A música sublime de Ismália

Ainda no Salão da Música, no Posto de Socorro ligado à colônia espiritual “Campo da Paz”, as excelsas manifestações de música e espiritualidade superior continuavam. Depois de Cecília, a jovem filha do casal Bacelar, ter executado duas belíssimas canções ao órgão, foi a vez de Ismália, atendendo a pedido fraternal de Aniceto, a quem ofereceu divina melodia.

Segundo André Luiz, “(…) ante nossa admiração comovida, começou a tocar maravilhosamente. Logo às primeiras notas, alguma coisa me arrebatava ao sublime. Estávamos extasiados, silenciosos. A melodia, tecida em misteriosa beleza, inundava-nos o espírito em torrentes de harmonia divina. Penetrava-me o coração um campo de vibrações suavíssimas, quando fui surpreendido por percepções absolutamente inesperadas. Com assombro indefinível, reparei que a esposa de Alfredo não cantava, mas no seio caricioso da música havia uma prece que atingia o sublime – oração que eu não escutava com os ouvidos mas recebia em cheio na alma, através de vibrações sutis, como se o melodioso som estivesse impregnado do verbo silencioso e criador. As notas de louvor alcançavam-me o âmago do espírito, arrancando-me lágrimas de intraduzível emotividade”.[1] 

A melodia era, na verdade, uma magnífica oração de louvor, levando todos às lágrimas. Enquanto Cecília os sensibilizou lembrando harmonias terrenas e afeições humanas, Ismália arrebatou os presentes, elevando-os ao Altíssimo e glorificando o Pai Supremo de forma diferente do que ocorre na linguagem humana. André disse que aquela oração tocou-lhe as mais íntimas fibras do coração, levando-o a meditar na grandeza divina como nunca havia feito antes, até aquele momento, em que uma alma santificada utilizava seus vastos recursos espirituais para falar de Deus. Esse é o grande poder e a imensa influência que a música exerce sobre criaturas e ambientes. As canções devem nos elevar e servir, de algum modo, como instrumentos de nosso aperfeiçoamento íntimo. Infelizmente, não é o que comumente observamos no círculo carnal.

Experimentando a profunda serenidade ambiente, vi que luzes prodigiosas jorravam do Alto sobre a fronte de Ismália, envolvendo-a num arco irisado de efeito magnético e, com admiração e enlevo, observei que belas flores azuis partiam do coração da musicista, espalhando-se sobre nós. Desfaziam-se como se feitas de caridosa bruma anilada, ao tocar-nos, de leve, enchendo-nos de profunda alegria. A maior parte caía sobre Aniceto, fazendo- -nos recordar as palavras amigas da dedicatória. Impressionavam-me profundamente aquelas corolas fluídicas, de sublime azul-celeste, multiplicando-se, sem cessar, no ambiente, e penetrando-nos o coração como pétalas constituídas apenas de colorido perfume. Sentia-me tão alegre, experimentava tamanho bom ânimo que não conseguiria traduzir as emoções do momento. Mais alguns minutos e Ismália terminou a magistral melodia. A esposa do administrador desceu até nós, coroada de intensa luz”.[1]

Isso é o que acontece quando nos envolvemos com as obras do Bem, do Amor e da Luz. Entregando-nos de corpo e alma ao Cristo, recebemos recursos inestimáveis dos planos superiores da vida. Tais recursos, somados ao potencial que possuímos e às nossas conquistas evolutivas, se exteriorizam em benefício daqueles que nos rodeiam, tornando-nos canais multiplicadores das energias divinas. Todos nós dispomos, em menor ou maior grau, dessa condição. Entretanto, ainda são poucos os que, de fato, se dedicam a trilhar o caminho ensinado por Jesus e pelos Espíritos Superiores. 

Por fim, impressionado com a grandeza espiritual de Ismália, André Luiz buscou esclarecimentos sobre o ocorrido junto ao seu nobre mentor, Aniceto. O orientador, com sua paternal e costumeira atenção, explicou: “Recorda-se de Ana, a infeliz criatura que dorme nos pavilhões, entre pesadelos cruéis? Lembra-se de Paulo, o caluniador? Não os viu carregando pesados fardos mentais? Cada um de nós traz, nos caminhos da vida, os arquivos de si mesmo. Enquanto os maus exibem o inferno que criaram para o íntimo, os bons revelam o paraíso que edificaram no próprio coração. Ismália já amontoou muitos tesouros que as traças não roem. Ela já pode dar da infinita harmonia a que se devotou pela bondade e pelo divino amor. A luz que vimos é a mesma que jorra do plano superior, de maneira incessante, inundando os caminhos da vida, mas a melodia, a prece e as flores constituem sublime criação dessa alma santificada. Ela repartiu conosco, neste momento, uma parte dos seus tesouros eternos! Peçamos ao Senhor, meu amigo, que não tenhamos recebido em vão as sublimes dádivas!”[1]

E quanto a nós? No dia a dia, o que temos dividido com nossos irmãos de caminhada: o tesouro, a luz e a harmonia do paraíso que estamos trabalhando arduamente para edificar ou a pobreza, a treva e a desarmonia do inferno em que, invigilantes, muitas vezes ainda nos encontramos? 

Valdir Pedrosa 

 

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 32 (Melodia sublime).