– TEMÁTICA CENTRAL:
A obra tem como eixo principal a espiritualidade franciscana, marcada pela simplicidade, pela pobreza voluntária e pelo amor incondicional à criação. O autor enfatiza a figura de Francisco como um homem que, ao renunciar aos bens materiais, encontrou plenitude na fraternidade e na comunhão com o mundo natural. Combina elementos históricos com uma escrita poética, aproximando o leitor da experiência mística de Francisco que é retratado não como figura distante, mas como homem de carne e osso, que enfrentou dilemas e fez escolhas radicais inspirando o leitor a refletir sobre valores como humildade, solidariedade e respeito à vida.
– DESENVOLVIMENTO DA OBRA:
O livro acompanha as principais fases da vida de São Francisco de Assis, construindo uma verdadeira jornada espiritual e existencial. No início, ele aparece como filho de uma família rica de Assis, envolvido em festas e sonhos de glória militar. Essa etapa mostra sua busca por reconhecimento e prazer.
Depois de passar por experiências de guerra e doença, Francisco vive uma transformação profunda. O autor destaca o momento em que ele renuncia aos bens materiais e escolhe a pobreza como caminho de liberdade. Um gesto marcante é quando devolve as roupas ao pai e se coloca nu diante do bispo, simbolizando sua ruptura definitiva com a vida anterior.
A narrativa mostra também como sua escolha atraiu jovens seguidores, dando origem à Ordem dos Frades Menores. Essa parte evidencia o carisma de Francisco e sua capacidade de inspirar outras pessoas.
Nos últimos capítulos, o livro retrata sua fase de sofrimento físico, marcada pelos estigmas, mas também pela plenitude espiritual. Francisco é mostrado como alguém que permaneceu fiel às suas escolhas até o fim.
Assim, a obra se apresenta como uma biografia espiritual, que acompanha Francisco desde a juventude até a morte, destacando os momentos decisivos que o transformaram em símbolo de paz, humildade e comunhão com a criação.
– ALGUNS PONTOS RELEVANTES:
“Ao soarem os sinos, monastérios e castelos cairão, de suas ruínas jorrarão tesouros, vinhos, trigo, como a fonte jorra de rochedo. Os pobres ficarão ricos. Não mais cadeias, nem dízimo, nem vassalagem, nem calabouços, nem pauladas, porque o Bem e a Justiça serão o rei e a rainha do mundo.”
“Por que razão corpos que Deus criara iguais revestiam-se uns de vestidos finos, enquanto que outros envergavam sórdidos farrapos? Doíam-lhe como uma queimadura a injustiça do mundo e a maldade dos homens. O que é que esperavam os senhores Papas, imperadores, reis, monges, todos os grandes da terra para inclinarem-se sobre a miséria humana?”
“As formigas não podem desobedecer ao Criador, mas com os homens dá-se coisa diversa. Podem estes cerrar os ouvidos quando não querem atentar senão para seus pecados e loucura, o que os torna agora mais desgraçados do que antes.”
“Sou a megera da vigília de Páscoa, sou aquela que está presente em todas as partes e esta noite quero revelar a você o meu nome: eu me chamo Miséria humana; fica muito bem o meu reino nestas pedreiras. Se me vê de bom aspecto, é porque em meu rosto se reflete aquilo que você acaba de fazer por um desgraçado, razão porque desejo recompensá-lo, oferecendo-lhe para seus esponsais minhas três amigas prediletas. Dentre elas você escolherá a companheira de sua vida; elas se chamam Guerra, Lepra e Pobreza.”
“- Se quiserem ser ricos, joguem o ouro! Deixem para lá os seus miseráveis bens! Venham comigo viver conforme o Evangelho para que o Bem e a Justiça reinem. A Felicidade lhes será dada em acréscimo.
Francisco pôs-se de joelhos, de olhos fechados, a orar silenciosamente. Da semente que acabara de lançar, quantos grãos germinariam? Um curioso rumor cresce em torno dele. Francisco abre os olhos. Ai! Não vê senão costas e calcanhares, não ouve senão risos e motejos: riam-se dele.”
– O QUE DIZ A DOUTRINA ESPÍRITA:
“O homem pode suavizar ou aumentar o amargor de suas provas, conforme o modo por que encare a vida terrena. Tanto mais sofre ele, quanto mais longa se lhe afigura a duração do sofrimento. Ora, aquele que a encara pelo prisma da vida espiritual apanha, num golpe de vista, a vida corpórea. Ele a vê como um ponto no infinito, compreende-lhe a curteza e reconhece que esse penoso momento terá presto passado. A certeza de um próximo futuro mais ditoso o sustenta e anima e, longe de se queixar, agradece ao Céu as dores que o fazem avançar. Contrariamente, para aquele que apenas vê a vida corpórea, interminável lhe parece esta, e a dor o oprime com todo o seu peso. Daquela maneira de considerar a vida, resulta ser diminuída a importância das coisas deste mundo, e sentir-se compelido o homem a moderar seus desejos, a contentar-se com a sua posição, sem invejar a dos outros, a receber atenuada a impressão dos reveses e das decepções que experimente. Daí tira ele uma calma e uma resignação tão úteis à saúde do corpo quanto à da alma, ao passo que, com a inveja, o ciúme e a ambição, voluntariamente se condena à tortura e aumenta as misérias e as angústias da sua curta existência.” Evangelho segundo o Espiritismo – Cap. V – item 13.
– SOBRE O AUTOR:
Léon Poirier (1884–1968), cineasta e escritor francês, é lembrado sobretudo por sua contribuição ao cinema histórico e documental. Contudo, em 1965, ele se aventurou também pela literatura com a obra “Um homem chamado Francisco de Assis”.
O livro revela o fascínio de Poirier por personagens espirituais e religiosos, algo já presente em sua filmografia.
Assim, a obra se insere na trajetória de Poirier como uma extensão natural de seu olhar artístico, que sempre privilegiou figuras capazes de inspirar pela força interior e pela transcendência. Um homem chamado Francisco de Assis é, portanto, mais do que uma biografia: é um testemunho literário da admiração de Poirier por aqueles que transformaram a história através da espiritualidade e da humildade.