Sobre o falar

[…] Pois a boca fala do que está cheio o coração. Jesus em Mateus 12:34.

A linguagem humana é singular, posto que nos permite consumir, armazenar e comunicar uma quantidade extraordinária de informação sobre o mundo à nossa volta. Estas características foram fundamentais para o avançar do Homem ao longo da história. A voz é um dos meios de comunicação do indivíduo com o exterior, forma importante de contato com seus semelhantes, estando diretamente influenciada pelo estado emocional do indivíduo, ou seja, quando estamos contentes e seguros temos um tom de voz diferente de quando estamos tristes, ansiosos ou nervosos.

Como espíritos em caminho evolutivo, sob o roteiro do Mestre Jesus, é fundamental observarmos como falamos, do que falamos e em que tom nos expressamos, pois, a palavra, em si, é neutra, mas está sempre sujeita à intenção de quem a pronuncia: harmonizar ou degradar. É força poderosa porque plasma as ideias transmitidas pelo pensamento. Falando sobre a saúde física e mental, em página ditada ao Chico Xavier, o espírito Joaquim Murtinho, ex-senador do Brasil, diz: “Se o homem compreendesse que a saúde do corpo é o reflexo da harmonia espiritual…

A palavra agradável que proferimos ou recebemos, as manifestações de simpatia, as atitudes fraternais e a compreensão sempre disposta a auxiliar, constituem recursos medicamentosos dos mais eficientes, porque a saúde, na essência, é harmonia de vibrações.” Lembremo-nos irmãos que a pedagogia espírita é baseada no amor e devemos estar atentos ao nosso falar, pois a palavra pode ser arma de destruição, de desalento ou bálsamo para dores e estímulo para vidas. Nesse sentido, Emmanuel nos esclarece na obra Agora é o Tempo, psicografia de Chico Xavier: “Decerto, tens o direito de discordar, de repelir cortesmente essa ou aquela opinião, de divergir de alheios pontos de vista, de seguir em caminhos diferentes daqueles que se te proponha. Em qualquer circunstância, porém, não te esqueças de que os opositores são filhos de Deus tanto quanto nós, sempre credores de nosso respeito e consideração.”

No caminho de nossa evolução, passando pela esquina do autoconhecimento, uma boa sugestão é cuidar da forma como ouvimos o próximo, aquele que pensa igual, mas também o que pensa diferente, respondendo a todos com respeito, sem semear discórdias, calando, se necessário, para não ferir ou ofender. Desta maneira, vigiando, orando e trabalhando na doma do orgulho e da vaidade estaremos no caminho da paz interior.

Letícia Schettino

Perdoar sempre

Escrever sobre o perdão é sempre um desafio a mais. Talvez porque perdoar não seja tão fácil quanto parece, mas é ao mesmo tempo, uma das ações mais meritórias e enobrecedoras para nosso espírito imortal. Sim, perdoar é o remédio santo. Perdoar àqueles que Deus colocou em nosso caminho e se tornaram instrumento de sofrimento em nossas vidas requer esforço individual. Temos duas opções: perdoar agora, enquanto estamos a caminho com o ofensor e darmos um passo importante rumo à nossa evolução; ou esperar que o tempo passe… adiando o trabalho que nos cabe, aguardando uma nova oportunidade que pode nos custar uma longa espera em séculos de dores prolongadas sem necessidade.

Muitas pessoas já reconheceram em suas mentes inteligentes a necessidade de se perdoarem umas às outras. Concordam plenamente que o perdão traz benefícios para quem o pratica, e algumas até se sentem incomodadas pelo fato de ainda não conseguirem realmente perdoar. Porque lá no “ fundinho” do coração, elas guardam suas mágoas, rancores, amarguras e ressentimentos. A razão não conseguiu convencer o coração a perdoar. E ele continua pesado, oprimido. O que fazer então? Não desanimemos! Quem já entende que deve perdoar já deu o primeiro passo para conseguir. O próximo passo é começar a transformar o sentimento que nos algema à pessoa, que tira nossa vitalidade, nossa alegria de viver, e inclusive, pode até nos adoecer. É uma atitude de auto-enfrentamento na arena do nosso íntimo, onde as feras são o egoísmo, o orgulho e a vaidade que ainda habitam em nós. Na verdade, não queremos olhar para esses sentimentos porque pensamos que eles nos protegem, mas são eles que alimentam a mágoa e o rancor. Quando remoemos constantemente o mal que nos fizeram e guardamos ressentimentos é porque nossa afetividade está egoísta. Demonstra que estamos tendo tanto zelo por nós mesmos que nos apegamos a esse sentimento exacerbado de bem próprio de tal forma que temos que ressentir indefinidamente o momento em que ele foi abalado. Isso não é amor próprio. Olhamos o tempo todo prá nós mesmos, concentrando a energia que nos sobrou para rememorar o passado, os acontecimentos infelizes e a pessoa que nos prejudicou de alguma forma. Enquanto isso nossa vida está passando e não realizamos aquilo que viemos realizar em nossa trajetória evolutiva.

Perdoar não significa concordar com a atitude errada do ofensor. E nem significa que o nosso perdão vai corrigir quem nos prejudicou, porque quem corrige são as leis divinas. O perdão vai nos libertar, vai regenerar a parte “ferida” que sobrou de nós e vai nos dar força para reconstruir e seguir em frente, não permitindo que ninguém nos tire o dom de renovar a própria vida.

Não podemos esperar que de repente iremos perdoar. O perdão não acontece como num passe de mágica. Precisamos começar a abrir o coração e teremos que fazer força porque ele vai estar fechado, talvez endurecido , traumatizado ou ferido. No início, comecemos por obrigação, porque somos cristãos e é incoerente ser cristão e não perdoar. Até que um dia isso se torne um ato espontâneo, como um hábito mesmo e assim seremos capazes de perdoar sem fazermos esforços.

Lembremos dos ensinamentos de Cristo em Mateus 5:38-42, no ESE, Cap.XII “Amai os vossos inimigos” – “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal que vos querem fazer; que se alguém vos bater na face direita, lhe apresente também a outra, e que se alguém quiser pleitear contra vós, para vos tomar a túnica, também lhes entregueis o manto; e que se alguém vos obrigar a caminhar mil passos com ele, caminheis mais dois mil.”

Comecemos agora a tolerar mais, a suportar mais um pouco. Jesus nos fez a proposta de doar sempre um pouco mais. Quando perdoamos, nós, de fato, doamos mais além, doamos uma parte de nós a quem nos ofendeu. Doamos o que há de melhor em nós, e até então, não sabíamos, pois essa virtude só se desabrocha no ato de perdoar. E nós, realmente, só possuímos o que doamos. Portanto, aceitemos o convite do Cristo para “caminhar” mais, “apresentar” mais e “entregar” mais.

Ainda em Mateus, Cap.198, v.21 a 22 – “Então, aproximando-se Pedro, disse-lhe: Senhor, quantas vezes meu irmão pecará contra mim e o perdoarei? Até sete vezes? Jesus lhes diz: não te digo que até sete vezes, mas até setenta (vezes) sete”.

Quantas vezes já perdoamos o nosso próximo? Quantas ainda faltam para perdoar? Pense agora em alguém que você já entendeu que precisa perdoar. Visualize seu rosto. Olhe nos seus olhos. Só de pensar seu coração bate diferente. Uma dor pungente te visita como se espinhos cravassem nas fibras mais íntimas do seu coração? Então, é hora de buscar Jesus para te socorrer. Nesse momento, uma luz resplandecente ilumina todo o ambiente e você sente as vibrações de amor vindo em sua direção. Um bem estar, uma plenitude toma conta do seu ser ao fitar o mestre. Aqueles olhos mansos e misericordiosos de Jesus te transmitem tudo o que você precisa para começar a perdoar. Sua respiração agora está calma e seu coração leve e sereno. Cristo se aproxima e ergue suas mãos em sua direção. As chagas te fazem lembrar da cruz. Nesse momento, você recorda que Ele foi traído por um amigo e negado por outro. Você vai se aproximando e estende sua mão direita a Ele. De mãos dadas a Cristo, uma força incrível se apodera de você. Você percebe que Cristo convida a pessoa que você precisa perdoar para se aproximar . Você oferece sua mão esquerda a essa pessoa e juntos, vocês três formam uma roda Crística. É um momento de entrega. Entregue suas dores, mágoas, angústias, desilusões, ressentimentos, ao médico das almas. É um momento de revitalização. Ele veio para curar suas feridas.

Lembremos agora de como a literatura espírita pode nos ajudar nesse sentido. No maravilhoso livro Renúncia, de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier, Alcione, um espírito da mais alta envergadura, ensina-nos a enfrentar todas as dificuldades e dores da vida, amando, perdoando, tolerando e compreendendo sempre, com o coração entregue a Jesus. Que possamos guardar pra sempre suas sábias recomendações: “Deixe que as mãos de Cristo tracem o roteiro para seguirmos em frente. Não podemos enfrentar as penas do mundo sem o Cristo. Viemos para a terra para adquirir ou provar alguma virtude. É imprescindível buscar a companhia do Divino amigo para sermos socorridos a tempo. Jesus tem sempre uma palavra luminosa para cada situação, uma energia inspiradora a cada momento mais amargo, desde que lhe busquemos o socorro divino.”

Adriana Souza

Assistência espiritual aos encarnados

Conforme informou Aniceto, o senhor Bacelar era o chefe de turmas de assistência aos encarnados. Como possuía vasta experiência no assunto, se dispôs, gentilmente, a dividir seus conhecimentos com André Luiz e Vicente, utilizando símbolos pertinentes à medicina, já que ambos foram médicos na Terra. Disse ele: “(…) Recorde os seus doentes comuns. Muito raramente lembram a medicina preventiva. De modo quase invariável, esperam a positivação das moléstias para buscarem o recurso preciso. Necessitam de anestésicos para o socorro do bisturi. Fogem ao regime tão logo surja a primeira melhora. Confundem o método de tratamento, apenas se registre o primeiro sinal de cura. Detestam a dor que restabelece o equilíbrio. Descontentam-se com a indicação de purgativos. Preferem a medicação de sabor agradável. E, sobretudo, quase sempre querem saber muito mais que os médicos. Esta síntese aplicável a corpos doentes representa, em nosso campo de serviço, o resumo do programa de assistência aos Espíritos enfermos, encarnados na Terra, e com agravantes de vulto, porque, em nosso setor, não podemos manipular a alma, à maneira do cirurgião que opera as amídalas. Somos forçados à preparação do campo mental conveniente, a proceder à semeadura de pensamentos novos, velar pela germinação, ajudar os rebentos minúsculos e aguardar a obra do tempo. Nossa luta não é simples, porque, se o clínico do mundo encontra sempre familiares amorosos, dispostos a cooperar com ele em benefício do doente, o que encontramos, por nossa vez, são enormes legiões de elementos adversos à nossa atividade restauradora e curativa. Em geral, o médico do mundo presta socorro a quem deseja recebê-lo, pelo menos nas ocasiões de graves perigos; nós, porém, meus amigos, muitas vezes temos de prestar assistência aos que não a desejam, por viverem sob véus de profunda ignorância”. [1]

Diante desse relato podemos ter uma pálida ideia do trabalho que damos aos Espíritos amigos. É excelente a comparação das dificuldades encontradas nas atividades de auxílio ao homem terrestre com o desleixo que a maioria dos encarnados tem em relação à medicina preventiva. Infelizmente, uma parte imensa da humanidade se comporta realmente dessa forma. Enquanto não apresentamos problemas de saúde, menosprezamos tudo que diz respeito aos cuidados que devemos ter para com nosso corpo físico. E mesmo quando estamos doentes, abandonamos o tratamento salutar tão logo se manifestem quaisquer sinais iniciais de melhora. Fatalmente, a moléstia retornará depois, com maior gravidade.

Do ponto de vista da assistência dos Espíritos aos encarnados a situação é deveras semelhante. Quase sempre não nos dispomos aos estudos e trabalhos renovadores e edificantes na seara do amor. Se estamos bem, para que se importar com assuntos de ordem espiritual? Se temos saúde, uma boa condição econômica e financeira e um emprego estável, por que nos importarmos com as questões da alma? Entretanto, esses pensamentos costumam passar por profundas modificações quando as dificuldades batem à nossa porta: uma enfermidade grave, um revés financeiro, a perda do trabalho, etc. Em verdade, essas dificuldades são oportunidades que o Pai Celestial nos concede para evoluirmos e faz com que nos voltemos para questões que transcendem o mundo carnal. Via de regra, quando o material vai mal, o homem busca o espiritual. A grande pergunta é: precisa ser assim? E a resposta é por demais óbvia: é claro que não. Ninguém precisa sofrer para se dedicar a mitigar o sofrimento alheio. Ninguém precisa se debater na incompreensão para buscar as luzes do conhecimento espírita-cristão. Ninguém precisa amargar uma existência de dor para perceber que outras pessoas vivem com dores assaz maiores e que, ainda assim, muitos destes levam a vida de forma mais leve, exalando fé e paz, luz e discernimento. Os homens parecem preferir o sofrimento para crescer, olvidando os abundantes convites do Criador para que progridam por amor.

No entanto, a Providência Divina é tão maravilhosa e exultante, que mesmo quando optamos pela ignorância, pela inércia e por tudo que lhes são consequentes, Deus permite à Espiritualidade Amiga vir ao nosso socorro. Esses abnegados companheiros espirituais fazem de tudo para nos tirar do lamaçal em que nos chafurdamos por escolha própria. Porém, para que a empreitada alcance o sucesso esperado é imprescindível que façamos a nossa parte e que queiramos, de fato, sermos auxiliados, reconhecendo e lutando para vencer nossas mazelas. A vida na Terra é feita de escolhas e consequências, e a quantidade dos que sofrem é imensa, mas ainda são poucos os que se dedicam ao amparo fraterno. Por isso, quando perguntado por Aniceto sobre como estava o serviço, o senhor Bacelar respondeu: “Bem, sempre bem. Apenas não podemos fixar demasiada atenção nos companheiros encarnados. (…) É indispensável aprender a servir e passar”.[1] Os Espíritos não fazem o trabalho que nos compete. Eles amparam e orientam, servem e passam, pois o labor com o Cristo é ininterrupto, dinâmico e intenso.

Valdir Pedrosa
[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por
Francisco Cândido Xavier – capítulo 28 (Vida social).

Amar os diferentes

O amor a Deus pressupõe respeitar o mundo e os diferentes seres que Ele criou. O Espírito Emmanuel nos esclarece que é necessário “trazer o coração sob a luz da verdadeira fraternidade, para reconhecer que somos irmãos uns dos outros, filhos de um só Pai”. Repensemos, à luz da abençoada Reencarnação, a nossa postura com relação à família e aos com quem convivemos.

O Evangelho segundo o Espiritismo trata, no Capítulo XIV, sobre a parentela corporal e a parentela espiritual. Somos filhos de um grupo consanguíneo, de um grupo genético, nossa parentela corporal, biológica. Nos reencontramos para experiências. Pode ou não haver afinidades entre os membros desta família, mas sempre há a necessidade de ajustes dos desacertos de outras vidas, para que possamos todos progredir.

Entretanto, existe uma família muito maior do que a corporal, ao nosso redor ou distante de nós, que é a nossa família espiritual. Nessa estão as criaturas próximas da nossa frequência interior, são almas a que nos ligamos por afinidades, não obrigatoriamente porque tenhamos vivido no passado, mas porque temos ideais semelhantes, porque temos os mesmos gostos para as coisas.

Certo é que, sob a luz do Evangelho do Cristo, podemos rever crenças e valores, desenvolver talentos adormecidos, nos dedicando com esforço e disciplina aos desafios no lar, no trabalho e em qualquer parte onde haja oportunidade de servir nossos parentes da carne ou do espírito.

É tempo de intensificar o afeto aos antipáticos, aos que nos são indiferentes e de tolerar os que nos causam aversão. Como? Jamais emitindo pensamentos ruins e muito menos tendo atitudes negativas para com eles. Procuremos de início estabelecer a simpatia para, logo mais, amá-los efetivamente, conforme a recomendação do Cristo. Para quem busca amar verdadeiramente ao próximo, nos termos da proposta de Jesus, cabe ainda refletir sobre o trabalho interior de recuperação. Segundo o Espírito Ermance esse trabalho íntimo é um resultado de três ciclos que amadurecem a nossa experiência emocional e psíquica. O 1º: o autoconhecimento; o 2º: a autotransformação; o 3º: o autoamor.

A sugestão é começar, o quanto antes, a cuidar do enfermo que está dentro de cada um de nós, promovendo-nos à condição de saudáveis filhos de Deus. Buscar na reflexão conhecer e enfrentar o nosso sombrio, orar pedindo coragem para nos desfazer de velhas ilusões, nos afastar das mágoas, das culpas e dos medos paralisantes, abrindo portas para o novo, para a fraternidade, para a compaixão e a caridade.

Letícia Schettino

Alan Kardec: Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XIV, item 8. Espírito Emmanuel: Fonte viva, Cap. 159/ Vida e Sexo, Cap. 2. Psicografia de Francisco C. Xavier. Espírito Ermance Dufaux: Emoções que Curam. Psicografia de Wanderley Oliveira.

Vida social no Posto de Socorro

A vida no Posto de Socorro não se resume apenas às atividades socorristas. Conta-nos André Luiz que, certa noite, Ismália e Alfredo receberam visitantes oriundos da colônia “Campo da Paz”, a qual o Posto era vinculado. “Temos, também, aqui, a nossa vida social. Como não? É preciso saber viver”[1], disse Alfredo. Naquele instante, chegava o casal Bacelar e suas duas filhas em uma carruagem confortável, semelhante as utilizadas no tempo de Luís XV, puxada por dois belos cavalos brancos. Ismália estava contentíssima com a visita e expediu convites afetuosos para que algumas famílias do Posto comparecessem ao castelo, a fim de participarem da seleta reunião.

Ao contrário do que se pode pensar, existe vida social no plano espiritual e, em muitos casos, é intensa. No livro Nosso Lar temos informações sobre eventos que ocorrem no Bosque das Águas e no Campo da Música, por exemplo. Os Espíritos superiores nos ensinam que “Deus fez o homem para viver em sociedade. Não lhe deu inutilmente a palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida de relação”. Aprendemos que o insulamento absoluto é contrário à lei da Natureza, “pois que por instinto os homens buscam a sociedade e todos devem concorrer para o progresso, auxiliando-se mutuamente”. E concluem dizendo que “o homem tem que progredir. Insulado, não lhe é isso possível, por não dispor de todas as faculdades. Falta-lhe o contato com os outros homens. No insulamento, ele se embrutece e estiola”. [2] Não importa onde estejamos, seja no plano físico ou no plano espiritual, sempre precisaremos uns dos outros. A evolução, em si, é individual, entretanto, por mais paradoxal que possa parecer, ninguém evolui sozinho. A troca de conhecimentos e experiências, bem como a permuta de sentimentos e pensamentos, não poderiam ocorrer se vivêssemos de forma isolada.

Outro ponto que nos chama atenção é quanto à aparência dos visitantes. “O chefe do grupo mostrava idade avançada, revelando, porém, excelentes disposições. A senhora dava impressão de madureza, aparentando, contudo, maravilhosa vivacidade, assim como as duas moças”. [1] Temos aí mais uma confirmação dos ensinamentos da Doutrina Espírita, que nos esclarece que, dependendo da vontade e da condição evolutiva do Espírito, ele mantém na dimensão extrafísica a aparência que melhor lhe convém. Por isso nos deparamos com relatos a respeito de entidades que se apresentam com o visual de veneráveis anciões, como também de outras que preferem se mostrar com feições mais jovens. Há igualmente aqueles que exibem aparências que tiveram em reencarnações passadas, além daqueles outros que preferem manter o visual de sua última passagem no orbe terrestre.

Por fim, e não menos importante, destacamos a seguinte passagem: “A alegria era enorme. Não se observava qualquer nota de convencionalismo menos digno, como na Terra. Os gestos de cada um, a simplicidade, a despreocupação e as frases afetuosas demonstravam sinceridade pura. Permanecíamos num quadro social inacessível ao fingimento”. [1] Infelizmente são comuns no mundo carnal relacionamentos que não são baseados na sinceridade e afeição recíprocas. Em vários nota-se a presença de venenos morais como a mentira e a falsidade, acrescentando o que chamamos de convencionalismo social, que nada mais é do que padrões comportamentais normalmente aceitos pelo senso comum, mas que, dependendo do caso, tornam a relação fria e desprovida de naturalidade.

Aqui na Terra, em função do grosseiro corpo físico de que dispomos, conseguimos sem muito esforço esconder nossas reais intenções no convívio com as pessoas que nos cercam. Todavia, o mesmo não ocorre na dimensão espiritual. Lá, desprovidos da vestimenta carnal, utilizamos o perispírito, um corpo de energia mais sutil, diáfano, no qual se reflete a intimidade de cada um. Além disso, existem Espíritos com capacidade de ler os pensamentos facilmente. Percebe-se, assim, que nestes ambientes é impossível disfarçar o que sentimos. Não há espaço para falsidade no trato com os outros. A mentira é algo em extinção. André vivenciou momentos felizes ao presenciar cenas sem fingimento de qualquer natureza, onde reinavam a simplicidade, a afeição e a sinceridade.

Aliás, me lembrei de um comentário do nosso amigo espiritual, quando acompanhava o velório de um homem chamado Dimas. Em meio ao falatório desenfreado dos presentes, André disse que “(…) no estado atual da educação humana é muito difícil alimentar, por mais de cinco minutos, conversação digna e cristalina, numa assembleia superior a três criaturas encarnadas”. [3] Destarte, torna-se urgente nossa reforma moral, nos educando de modo a adequar o discurso à ação, saindo do campo teórico para a vivência prática. Já sabemos o que precisamos fazer. O que falta é fazer.

 

Valdir Pedrosa
[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 28 (Vida social).
[2] O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – 3ª parte – capítulo VII (Da lei de sociedade) – questões 766 a 768.
[3] Obreiros da Vida Eterna – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 14 (Prestando assistência).

 

O egoísmo, o orgulho e o bem

Em o livro dos Médiuns, Kardec pergunta aos espíritos orientadores quais as condições para que as comunicações mediúnicas cheguem puras, sem alterações, e recebe como resposta que os médiuns devem superar o egoísmo e o orgulho. Devem acima de tudo desejar e praticar o bem. Reflitamos: Ao egoísmo, se opõem as virtudes da justiça e da generosidade. Praticar a justiça, segundo o Evangelho, requer a compreensão da lei de igualdade: somos diferentes, singulares e devemos tratar cada irmão nos lembrando dessa realidade. Somos irmãos e a fraternidade é o amor que considera a lei da igualdade que respeita as diferenças. As diferentes formas de preconceito são expressões do egoísmo.

O orgulho decorre da ilusão provocada pelo egoísmo que nos leva a acreditar que essa nossa personalidade temporária é muito importante, especial e superior aos demais com quem convivemos e interagimos. Como seres em evolução essa é apenas mais uma encarnação para vencermos nossas imperfeições. Ao orgulho se contrapõe a humildade. Emmanuel nos ensina que ser humilde é reconhecer seu lugar na criação e agir colaborando para a realização da obra maior de Deus. Somos parte de uma engrenagem e cada peça tem seu valor específico. Quando aceitamos essa realidade praticamos a humildade agindo com consciência.

O amor, segundo Joanna de Ângelis, se multiplica quanto mais se divide quanto mais se doa. Fazer o bem é exercitar esse amor, doando do que somos, do que temos e do que detemos temporariamente. Esse é o caminho para superar o egoísmo e o orgulho.

Ao médium, sobretudo, cabe elaborar uma nova consciência de si mesmo como ser em evolução ainda imperfeito, mas se usar a sua vontade com método e disciplina será a cada dia um instrumento melhor para servir ao Cristo.

Lúcia Elena

Um monstro chamado calúnia

Por definição, calúnia é a afirmação falsa e desonrosa a respeito de alguém. Este foi o grande mal praticado por Paulo em sua última encarnação. Ele se encontrava enfermo nas câmaras do posto de socorro da colônia espiritual “Campo da Paz”. Concentrando a capacidade ampliada de visão no doente, André Luiz e Vicente tiveram mais uma importante experiência de aprendizado, supervisionados pelo distinto Aniceto.[1]

Penetrando a tela mental de Paulo, observaram quadros sombrios com diversos vultos se movimentando, principalmente de mulheres. Dentre eles, chamava atenção o de Ismália aparentando estar ansiosa e com a saúde debilitada. Perceberam alguns vultos masculinos evidenciando desespero. No meio deles, identificaram o de Alfredo, marido de Ismália e administrador do posto de socorro, demonstrando cansaço e prematura velhice. Foi possível ouvir maldições e blasfêmias proferidas por vozes misteriosas contra Paulo. Enquanto as mulheres lhe acusavam, os homens agiam como algozes implacáveis dentro da intimidade do enfermo.

André e Vicente se mostraram surpresos pela presença de Ismália e Alfredo naquelas imagens mentais. Foi então que Aniceto explicou que Paulo era o falso amigo que havia lhes arruinado o lar.[2] Além disso, o infeliz companheiro, ali diante deles, cometeu não só a ingratidão, mas também instilou o veneno da calúnia no espírito de várias senhoras, bem como traiu a confiança de outros amigos e arrasou a paz de diversos lares. Segundo o mentor espiritual “o criminoso nunca consegue fugir da verdadeira justiça universal, porque carrega o crime cometido, em qualquer parte. Tanto nos círculos carnais, como aqui, a paisagem real do Espírito é a do campo interior. Viveremos, de fato, com as criações mais íntimas de nossa alma.”[1]

Nas recordações de Paulo, as imagens de Alfredo em pleno desespero e de Ismália aflita, criadas pelo próprio caluniador, constituíam-lhe uma verdadeira punição, pois embora o casal já houvesse superado o lamentável episódio, ele ainda se consumia nas labaredas da consciência culpada. Mais uma vez, Aniceto esclarece: “Para melhor elucidação, recordemos a crucificação do Mestre Divino. Sabemos que Jesus penetrou na glória sublime logo após a suprema dor do Calvário; entretanto, estamos ainda a vê-lo frequentemente pendurado na cruz, martirizado pelos nossos erros, flagelado pelos nossos açoites, porque a visão interior a isso nos compele. A condenação do Mestre foi um crime coletivo e esse crime estará conosco até ao dia em que nos vestirmos na divina luz da redenção. (…) O dever possui as bênçãos da confiança, mas a dívida tem os fantasmas da cobrança.” [1]

É importante frisar que Alfredo, sentindo a necessidade de disciplinar o campo do sentimento, levou Paulo ao posto de socorro para ser amparado. Desencarnado com muito ódio, o marido de Ismália muito sofreu em seus primeiros tempos no Além, não obstante a dedicação da esposa. Posteriormente, desvencilhado das vibrações de rancor e já amparado em “Campo da Paz”, caiu em si e compreendeu suas necessidades de aperfeiçoamento moral. Conquistando méritos aos poucos, logo intercedeu por Paulo, buscando-o nos abismos do umbral. Hoje, trata-o como irmão. Aniceto destaca, porém, que a vitória espiritual de Alfredo foi conquistada à custa de muito trabalho e renúncia. “Nos primeiros tempos, aproximava-se do enfermo como necessitado de reconciliação; depois, como pessoa caridosa; mais tarde adquiriu entendimento, comparando situações; em seguida, sentiu piedade; logo após, experimentou simpatia e, presentemente, conquistou a verdadeira fraternidade, o amor sublime de irmão pelo ex-inimigo.”[1]

Por fim, Vicente perguntou se Paulo ficaria no posto indefinidamente. Aniceto disse que o caluniador voltaria em breve ao planeta pela reencarnação. “Ismália tem feito a seu favor inúmeras intercessões e não deseja que ele, ao retomar a razão plena, se sinta humilhado, com o beneficio das próprias vítimas. Uma das irmãs, por ele caluniada no mundo, já voltou ao círculo carnal, e a abnegada esposa de Alfredo pediu-lhe que recebesse Paulo como filho, tão logo seja oportuno.”[1] No caso em tela, percebemos o quanto a calúnia é prejudicial à nossa evolução. Seus efeitos repercutem mesmo depois do desencarne e, em muitas situações, após grande período de perturbação, apenas a benção da reencarnação é capaz de devolver o equilíbrio e a harmonia a quem caluniou.

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 27 (O caluniador).
[2] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 17 (O romance de Alfredo).

Conhecer a si mesmo

Sob o prisma das Leis Divinas da existência e da evolução natural e permanente do Espírito, através de reencarnações sucessivas, torna-se um desafio fundamental redescobrirmos a nós mesmos. De onde vim e para onde vou? Como melhorar minha caminhada? Perguntas fortes que inquietam os nossos corações….

Em geral enxergamos fora de nós o que queremos conquistar: sucesso, fama, dinheiro, felicidade, amor, estabilidade, etc. Nos sentimos ansiosos e perdidos porque agimos com o foco exclusivo no plano material o que nos faz esquecer de olhar para dentro e refletir sobre nossas vidas.

Autoconhecimento significa estar consciente de quem você é na essência e a consciência é o que faz o ser humano poder observar e interagir com tudo o que existe dentro e fora de si.

Quais são suas características principais, que fazem você agir da forma que age, ser quem você é, ou ter os resultados que você tem?

No “O Livro dos Espíritos”, considerando a dificuldade de cada um conhecer-se a si mesmo, o Codificador indaga a respeito do meio de consegui-lo obtendo a seguinte resposta assinada pelo Espírito Santo Agostinho na questão 919a:

Fazei o que eu fazia quando vivi na Terra: ao fim do dia interrogava a minha consciência passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma.

Comentando a resposta dada por Santo Agostinho, Kardec assinala: Muitas faltas que cometemos nos passam despercebidas. (…). Se interrogássemos mais amiúde a nossa consciência veríamos quantas vezes falimos sem que o suspeitemos unicamente por não perscrutarmos a natureza e o móvel dos nossos atos.

Conhecer a si mesmo é o primeiro passo para que o Espírito possa atingir a perfeição moral. Mesmo sendo o processo de renovação para o bem longo, pois que depende do esforço de vontade de cada um ele é inevitável conforme a lei do Progresso.

Enfim nos orienta o prezado Léon Denis:

A todas as interrogações do homem, a suas hesitações, a seus temores, a suas blasfêmias, uma voz grande, poderosa e misteriosa responde: Aprende a amar! O amor é o resumo de tudo, o fim de tudo.

Letícia Schetino

Bibliografia:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 84. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003.
DENIS, Léon. O Problema do Ser do Destino e da Dor. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. Capítulo XXV.

Considerações gerais sobre espírito e matéria

Dentre os intrigantes temas tratados em O Livro dos Espíritos, as discussões sobre espírito e matéria ocupam lugar de destaque. São questões de alta indagação e abstração, sobre as quais já se debruçaram as mais brilhantes mentes que povoaram (e que povoam) a Terra. De certa forma, tais discussões remontam à origem humana e sinalizam para um caminho que permite pensar o futuro humano, despertando, assim, tanto interesse, ao mesmo tempo em que oferece tantas dificuldades, pois o homem ainda é incapaz de apreender, com a profundidade que a questão requer, todas as suas sutilezas.

Não obstante tais limitações, Allan Kardec, fiel aos seus propósitos de construir uma fé raciocinada, enfrentou essa delicada questão, submetendo aos instrutores espirituais várias perguntas sobre o tema, como se vê em várias passagens de O Livro dos Espíritos. Neste artigo, em particular, concentraremos nossa atenção às perguntas de número 21 a 28, onde o tema é tratado com singular profundidade.

De forma sintética, ensinam os instrutores espirituais que dois são os elementos gerais do universo: a matéria (elemento material) e o espírito (elemento inteligente); e, acima de tudo, está Deus, integrando o que os Espíritos da codificação denominaram de a “trindade universal” (vide pergunta 27 de O Livro dos Espíritos).

Deus, como vimos, não está no plano da matéria e do espírito, pois Ele é o criador. Apesar da dificuldade de entender o Seu conceito, é Ele a inteligência suprema e a causa primeira de todas as coisas, tendo como atributos a eternidade, a imutabilidade, a imaterialidade, a unicidade, a onipotência e bondade e justiça em grau superlativo.

O espírito e a matéria, por sua vez, integram o plano da criação. Enquanto que o espírito é definido, na pergunta 23 de O Livro dos Espíritos, como “o princípio inteligente do Universo”, a matéria é conceituada na letra “a” da pergunta 22 como “[…] o laço que prende o espírito; é o instrumento de que ele se serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce a sua ação”.

Esclareça-se que não podemos tentar entender matéria a partir de uma concepção de senso comum, mediante associação de seu conceito àquilo que impressiona nossos sentidos. Como ensinam os instrutores espirituais na pergunta 22 de O Livro dos Espíritos, “[…] a matéria existe em estados que ignorais. Pode ser, por exemplo, tão etérea e sutil, que nenhuma impressão vos cause aos sentidos. Contudo, é sempre matéria. Para vós, porém não o seria”. A atual ciência vai nessa linha, especialmente a física quântica e a teoria da relatividade, ao propor nova relação entre matéria e energia, sendo ambas, em essência, iguais, diferindo- -se apenas quanto ao grau de condensação.

O mesmo se aplica ao conceito de espírito. Ensinam os instrutores espirituais, nas perguntas 25 e 26 de O Livro dos Espíritos, que espírito e matéria não se confundem, podendo tal distinção ser concebida pelo pensamento. Contudo, ambos se unem para intelectualizar a matéria e para permitir, no atual estágio evolutivo, a manifestação do espírito, pois nossa organização ainda não é apta a perceber espírito sem matéria.

Ocorre que, ao se dizer que espírito e matéria são coisas distintas, intuitivamente – porque somos presos às dimensões do tempo e do espaço – somos tentados a pensar que o espírito seria um nada, pois ainda temos dificuldades em admitir a existência de algo que não é matéria. Para, no entanto, evitar essa má compreensão, os Espíritos ensinam na letra “a” da pergunta 23 de O Livro dos Espíritos que “não é fácil analisar o espírito com vossa linguagem. Para vós, ele nada é, por não ser palpável. Para nós, entretanto, é alguma coisa. Ficai sabendo: coisa nenhuma é o nada e o nada não existe”.

Vale esclarecer, ainda, que é inexato equiparar inteligência com espírito, já que a primeira é um atributo do segundo, conforme pergunta 24 de O Livro dos Espíritos. Da mesma forma, “espírito”, como princípio inteligente, não se confunde com “Espírito”, pois este é a individualização daquele princípio, o mesmo valendo para princípio material e corpo, já que este é a individualização daquele, como se vê da pergunta 79 daquele livro. Não sabemos, no entanto, no nosso atual estágio evolutivo, quando e como ambos os princípios (material e inteligente) e mesmo o corpo e o Espírito são criados.

Como espírito e matéria são distintos, resta saber como o primeiro pode exercer ação sobre o segundo. Para tanto, torna-se indispensável a mediação do fluido universal. Segundo a pergunta 27 de O Livro dos Espíritos, “[…] Embora, de certo ponto de vista, seja lícito classificá-lo como elemento material, ele se distingue deste por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse positivamente matéria, razão não haveria para que também o espírito não o fosse. Está colocado entre o espírito e a matéria; é fluido, como a matéria é matéria, e suscetível, pelas suas inumeráveis combinações com está e sob a ação do espírito, e produzir a infinita variedade de coisas de que apenas conheceis uma parte mínima. Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que o espírito se utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá”.

Como se vê, o estudo do espírito e da matéria é intrincado, complexo e denso, e a ele voltaremos outras vezes, advertindo, apenas, que ainda estamos nos seus primeiros passos. Mesmo assim, tudo isso nos mostra a grandeza da criação e como somos privilegiados por um dia, por decisão de Deus, nosso pai, termos sido criados e inseridos nesse contexto de crescimento e aprendizado, o qual é regado por tanto amor e cuidado.

Frederico Barbosa Gomes

Somos parte da natureza

O rompimento da barragem do Córrego do Feijão no município de Brumadinho-MG nos reuniu em torno de um estado psicológico de perplexidade. Isso mesmo! Estamos perplexos com a indiferença à vida, especialmente à vida humana. Na condição de espécie biológica temos, no mínimo, o dever de preservá-la. É evidente, que este ocorrido destaca-se pela dimensão ambiental, pelo amplo desencarne coletivo e pelo modo como ocorreu. No entanto, temos exemplos deste descuido diariamente e, frequentemente, muito perto de nós. A doutrina espírita nos consola conclamando a confiar nos desígnios de Deus e assim nos oferece um lenitivo. Ela nos exorta à fé! Mas também nos convida a aprender com os erros e agir para que a evolução se processe em nossas vidas como lei divina.

Acreditar simplesmente que “tinha que ser assim”, anula todo o esforço humano de preservação, toda inteligência, criatividade, toda ciência, toda liberdade que Deus, na sua infinita bondade e sabedoria, permitiu que alcançássemos após uma longa jornada pelos reinos da natureza. O espírita necessita humildemente reconhecer que ainda não se encontra nas condições intelectuais e morais ideais para entender definitivamente acontecimentos como esse. E a prova disso é o reduzido número de fontes de informações verdadeiramente confiáveis em nosso meio. Emmanuel, por exemplo, nos diz que “O determinismo e o livre arbítrio coexistem na estrada da vida para ascensão do homem”1. No entanto, como eles se processam na sua vida, na minha vida, enfim, ainda é algo a se estudar. O fato é que o ocorrido provocou dor nos corações humanos e destruição ecossistêmica. Mas porque isso acontece?

O apóstolo Paulo em uma de suas cartas asseverou que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos. ”2 Sabemos que o dinheiro, por si mesmo, não é bom ou ruim. Mas a cobiça faz com que ele seja convertido frequentemente em paixões conflituosas com as reais necessidades do espírito em jornada evolutiva. O resultado é a infelicidade – efeito de uma vida urgente, pautada na necessidade de satisfazer os desejos de agora vivendo a ansiedade da conquista a qualquer preço.

Consequentemente, muitos vivem como se não pertencessem à natureza. Como se não fizessem parte dela. Vivem menosprezando a reencarnação desconsiderando que a alma no corpo, no aprendizado na escola da Terra, depende do ar adequado, da água dos rios em condições de saciar a sede, do equilíbrio das florestas, da harmonia das cadeias alimentares. “Assim, tudo no Universo se liga, tudo se encadeia, tudo se acha submetido à grande e harmoniosa lei de unidade” 3. O teólogo Leonardo Boff chama isso de “Universo autoconsciente e espiritual”. O jornalista André Trigueiro nos recorda que “a afirmação espírita de que todos nós passamos pelos diferentes reinos da Natureza em uma progressão contínua determina o aparecimento de uma nova ética em relação a todas as criaturas existentes”. 4

É isso! Necessitamos de uma nova ética. A ética do cuidado! Um cuidado que transcende o fazer bem apenas àqueles que nos fazem bem, pois dessa forma não haverá recompensa como nos ensina Jesus. O cuidado que desperta a noção clara da fraternidade legítima. E por mais que o evento trágico do desencarne coletivo em Mariana e Brumadinho possa servir individualmente ao progresso do espírito, pois “de todas as calamidades terrestres, o Homem se retira com mais experiência e mais luz no cérebro e no coração, para defender-se e valorizar a vida” 5, é imperioso ampliar a nossa visão de mundo, nossa noção de espírito em evolução. E nesse caso, a mesma lama que no momento simboliza a morte pode se converter em vida. “Dito isso, cuspiu na terra e, tendo feito lama com a saliva, aplicou-a aos olhos do cego, dizendo-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé. Ele foi, lavou-se e voltou vendo”6. É tudo que precisamos no momento. A visão clara que somos parte da natureza para exercermos o verdadeiro amor por tudo e por todos.

Vinícius Moura

1 XAVIER, F. Cândido. O Consolador. Federação Espírita Brasileira. 1940. 15ªed.Brasília.

2 1 Timóteo 6:10

3 KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap.XIV, item 12.

4 TRIGUEIRO, A. Ecologia e Espiritismo. Federação Espírita Brasileira.2009. 1ªed.Brasília

5 XAVIER, Francisco C. Autores diversos. Chico Xavier pede licença. S.Bernardo do Campo: Ed. GEEM. Cap. 19 6João 9:1-7.