IMPRESSÕES SOBRE A OBRA
IMPRESSÕES SOBRE A OBRA
Trata-se de uma obra não psicografada. O autor, Celso Martins (1942–2021), foi um prolífico autor espírita brasileiro, com mais de 70 obras publicadas ao longo de cerca de três décadas, dedicadas principalmente à história, à memória e à divulgação do Espiritismo no Brasil.
Além de escritor, foi professor de Física e Biologia, lecionando também na PUC-Rio em áreas como Geologia e Paleontologia. Destacou-se ainda como ensaísta, contista, trovador e esperantista, tendo recebido prêmios literários. Seu trabalho é reconhecido pela pesquisa cuidadosa, pelo resgate de personagens históricos do movimento espírita e por uma escrita clara e acessível, deixando um legado significativo para a literatura e a historiografia espíritas brasileiras.
Três Espíritas Baianos é um ensaio histórico-biográfico que narra fatos da vida de três escritores e jornalistas baianos que enfrentaram grande resistência e preconceito, mas não mediram esforços na difusão da Doutrina Espírita em seus primórdios no Brasil. Essas três figuras são Deolindo Amorim, Carlos Imbassahy e Leopoldo Machado.
Apesar de o título da obra referir-se em especial a esses três personagens, o autor aborda também vários outros representantes de vulto do Espiritismo nascente no Brasil.
Celso Martins fornece uma vasta gama de informações sobre pessoas, programas de rádio, livros e periódicos que ajudaram a divulgar e a consolidar a Doutrina Espírita no país.
É digna de destaque a preocupação, o zelo e o respeito que o autor dedica a cada pessoa que, de uma forma ou de outra, contribuiu para o crescimento do Espiritismo.
Há fatos históricos bastante interessantes, como, por exemplo, a fundação da Liga Espírita do Brasil, em 1926. Essa instituição reunia espíritas que discordavam da teoria de Roustaing. De acordo com essa teoria, Jesus não teria tido um corpo de carne, mesmo durante sua vida terrena; teria possuído apenas um corpo fluídico, o mesmo com que se apresentou após a crucificação.
Entretanto, Celso Martins parece ter cometido um equívoco ao incluir Guillon Ribeiro, o grande tradutor das obras de Allan Kardec, entre autores defensores ou simpatizantes das ideias de Roustaing. Na página 26, Celso Martins escreve:
“… em 1926 é criada a Liga Espírita do Brasil, congregando os espíritas que não aceitavam a tese do corpo fluídico de Jesus, desinteligências que remontavam desde a fundação da Federação Espírita Brasileira por Augusto Elias da Silva, a 1º de janeiro de 1884, com os chamados científicos de um lado (os que, na verdade, não engoliam os livros roustainguistas de autoria de vários companheiros da FEB, como Ismael Gomes Braga, esperantista mundialmente conhecido, como Guillon Ribeiro, tradutor das obras de Kardec, como Antônio Luiz Sayão e, mais ainda, como Antônio Lima …).”
Contudo, Guillon Ribeiro, embora não tenha escrito nada reprovando explicitamente as ideias roustainguistas (ao menos não encontrei registros nesse sentido), sempre foi defensor das ideias e dos métodos adotados por Allan Kardec, o que invariavelmente o coloca na condição de alguém que rejeita as concepções de Roustaing.
Portanto, a meu ver, Celso Martins equivoca-se ao classificar Guillon Ribeiro como adepto das ideias de Roustaing. Esse possível erro — se é que de fato existe — não diminui em nada o valor da obra aqui analisada, tampouco o trabalho de Celso Martins como um todo.
Há pontos em comum entre os três personagens principais da obra:
- A riqueza das obras literárias publicadas. Foram muitos os livros e artigos de natureza variada produzidos por esses três vultos dos primeiros tempos do Espiritismo no Brasil.
Destacam-se as obras de Deolindo Amorim que buscam diferenciar o Espiritismo das demais religiões espiritualistas e das religiões de matriz africana — textos de grande valor, sobretudo pela época em que foram escritos, quando o Espiritismo ainda era pouco conhecido, pouco divulgado e alvo de forte preconceito.
De igual importância são os livros de Carlos Imbassahy, destinados a refutar teorias apresentadas por médicos e advogados, assim como algumas obras de Leopoldo Machado que se dedicam a contestar teses formuladas por um reverendo. Tais teorias tinham como objetivo único detratar o Espiritismo e as comunicações espíritas.
- A inteligência, a cultura e a retidão de caráter. Essas qualidades são intrínsecas aos três personagens da obra. Justiça seja feita, porém, não apenas a eles, mas também a quase todas as pessoas citadas ao longo do livro, que deram valiosa contribuição para a divulgação da Doutrina Espírita.
Leopoldo Machado destaca-se especialmente nesse aspecto. Tendo tido apenas oito meses de estudo na escola primária, é impressionante sua produção literária, além de sua atuação no teatro. É digna de menção, ainda, a responsabilidade que Leopoldo assumiu ao criar e educar a irmã mais nova, depois que o pai se recusou a aceitá-la pelo simples fato de ela ser mulher.
Embora haja muitos nomes, lugares e datas mencionados ao longo de todo o livro, Celso Martins utiliza uma linguagem leve e bem-humorada, o que facilita bastante a leitura.
INDICAÇÃO
A obra é recomendada a todos os leitores espíritas. Na verdade, trata-se de um livro que todo espírita deveria ler. Se hoje gozamos de fácil acesso a diversas casas espíritas em todo o Brasil e podemos nos declarar espíritas livremente, Três Espíritas Baianos mostra que, no início, a realidade era dura e bem diferente. A falta de recursos, o preconceito e o desconhecimento sobre o verdadeiro Espiritismo tornaram a vida de Deolindo Amorim, Carlos Imbassahy e Leopoldo Machado — assim como a daqueles que com eles trabalharam — bastante difícil. Temos muito a agradecer a esses valiosos trabalhadores da primeira hora do Espiritismo no Brasil.
