito, ele mantém na dimensão extrafísica a aparência que melhor lhe convém. Por isso nos deparamos com relatos a respeito de entidades que se apresentam com o visual de veneráveis anciões, como também de outras que preferem se mostrar com feições mais jovens. Há igualmente aqueles que exibem aparências que tiveram em reencarnações passadas, além daqueles outros que preferem manter o visual de sua última passagem no orbe terrestre.

Por fim, e não menos importante, destacamos a seguinte passagem: “A alegria era enorme. Não se observava qualquer nota de convencionalismo menos digno, como na Terra. Os gestos de cada um, a simplicidade, a despreocupação e as frases afetuosas demonstravam sinceridade pura. Permanecíamos num quadro social inacessível ao fingimento”. [1] Infelizmente são comuns no mundo carnal relacionamentos que não são baseados na sinceridade e afeição recíprocas. Em vários nota-se a presença de venenos morais como a mentira e a falsidade, acrescentando o que chamamos de convencionalismo social, que nada mais é do que padrões comportamentais normalmente aceitos pelo senso comum, mas que, dependendo do caso, tornam a relação fria e desprovida de naturalidade.

Aqui na Terra, em função do grosseiro corpo físico de que dispomos, conseguimos sem muito esforço esconder nossas reais intenções no convívio com as pessoas que nos cercam. Todavia, o mesmo não ocorre na dimensão espiritual. Lá, desprovidos da vestimenta carnal, utilizamos o perispírito, um corpo de energia mais sutil, diáfano, no qual se reflete a intimidade de cada um. Além disso, existem Espíritos com capacidade de ler os pensamentos facilmente. Percebe-se, assim, que nestes ambientes é impossível disfarçar o que sentimos. Não há espaço para falsidade no trato com os outros. A mentira é algo em extinção. André vivenciou momentos felizes ao presenciar cenas sem fingimento de qualquer natureza, onde reinavam a simplicidade, a afeição e a sinceridade.

Aliás, me lembrei de um comentário do nosso amigo espiritual, quando acompanhava o velório de um homem chamado Dimas. Em meio ao falatório desenfreado dos presentes, André disse que “(…) no estado atual da educação humana é muito difícil alimentar, por mais de cinco minutos, conversação digna e cristalina, numa assembleia superior a três criaturas encarnadas”. [3] Destarte, torna-se urgente nossa reforma moral, nos educando de modo a adequar o discurso à ação, saindo do campo teórico para a vivência prática. Já sabemos o que precisamos fazer. O que falta é fazer.

 

Valdir Pedrosa
[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 28 (Vida social).
[2] O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – 3ª parte – capítulo VII (Da lei de sociedade) – questões 766 a 768.
[3] Obreiros da Vida Eterna – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 14 (Prestando assistência).

 

O egoísmo, o orgulho e o bem

Em o livro dos Médiuns, Kardec pergunta aos espíritos orientadores quais as condições para que as comunicações mediúnicas cheguem puras, sem alterações, e recebe como resposta que os médiuns devem superar o egoísmo e o orgulho. Devem acima de tudo desejar e praticar o bem. Reflitamos: Ao egoísmo, se opõem as virtudes da justiça e da generosidade. Praticar a justiça, segundo o Evangelho, requer a compreensão da lei de igualdade: somos diferentes, singulares e devemos tratar cada irmão nos lembrando dessa realidade. Somos irmãos e a fraternidade é o amor que considera a lei da igualdade que respeita as diferenças. As diferentes formas de preconceito são expressões do egoísmo.

O orgulho decorre da ilusão provocada pelo egoísmo que nos leva a acreditar que essa nossa personalidade temporária é muito importante, especial e superior aos demais com quem convivemos e interagimos. Como seres em evolução essa é apenas mais uma encarnação para vencermos nossas imperfeições. Ao orgulho se contrapõe a humildade. Emmanuel nos ensina que ser humilde é reconhecer seu lugar na criação e agir colaborando para a realização da obra maior de Deus. Somos parte de uma engrenagem e cada peça tem seu valor específico. Quando aceitamos essa realidade praticamos a humildade agindo com consciência.

O amor, segundo Joanna de Ângelis, se multiplica quanto mais se divide quanto mais se doa. Fazer o bem é exercitar esse amor, doando do que somos, do que temos e do que detemos temporariamente. Esse é o caminho para superar o egoísmo e o orgulho.

Ao médium, sobretudo, cabe elaborar uma nova consciência de si mesmo como ser em evolução ainda imperfeito, mas se usar a sua vontade com método e disciplina será a cada dia um instrumento melhor para servir ao Cristo.

Lúcia Elena

Um monstro chamado calúnia

Por definição, calúnia é a afirmação falsa e desonrosa a respeito de alguém. Este foi o grande mal praticado por Paulo em sua última encarnação. Ele se encontrava enfermo nas câmaras do posto de socorro da colônia espiritual “Campo da Paz”. Concentrando a capacidade ampliada de visão no doente, André Luiz e Vicente tiveram mais uma importante experiência de aprendizado, supervisionados pelo distinto Aniceto.[1]

Penetrando a tela mental de Paulo, observaram quadros sombrios com diversos vultos se movimentando, principalmente de mulheres. Dentre eles, chamava atenção o de Ismália aparentando estar ansiosa e com a saúde debilitada. Perceberam alguns vultos masculinos evidenciando desespero. No meio deles, identificaram o de Alfredo, marido de Ismália e administrador do posto de socorro, demonstrando cansaço e prematura velhice. Foi possível ouvir maldições e blasfêmias proferidas por vozes misteriosas contra Paulo. Enquanto as mulheres lhe acusavam, os homens agiam como algozes implacáveis dentro da intimidade do enfermo.

André e Vicente se mostraram surpresos pela presença de Ismália e Alfredo naquelas imagens mentais. Foi então que Aniceto explicou que Paulo era o falso amigo que havia lhes arruinado o lar.[2] Além disso, o infeliz companheiro, ali diante deles, cometeu não só a ingratidão, mas também instilou o veneno da calúnia no espírito de várias senhoras, bem como traiu a confiança de outros amigos e arrasou a paz de diversos lares. Segundo o mentor espiritual “o criminoso nunca consegue fugir da verdadeira justiça universal, porque carrega o crime cometido, em qualquer parte. Tanto nos círculos carnais, como aqui, a paisagem real do Espírito é a do campo interior. Viveremos, de fato, com as criações mais íntimas de nossa alma.”[1]

Nas recordações de Paulo, as imagens de Alfredo em pleno desespero e de Ismália aflita, criadas pelo próprio caluniador, constituíam-lhe uma verdadeira punição, pois embora o casal já houvesse superado o lamentável episódio, ele ainda se consumia nas labaredas da consciência culpada. Mais uma vez, Aniceto esclarece: “Para melhor elucidação, recordemos a crucificação do Mestre Divino. Sabemos que Jesus penetrou na glória sublime logo após a suprema dor do Calvário; entretanto, estamos ainda a vê-lo frequentemente pendurado na cruz, martirizado pelos nossos erros, flagelado pelos nossos açoites, porque a visão interior a isso nos compele. A condenação do Mestre foi um crime coletivo e esse crime estará conosco até ao dia em que nos vestirmos na divina luz da redenção. (…) O dever possui as bênçãos da confiança, mas a dívida tem os fantasmas da cobrança.” [1]

É importante frisar que Alfredo, sentindo a necessidade de disciplinar o campo do sentimento, levou Paulo ao posto de socorro para ser amparado. Desencarnado com muito ódio, o marido de Ismália muito sofreu em seus primeiros tempos no Além, não obstante a dedicação da esposa. Posteriormente, desvencilhado das vibrações de rancor e já amparado em “Campo da Paz”, caiu em si e compreendeu suas necessidades de aperfeiçoamento moral. Conquistando méritos aos poucos, logo intercedeu por Paulo, buscando-o nos abismos do umbral. Hoje, trata-o como irmão. Aniceto destaca, porém, que a vitória espiritual de Alfredo foi conquistada à custa de muito trabalho e renúncia. “Nos primeiros tempos, aproximava-se do enfermo como necessitado de reconciliação; depois, como pessoa caridosa; mais tarde adquiriu entendimento, comparando situações; em seguida, sentiu piedade; logo após, experimentou simpatia e, presentemente, conquistou a verdadeira fraternidade, o amor sublime de irmão pelo ex-inimigo.”[1]

Por fim, Vicente perguntou se Paulo ficaria no posto indefinidamente. Aniceto disse que o caluniador voltaria em breve ao planeta pela reencarnação. “Ismália tem feito a seu favor inúmeras intercessões e não deseja que ele, ao retomar a razão plena, se sinta humilhado, com o beneficio das próprias vítimas. Uma das irmãs, por ele caluniada no mundo, já voltou ao círculo carnal, e a abnegada esposa de Alfredo pediu-lhe que recebesse Paulo como filho, tão logo seja oportuno.”[1] No caso em tela, percebemos o quanto a calúnia é prejudicial à nossa evolução. Seus efeitos repercutem mesmo depois do desencarne e, em muitas situações, após grande período de perturbação, apenas a benção da reencarnação é capaz de devolver o equilíbrio e a harmonia a quem caluniou.

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 27 (O caluniador).
[2] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 17 (O romance de Alfredo).

Conhecer a si mesmo

Sob o prisma das Leis Divinas da existência e da evolução natural e permanente do Espírito, através de reencarnações sucessivas, torna-se um desafio fundamental redescobrirmos a nós mesmos. De onde vim e para onde vou? Como melhorar minha caminhada? Perguntas fortes que inquietam os nossos corações….

Em geral enxergamos fora de nós o que queremos conquistar: sucesso, fama, dinheiro, felicidade, amor, estabilidade, etc. Nos sentimos ansiosos e perdidos porque agimos com o foco exclusivo no plano material o que nos faz esquecer de olhar para dentro e refletir sobre nossas vidas.

Autoconhecimento significa estar consciente de quem você é na essência e a consciência é o que faz o ser humano poder observar e interagir com tudo o que existe dentro e fora de si.

Quais são suas características principais, que fazem você agir da forma que age, ser quem você é, ou ter os resultados que você tem?

No “O Livro dos Espíritos”, considerando a dificuldade de cada um conhecer-se a si mesmo, o Codificador indaga a respeito do meio de consegui-lo obtendo a seguinte resposta assinada pelo Espírito Santo Agostinho na questão 919a:

Fazei o que eu fazia quando vivi na Terra: ao fim do dia interrogava a minha consciência passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma.

Comentando a resposta dada por Santo Agostinho, Kardec assinala: Muitas faltas que cometemos nos passam despercebidas. (…). Se interrogássemos mais amiúde a nossa consciência veríamos quantas vezes falimos sem que o suspeitemos unicamente por não perscrutarmos a natureza e o móvel dos nossos atos.

Conhecer a si mesmo é o primeiro passo para que o Espírito possa atingir a perfeição moral. Mesmo sendo o processo de renovação para o bem longo, pois que depende do esforço de vontade de cada um ele é inevitável conforme a lei do Progresso.

Enfim nos orienta o prezado Léon Denis:

A todas as interrogações do homem, a suas hesitações, a seus temores, a suas blasfêmias, uma voz grande, poderosa e misteriosa responde: Aprende a amar! O amor é o resumo de tudo, o fim de tudo.

Letícia Schetino

Bibliografia:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 84. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003.
DENIS, Léon. O Problema do Ser do Destino e da Dor. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. Capítulo XXV.

Considerações gerais sobre espírito e matéria

Dentre os intrigantes temas tratados em O Livro dos Espíritos, as discussões sobre espírito e matéria ocupam lugar de destaque. São questões de alta indagação e abstração, sobre as quais já se debruçaram as mais brilhantes mentes que povoaram (e que povoam) a Terra. De certa forma, tais discussões remontam à origem humana e sinalizam para um caminho que permite pensar o futuro humano, despertando, assim, tanto interesse, ao mesmo tempo em que oferece tantas dificuldades, pois o homem ainda é incapaz de apreender, com a profundidade que a questão requer, todas as suas sutilezas.

Não obstante tais limitações, Allan Kardec, fiel aos seus propósitos de construir uma fé raciocinada, enfrentou essa delicada questão, submetendo aos instrutores espirituais várias perguntas sobre o tema, como se vê em várias passagens de O Livro dos Espíritos. Neste artigo, em particular, concentraremos nossa atenção às perguntas de número 21 a 28, onde o tema é tratado com singular profundidade.

De forma sintética, ensinam os instrutores espirituais que dois são os elementos gerais do universo: a matéria (elemento material) e o espírito (elemento inteligente); e, acima de tudo, está Deus, integrando o que os Espíritos da codificação denominaram de a “trindade universal” (vide pergunta 27 de O Livro dos Espíritos).

Deus, como vimos, não está no plano da matéria e do espírito, pois Ele é o criador. Apesar da dificuldade de entender o Seu conceito, é Ele a inteligência suprema e a causa primeira de todas as coisas, tendo como atributos a eternidade, a imutabilidade, a imaterialidade, a unicidade, a onipotência e bondade e justiça em grau superlativo.

O espírito e a matéria, por sua vez, integram o plano da criação. Enquanto que o espírito é definido, na pergunta 23 de O Livro dos Espíritos, como “o princípio inteligente do Universo”, a matéria é conceituada na letra “a” da pergunta 22 como “[…] o laço que prende o espírito; é o instrumento de que ele se serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce a sua ação”.

Esclareça-se que não podemos tentar entender matéria a partir de uma concepção de senso comum, mediante associação de seu conceito àquilo que impressiona nossos sentidos. Como ensinam os instrutores espirituais na pergunta 22 de O Livro dos Espíritos, “[…] a matéria existe em estados que ignorais. Pode ser, por exemplo, tão etérea e sutil, que nenhuma impressão vos cause aos sentidos. Contudo, é sempre matéria. Para vós, porém não o seria”. A atual ciência vai nessa linha, especialmente a física quântica e a teoria da relatividade, ao propor nova relação entre matéria e energia, sendo ambas, em essência, iguais, diferindo- -se apenas quanto ao grau de condensação.

O mesmo se aplica ao conceito de espírito. Ensinam os instrutores espirituais, nas perguntas 25 e 26 de O Livro dos Espíritos, que espírito e matéria não se confundem, podendo tal distinção ser concebida pelo pensamento. Contudo, ambos se unem para intelectualizar a matéria e para permitir, no atual estágio evolutivo, a manifestação do espírito, pois nossa organização ainda não é apta a perceber espírito sem matéria.

Ocorre que, ao se dizer que espírito e matéria são coisas distintas, intuitivamente – porque somos presos às dimensões do tempo e do espaço – somos tentados a pensar que o espírito seria um nada, pois ainda temos dificuldades em admitir a existência de algo que não é matéria. Para, no entanto, evitar essa má compreensão, os Espíritos ensinam na letra “a” da pergunta 23 de O Livro dos Espíritos que “não é fácil analisar o espírito com vossa linguagem. Para vós, ele nada é, por não ser palpável. Para nós, entretanto, é alguma coisa. Ficai sabendo: coisa nenhuma é o nada e o nada não existe”.

Vale esclarecer, ainda, que é inexato equiparar inteligência com espírito, já que a primeira é um atributo do segundo, conforme pergunta 24 de O Livro dos Espíritos. Da mesma forma, “espírito”, como princípio inteligente, não se confunde com “Espírito”, pois este é a individualização daquele princípio, o mesmo valendo para princípio material e corpo, já que este é a individualização daquele, como se vê da pergunta 79 daquele livro. Não sabemos, no entanto, no nosso atual estágio evolutivo, quando e como ambos os princípios (material e inteligente) e mesmo o corpo e o Espírito são criados.

Como espírito e matéria são distintos, resta saber como o primeiro pode exercer ação sobre o segundo. Para tanto, torna-se indispensável a mediação do fluido universal. Segundo a pergunta 27 de O Livro dos Espíritos, “[…] Embora, de certo ponto de vista, seja lícito classificá-lo como elemento material, ele se distingue deste por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse positivamente matéria, razão não haveria para que também o espírito não o fosse. Está colocado entre o espírito e a matéria; é fluido, como a matéria é matéria, e suscetível, pelas suas inumeráveis combinações com está e sob a ação do espírito, e produzir a infinita variedade de coisas de que apenas conheceis uma parte mínima. Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que o espírito se utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá”.

Como se vê, o estudo do espírito e da matéria é intrincado, complexo e denso, e a ele voltaremos outras vezes, advertindo, apenas, que ainda estamos nos seus primeiros passos. Mesmo assim, tudo isso nos mostra a grandeza da criação e como somos privilegiados por um dia, por decisão de Deus, nosso pai, termos sido criados e inseridos nesse contexto de crescimento e aprendizado, o qual é regado por tanto amor e cuidado.

Frederico Barbosa Gomes

Somos parte da natureza

O rompimento da barragem do Córrego do Feijão no município de Brumadinho-MG nos reuniu em torno de um estado psicológico de perplexidade. Isso mesmo! Estamos perplexos com a indiferença à vida, especialmente à vida humana. Na condição de espécie biológica temos, no mínimo, o dever de preservá-la. É evidente, que este ocorrido destaca-se pela dimensão ambiental, pelo amplo desencarne coletivo e pelo modo como ocorreu. No entanto, temos exemplos deste descuido diariamente e, frequentemente, muito perto de nós. A doutrina espírita nos consola conclamando a confiar nos desígnios de Deus e assim nos oferece um lenitivo. Ela nos exorta à fé! Mas também nos convida a aprender com os erros e agir para que a evolução se processe em nossas vidas como lei divina.

Acreditar simplesmente que “tinha que ser assim”, anula todo o esforço humano de preservação, toda inteligência, criatividade, toda ciência, toda liberdade que Deus, na sua infinita bondade e sabedoria, permitiu que alcançássemos após uma longa jornada pelos reinos da natureza. O espírita necessita humildemente reconhecer que ainda não se encontra nas condições intelectuais e morais ideais para entender definitivamente acontecimentos como esse. E a prova disso é o reduzido número de fontes de informações verdadeiramente confiáveis em nosso meio. Emmanuel, por exemplo, nos diz que “O determinismo e o livre arbítrio coexistem na estrada da vida para ascensão do homem”1. No entanto, como eles se processam na sua vida, na minha vida, enfim, ainda é algo a se estudar. O fato é que o ocorrido provocou dor nos corações humanos e destruição ecossistêmica. Mas porque isso acontece?

O apóstolo Paulo em uma de suas cartas asseverou que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos. ”2 Sabemos que o dinheiro, por si mesmo, não é bom ou ruim. Mas a cobiça faz com que ele seja convertido frequentemente em paixões conflituosas com as reais necessidades do espírito em jornada evolutiva. O resultado é a infelicidade – efeito de uma vida urgente, pautada na necessidade de satisfazer os desejos de agora vivendo a ansiedade da conquista a qualquer preço.

Consequentemente, muitos vivem como se não pertencessem à natureza. Como se não fizessem parte dela. Vivem menosprezando a reencarnação desconsiderando que a alma no corpo, no aprendizado na escola da Terra, depende do ar adequado, da água dos rios em condições de saciar a sede, do equilíbrio das florestas, da harmonia das cadeias alimentares. “Assim, tudo no Universo se liga, tudo se encadeia, tudo se acha submetido à grande e harmoniosa lei de unidade” 3. O teólogo Leonardo Boff chama isso de “Universo autoconsciente e espiritual”. O jornalista André Trigueiro nos recorda que “a afirmação espírita de que todos nós passamos pelos diferentes reinos da Natureza em uma progressão contínua determina o aparecimento de uma nova ética em relação a todas as criaturas existentes”. 4

É isso! Necessitamos de uma nova ética. A ética do cuidado! Um cuidado que transcende o fazer bem apenas àqueles que nos fazem bem, pois dessa forma não haverá recompensa como nos ensina Jesus. O cuidado que desperta a noção clara da fraternidade legítima. E por mais que o evento trágico do desencarne coletivo em Mariana e Brumadinho possa servir individualmente ao progresso do espírito, pois “de todas as calamidades terrestres, o Homem se retira com mais experiência e mais luz no cérebro e no coração, para defender-se e valorizar a vida” 5, é imperioso ampliar a nossa visão de mundo, nossa noção de espírito em evolução. E nesse caso, a mesma lama que no momento simboliza a morte pode se converter em vida. “Dito isso, cuspiu na terra e, tendo feito lama com a saliva, aplicou-a aos olhos do cego, dizendo-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé. Ele foi, lavou-se e voltou vendo”6. É tudo que precisamos no momento. A visão clara que somos parte da natureza para exercermos o verdadeiro amor por tudo e por todos.

Vinícius Moura

1 XAVIER, F. Cândido. O Consolador. Federação Espírita Brasileira. 1940. 15ªed.Brasília.

2 1 Timóteo 6:10

3 KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap.XIV, item 12.

4 TRIGUEIRO, A. Ecologia e Espiritismo. Federação Espírita Brasileira.2009. 1ªed.Brasília

5 XAVIER, Francisco C. Autores diversos. Chico Xavier pede licença. S.Bernardo do Campo: Ed. GEEM. Cap. 19 6João 9:1-7.

 

Magnetismo nas palavras

O mentor Aniceto conduziu seus pupilos, André Luiz e Vicente, na direção das câmaras que se encontravam separadas no posto de socorro. Chegando lá, o guia espiritual lhes apresentou Paulo, um irmão enfermo bastante irritado, que os recebeu com olhar vago e grito ensurdecedor. Não obstante, Aniceto o cumprimentou de forma atenciosa: “- Como vai, Paulo? ” [1]. Em função do magnetismo que revestia essas palavras, o doente ficou mais calmo, porém se conservando trêmulo e assustado.

Já diziam os mais sábios que “a palavra tem poder”, e completamos dizendo que sim, seja para o bem ou para o mal. Em verdade, tal poder ou força reside nas vibrações e energias com as quais lhe impregnamos, e isso vale tanto para a escrita quanto para a fala. Imaginemos a cena: em uma situação qualquer de desarmonia, alguém que chegue expressando palavras de serenidade e bom senso conseguirá promover uma melhora no ambiente, bem como no ânimo dos presentes. Pode acontecer um cenário inverso, ou seja, estamos em local harmonizado e, de repente, uma pessoa invigilante começa a pronunciar palavras que geram discórdia e desconforto em todos. Em poucos minutos é bem provável que muitos estarão em completo desequilíbrio, perturbando completamente a psicosfera (atmosfera psíquica) do lugar.

É comum em reuniões de intercâmbio mediúnico depararmos com Espíritos infelizes que chegam nestes recintos falando alto e, às vezes, agredindo verbalmente os tarefeiros. Diante do verbo fraterno, porém firme do esclarecedor, tais entidades recuam em função do alto poder do magnetismo envolvido nas expressões utilizadas no diálogo. O encarnado responsável pelo atendimento a esses irmãos profere frases de consolo, esclarecimento e orientação, com brandura e firmeza, apoiado no seu conhecimento e na vivência do Espiritismo, além de ter sempre presente o amparo dos guias espirituais da reunião. A palavra dita com amor e sinceridade, com serenidade e verdade, é luz imperecível no caminho de todos, sejam sofredores ou não, que nos direciona ao Cristo.

“- Tem sentido melhoras, Paulo? ”, perguntou Aniceto enquanto tocava seu ombro com bondade. O doente respondeu custando a raciocinar: “- Vou melhorando, graças…” Diante da vontade enfraquecida, faltava-lhe forças para concluir e foi neste momento que novamente percebemos a força das palavras, pois o mentor espiritual falou de forma imperativa e com a firmeza de quem deseja auxiliar: “-Termine! ”. Com extremo esforço, Paulo conseguiu concluir a afirmativa reticenciosa: “- Graças a Deus. ”

Ao presenciar o sofrimento e a indecisão do infeliz irmão, André Luiz se lembrou dos enfermos que ficavam nas Câmaras de Retificação da colônia Nosso Lar, aos quais a querida enfermeira Narcisa prestava grande e afetuosa colaboração. Buscando esclarecer seus aprendizes, Aniceto explicou: “- Veem a diferença entre os que dormem, os que estão loucos e os que sofrem? Em “Nosso Lar”, não temos dos primeiros, e os que se encontram desequilibrados, nos serviços da Regeneração, sentem, na maioria, angústias cruéis. É necessário reconheçamos que os que gemem e sofrem, em qualquer parte, estão melhorando. Toda lágrima sincera, é bendito sintoma de renovação. Os escarnecedores, os ironistas e os perturbados que não registram a dor são mais dignos de piedade, por permanecerem embotados em estranha rigidez de entendimento. ” [1]

Diante da explicação acima, podemos inferir a lamentável situação de alguns Espíritos no plano espiritual. A pior delas, sem dúvida, é daqueles que não reconhecem seus próprios erros e dificuldades. Os que não admitem suas mazelas, consideram correto tudo de errado que fizeram e que continuam a fazer, não se impondo nenhum limite, disciplina moral ou vigilância. Não enxergam a necessidade de pedir perdão a quem prejudicaram e muito menos se acham necessitados de promover a reparação das faltas cometidas. Esses, por enquanto, não se consideram devedores perante a Lei Divina e, por isso, sofrerão por algum tempo seus efeitos educativos mais rigorosos. Ainda nestes casos, a palavra amiga e abalizada, magnetizada por energias salutares, é capaz de realizar verdadeiros “milagres”, tirando-os da inércia evolutiva e chamando-os para uma maior compreensão de si mesmos.

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 27 (O caluniador).

Força mediúnica

“Porque a mediunidade não constitui privilégio dos homens de bem e por que se veem pessoas indignas que a possuem no mais alto grau e que dela usam mal? ” [1]

 A pergunta acima foi feita por Allan Kardec aos Espíritos superiores, quando da elaboração de O Livro dos Médiuns, e que Emmanuel utiliza como referência para o capítulo que se intitula Força mediúnica no Livro Seara dos Médiuns. Através das informações trazidas por Allan Kardec e por Emmanuel, destacamos alguns pontos essenciais:

1) A mediunidade é uma faculdade orgânica inerente ao homem, tal como a visão, a audição, etc. A mediunidade existe desde o surgimento da raça humana e não é uma criação ou um conceito Espírita. Na verdade, o Espiritismo surge através da mediunidade, quando Allan Kardec inicia o estudo dos fenômenos mediúnicos das “mesas girantes”.

2) A mediunidade não é um privilégio. Qualquer ser humano pode ser médium. O sábio, o ignorante, o homem de bem, o malfeitor, o honesto, o corrupto, o pobre, o rico, o ateu, o religioso, o espírita ou qualquer outra pessoa ligada a outras crenças religiosas.

 3) A mediunidade é neutra em si mesma, não é boa nem má. O bem e o mal, como produto da mediunidade, vão depender exclusivamente da força que a conduz. Ou seja, vai depender muito da condição moral e intelectual do médium.

4) O principal objetivo da mediunidade é a evolução moral da humanidade. Por isso a cada dia vê-se multiplicar o número de criaturas com possibilidades mediúnicas afloradas, em todos os lugares, em todas as classes sociais. Sendo que o progresso da humanidade somente se dará com a melhoria individual do ser humano, neste caso em especial, o médium tem uma atuação essencial, pois são como árvores destinadas a fornecer o fruto do alimento espiritual a seus irmãos.

5) A mediunidade é concedida ao médium para que ele se melhore e contribua para o melhoramento do meio em que convive, tal como outras possibilidades concedidas ao homem como a riqueza, a inteligência, a eloquência, e que invariavelmente deveremos prestar contas do mau uso destas faculdades.

Portanto, nós Espíritas, comprometidos com as diretrizes de nosso Senhor Jesus Cristo e iluminados pelas claridades da Doutrina dos Espíritos, aproveitemos a grande oportunidade desta maravilhosa ferramenta evolutiva que Deus nos concedeu. Orientemos a nossa força medianímica através da bondade, e do serviço constante no bem e do estudo perseverante, visando nosso aprimoramento moral e intelectual. Caridade e educação, sempre!

E como Emmanuel nos orienta em referência a força mediúnica, saibamos que:

“Não valem médiuns que apenas produzam fenômenos. Não valem fenômenos que apenas estabeleçam convicções. Não valem convicções que criem apenas palavras. Não valem palavras que apenas articulem pensamentos vazios. A vida e o tempo exigem trabalho e melhoria, progresso e aprimoramento. ”

 Ladimir Freitas

[1] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns: Segunda Parte – Cap. XX – Da Influência moral dos Médiuns. 62. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1996.

“Segue-me tu” – Jesus.

Com o advento de tecnologias e das redes sociais, possibilitou-se uma maior interação entre pessoas, sejam elas pessoas físicas e/ou jurídicas. E, a cada dia mais, aplicativos são lançados para que se tenha acesso a informação ou ainda a conteúdo que mais agrade ao seu usuário, seja de entretenimento, seja profissional ou ainda de desejos transformados em compras ou sensações. E nessa interação constante temos a possibilidade de reunir, por afinidade de gostos, conteúdos e outros interesses, às pessoas que se relacionam conosco no que se convencionou chamar “amigos”.

E nessa interação temos a oportunidade de gostar (“likes”) ou não (“dislikes”) das variadas informações ou conteúdo.

Porém, algumas características nos chamam a atenção: temos mais amigos e também mais solidão; diversidade e também mais intolerância; informação e também mais desinformação. Perguntar-se-á: estamos perdidos? Não sabemos por onde seguir? Como determinar nossa conduta nesse mundo de DEUS?

Se perguntamos aos mais velhos sobre os tempos atuais um saudosismo aparecerá, de tal forma que escutaremos “no meu tempo era diferente”, “criança não fazia isso ou aquilo”, etc. Então estaremos perdidos?

Diferentemente do que se propaga, o bem é silencioso e age no tempo certo, no que podemos afirmar que caminhamos para a era da imposição pelo AMOR, no qual a importância que damos a nossa conduta não será mais por aquilo que é legal – no sentido de leis postas – mas no sentido daquilo que é moral. Em que faremos a opção por aquilo que é bom em si mesmo, na preocupação constante de que só se é feliz na medida que possibilito o outro ser feliz também.

 E qual o caminho a seguir? Há 2000 anos nos foi apresentado o Evangelho – Boa Nova – como caminho para alcançar a plenitude ou ainda conquistar em nós mesmos o Reino dos Céus. Não se trata somente de tratado escrito, mas de vida. E vida em abundância, pois procedendo como Jesus nos recomenda estamos habilitados para viver em qualquer lugar do Universo, como herdeiros do Pai que está nos Céus.

Mas, há sempre um porém. Quando deixaremos para trás as “coisas” que não me elevam e me puxam para trás? O orgulho, a vaidade e a raiva podem ser suprimidos com a conquista de novos hábitos. Deixar de cuidar da “grama do vizinho” e cuidar do meu terreno e daquilo que semeio em mim mesmo como forma de mudar o comportamento.

Emmanuel no livro Fonte Viva, capítulo 89, nos dá inesquecível advertência, no qual informa que neste mundo encontraremos perseguição, maus tratos, solidão, ignorância, incompreensão e tantas outras dificuldades, mas por outro lado nos diz também que Jesus, nas palavras do evangelho, nos conclama segui-lo: “que te importa a ti, segue-me tu”. (João 21-22)

Sigamos Jesus, não com a paz do mundo, mas com a paz que ele nos concedeu.

João Jacques

Buscar e encontrar o verdadeiro sentido da vida

Refletir sobre a própria vida é uma necessidade que não deve ser deixada para depois. Parar um pouquinho de pensar freneticamente nos afazeres, nas conexões, em várias atividades ao mesmo tempo; sair dos pensamentos superficiais e aprofundar um pouco na nossa consciência, lugar onde mora nosso “eu” verdadeiro, onde estão registradas nossas experiências e tudo o que fazemos, pensamos e sentimos, e que somente Deus conhece na totalidade.

 A ansiedade gerada pela vida moderna, que impõe falsas necessidades de se acompanhar tudo e todos, comparar, ter que fazer isso ou aquilo, parecer, conseguir, adquirir, como condições para alcançarmos a felicidade, acaba asfixiando o verdadeiro propósito da nossa vida, distanciando-nos do significado real de estarmos aqui na terra, deixando nos, na maioria das vezes, vazios, inseguros, sem saber que rumo tomar, como um barco sem vela.

Encontrar o sentido da própria vida é descobrir a nossa singularidade. É encontrar o que nos define, o que define nossa história individual e como isso irá interagir com o coletivo, em termos de contribuição para o bem comum. É identificar o ser único que cada um é e conseguir perceber que a felicidade e a paz de espírito tanto almejadas somente alcançamos quando fazemos o que realmente viemos fazer aqui na terra, ou seja, cumprir o nosso dever, a nossa missão.

 Mas como perceber isso? Quais os caminhos para se alcançar esse sentido, para descobrir o que viemos fazer aqui, o nosso papel, o que planejamos melhorar em nós, o que planejamos fazer e quem planejamos ser enquanto espíritos reencarnados?

Ao pararmos para refletir sobre a própria vida, acessamos nossa consciência e fazemos uma releitura das nossas experiências, dos acontecimentos e suas marcas. Nesse ato, vamos atribuindo significados de acordo com as nossas crenças, valores e de acordo com a pessoa que nos tornamos e construímos para conduzir a própria vida. Isso é muito importante porque muitas vezes nós atribuímos todo o sentido da nossa existência a uma pessoa, ou a um bem material ou estilo de vida, um hobbie, um animalzinho de estimação, um trabalho ou cargo, ou a um fato que a gente quer muito que aconteça; de forma que depositamos e investimos ali todo o potencial da nossa alma. Fazemos projetos de vida nesse sentido e os emolduramos como se fossem definitivos, atrelando a eles a nossa felicidade. Mas chega um dia em que a vida nos afasta da razão que achávamos que era o motivo do nosso viver, e nos pede para aceitar o que é nosso de verdade. Então, apodera- se de nós o sentimento de fragilidade, de estar “sem chão”, sem forças para seguir em frente e sem motivos para viver. Porque, na verdade, é a força e o potencial da alma que nos dão a direção e senso interior. Nosso alicerce, o sentido da nossa vida, nós devemos buscar e encontrar dentro de nós mesmos, no nosso templo interior, conhecendo e explorando nossos potenciais inatos, descobrindo nossos valores e crenças, que irão ressignificar as experiências menos felizes que tivemos que passar, atribuindo um sentido para cada acontecimento, compreendendo, de fato, a importância de cada um para a nossa evolução espiritual.

Para tanto, Deus nos concedeu ferramentas, pois Ele sabe que não é uma tarefa fácil para nós, crianças espirituais que somos. O Evangelho de Cristo à luz da Doutrina Espírita, o recurso da prece e a prática da caridade nos proporcionam lucidez para clarear nossa visão e interpretar a própria vida, extraindo dela um sentido maior, que é a razão do nosso viver e de estarmos de passagem pela terra.

Esse investimento é o que temos que fazer para que a fé inabalável seja uma conquista de cada um, pois, na matéria, tudo muda, tudo se transforma. A dor passa e as alegrias também. Mas a força espiritual é perene e é a única capaz de nos sustentar nos momentos turbulentos. É a única que ninguém e nem nada nos tira, e deve ser construída por nós diariamente, porque cada criatura haverá de passar por testemunhos que poderão levar ao desespero se não houver fé em Deus. Nós sabemos que não podemos controlar, impedir que aconteçam as perdas, as frustrações, os desafios, que muitas vezes chamamos de tragédias da vida, mas podemos dar um novo significado para essas experiências. Antes de tudo, é necessário aceitar o ocorrido, conviver com o que aconteceu, entendendo a importância dessa experiência para o progresso individual do espírito e não apenas da última encarnação. Em seguida, devemos descobrir o que depende de nós fazer a partir daí e o que não depende. Isso permite que retomemos a nossa vida adaptando-a à nova realidade, vislumbrando outras possibilidades que a vida nos trará no momento certo.

 Assim estaremos fortalecendo nosso poder de lidar com os acontecimentos, com as circunstâncias diversas, desafios, dando-nos segurança, serenidade e equilíbrio para fazermos novas escolhas com sabedoria, com discernimento. Escolher também até mesmo os aspectos que vamos valorizar mais em nossas vidas. Por vezes, valorizamos mais o que nos falta, as ausências, as dores, o passado, as dificuldades e não enxergamos nem agradecemos as bênçãos.

Enfim, o principal é ter em mente, e repetir para nunca esquecer, que a nossa vida é maior do que qualquer coisa que nos aconteça; somos maiores que a dor, a tristeza, o desânimo, as perdas. Somos eternos. Somos frutos das nossas escolhas, herdeiros do nosso passado e construtores do nosso amanhã. Lembremos das sábias palavras da nossa querida benfeitora espiritual Joanna de Angelis, em sua maravilhosa obra “Iluminate” psicografada por Divaldo Pereira Franco. “És o que de ti mesmo fazes. Aprende a ser feliz, amando e ajudando, de modo que esse tesouro nunca te seja retirado, antes se te faça multiplicado. Renasceste para conquistar a verdade adormecida no teu íntimo. Confia e ama! Tem paciência e nunca desista da luta! ”.

Adriana Souza