A música sublime de Ismália

Ainda no Salão da Música, no Posto de Socorro ligado à colônia espiritual “Campo da Paz”, as excelsas manifestações de música e espiritualidade superior continuavam. Depois de Cecília, a jovem filha do casal Bacelar, ter executado duas belíssimas canções ao órgão, foi a vez de Ismália, atendendo a pedido fraternal de Aniceto, a quem ofereceu divina melodia.

Segundo André Luiz, “(…) ante nossa admiração comovida, começou a tocar maravilhosamente. Logo às primeiras notas, alguma coisa me arrebatava ao sublime. Estávamos extasiados, silenciosos. A melodia, tecida em misteriosa beleza, inundava-nos o espírito em torrentes de harmonia divina. Penetrava-me o coração um campo de vibrações suavíssimas, quando fui surpreendido por percepções absolutamente inesperadas. Com assombro indefinível, reparei que a esposa de Alfredo não cantava, mas no seio caricioso da música havia uma prece que atingia o sublime – oração que eu não escutava com os ouvidos mas recebia em cheio na alma, através de vibrações sutis, como se o melodioso som estivesse impregnado do verbo silencioso e criador. As notas de louvor alcançavam-me o âmago do espírito, arrancando-me lágrimas de intraduzível emotividade”.[1] 

A melodia era, na verdade, uma magnífica oração de louvor, levando todos às lágrimas. Enquanto Cecília os sensibilizou lembrando harmonias terrenas e afeições humanas, Ismália arrebatou os presentes, elevando-os ao Altíssimo e glorificando o Pai Supremo de forma diferente do que ocorre na linguagem humana. André disse que aquela oração tocou-lhe as mais íntimas fibras do coração, levando-o a meditar na grandeza divina como nunca havia feito antes, até aquele momento, em que uma alma santificada utilizava seus vastos recursos espirituais para falar de Deus. Esse é o grande poder e a imensa influência que a música exerce sobre criaturas e ambientes. As canções devem nos elevar e servir, de algum modo, como instrumentos de nosso aperfeiçoamento íntimo. Infelizmente, não é o que comumente observamos no círculo carnal.

Experimentando a profunda serenidade ambiente, vi que luzes prodigiosas jorravam do Alto sobre a fronte de Ismália, envolvendo-a num arco irisado de efeito magnético e, com admiração e enlevo, observei que belas flores azuis partiam do coração da musicista, espalhando-se sobre nós. Desfaziam-se como se feitas de caridosa bruma anilada, ao tocar-nos, de leve, enchendo-nos de profunda alegria. A maior parte caía sobre Aniceto, fazendo- -nos recordar as palavras amigas da dedicatória. Impressionavam-me profundamente aquelas corolas fluídicas, de sublime azul-celeste, multiplicando-se, sem cessar, no ambiente, e penetrando-nos o coração como pétalas constituídas apenas de colorido perfume. Sentia-me tão alegre, experimentava tamanho bom ânimo que não conseguiria traduzir as emoções do momento. Mais alguns minutos e Ismália terminou a magistral melodia. A esposa do administrador desceu até nós, coroada de intensa luz”.[1]

Isso é o que acontece quando nos envolvemos com as obras do Bem, do Amor e da Luz. Entregando-nos de corpo e alma ao Cristo, recebemos recursos inestimáveis dos planos superiores da vida. Tais recursos, somados ao potencial que possuímos e às nossas conquistas evolutivas, se exteriorizam em benefício daqueles que nos rodeiam, tornando-nos canais multiplicadores das energias divinas. Todos nós dispomos, em menor ou maior grau, dessa condição. Entretanto, ainda são poucos os que, de fato, se dedicam a trilhar o caminho ensinado por Jesus e pelos Espíritos Superiores. 

Por fim, impressionado com a grandeza espiritual de Ismália, André Luiz buscou esclarecimentos sobre o ocorrido junto ao seu nobre mentor, Aniceto. O orientador, com sua paternal e costumeira atenção, explicou: “Recorda-se de Ana, a infeliz criatura que dorme nos pavilhões, entre pesadelos cruéis? Lembra-se de Paulo, o caluniador? Não os viu carregando pesados fardos mentais? Cada um de nós traz, nos caminhos da vida, os arquivos de si mesmo. Enquanto os maus exibem o inferno que criaram para o íntimo, os bons revelam o paraíso que edificaram no próprio coração. Ismália já amontoou muitos tesouros que as traças não roem. Ela já pode dar da infinita harmonia a que se devotou pela bondade e pelo divino amor. A luz que vimos é a mesma que jorra do plano superior, de maneira incessante, inundando os caminhos da vida, mas a melodia, a prece e as flores constituem sublime criação dessa alma santificada. Ela repartiu conosco, neste momento, uma parte dos seus tesouros eternos! Peçamos ao Senhor, meu amigo, que não tenhamos recebido em vão as sublimes dádivas!”[1]

E quanto a nós? No dia a dia, o que temos dividido com nossos irmãos de caminhada: o tesouro, a luz e a harmonia do paraíso que estamos trabalhando arduamente para edificar ou a pobreza, a treva e a desarmonia do inferno em que, invigilantes, muitas vezes ainda nos encontramos? 

Valdir Pedrosa 

 

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 32 (Melodia sublime).

Gratidão e equilíbrio interior

“Em tudo dai graças”. (Tessalonicenses, 5:18)

É incontestável que as conquistas da inteligência e os significativos avanços científicos e tecnológicos muito têm nos impulsionado ao progresso. No entanto, nunca foi tão desafiador viver e conviver num mundo com tamanha competitividade e pesada carga de informações, com anseios individuais e coletivos que, em sua maioria, resumem-se em ter, acumular e desfrutar ao máximo os prazeres proporcionados pela vida material.

Viver nesse contexto tem gerado em muitos de nós um sentimento de insatisfação íntima. Não raras vezes, deixamos de valorizar quem somos, o que conquistamos, quem está ao nosso lado e o que a vida nos dá a cada dia para focarmos nossa atenção plena naquilo que está sempre nos faltando. Essa insatisfação constante acaba produzindo um desequilíbrio interior que se torna nítido através da nossa inquietude, desarmonia íntima, falta de paz interior e alegria de viver, o que reflete, naturalmente, em nosso relacionamento com o próximo. 

Metaforicamente, seria como se tivéssemos dentro de nós uma balança espiritual necessitando de ajustes. A angústia decorrente da insatisfação aponta para a nossa dificuldade em conciliar os opostos dentro e fora de nós. Cuidarmos na medida certa da matéria e do espírito, lidarmos com as diferenças, com a idealização e com a realidade, com as mudanças e com a permanência, com nossos anseios, necessidades, prioridades…

Viver exige de nós interiorização e reflexão sobre o que temos valorizado em nossas vidas, o que temos escolhido e colocado, talvez em excesso, num dos pratos dessa balança; e o que tem nos faltado para o equilíbrio interior. Será que estamos carregando sentimentos pesados como a mágoa, ressentimento, ódio, orgulho, egoísmo, raiva, ciúmes, inveja, maledicência, etc? E os sentimentos leves como o amor, a gratidão, a fé, a alegria, a compaixão, o otimismo, a empatia, a devoção, o altruísmo, a caridade… Será que que eles têm sido priorizados em nossa vida?

A gratidão é um dos sentimentos importantíssimos para o nosso equilíbrio espiritual. Ela permite que valorizemos tudo o que temos, cada detalhe do que nos acontece, por menor que seja, com contentamento, como algo suficiente e merecedor do nosso reconhecimento. É muito fácil sermos gratos à vida quando tudo está bem, quando recebemos uma dádiva, alcançamos um êxito e nos sentimos plenos, como nos diz um trecho da canção Alma das andorinhas, de João Cabete “eu só sei dizer que sinto Deus sorrindo para mim…”

Mas precisamos ir além das aparências e cultivar a gratidão também na travessia das provações, acalentando a certeza de que Deus segura firmemente nossas mãos nesses momentos e nos acompanha sempre, nunca nos desamparando. O primeiro passo é aceitar-nos merecedores de tudo o que nos acontece, de tudo o que a vida nos tira ou oferece, nunca revoltando contra as dificuldades que nos visitam a alma ou o corpo, mesmo que no momento não consigamos entender o porquê da aflição, mas esforçarmos para reconhecer que cada dor traz uma lição que ainda precisamos aprender para evoluir. Sermos gratos evita que essas aflições endureçam nossos corações e permite que vejamos tudo como oportunidades de crescimento; faz com que a nossa inteligência se recoloque na direção de Deus, que é o manancial de bênçãos. Como Paulo de Tarso, que ensinou e exemplificou com a própria vida, sempre agradecendo a Deus em meio a tantas adversidades.

Nas mensagens Agradeçamos a Deus e Agradecimentos esquecidos, constantes nos livros Paz e Renovação e Fé, Emmanuel e André Luiz nos alertam para a necessidade de se cultivar os agradecimentos esquecidos na hora dos contratempos, de tal forma que para cada aspecto negativo do “contra”, a gratidão nos leve a enxergar o lado positivo do “a favor”, levando-nos a perceber que cada problema traz em si a solução. Exemplificando: Pessoas demostram irritação para conosco? Oportunidade de praticar a tolerância e paciência. Prejuízos aconteceram? Oportunidade de discernimento. Abandono afetivo e desilusão? Mais confiança em nós mesmos, compreensão e perdão. Problemas desafiantes? Estão nos ensinando a arte de pensar com decisão e segurança. Enfermidades? Paciência porque tudo passa. Tribulações? Os tempos de calma voltarão. Perda de entes queridos? Lembrar dos momentos de alegria e carinho que te proporcionaram e reconhecer que eles apenas viajaram antes de nós. 

Pesquisas demonstram que pessoas que cultivaram o hábito de expressar gratidão em suas vidas são mais saudáveis emocionalmente e fisicamente. Robert A. Emmmons é um pesquisador que investiga os efeitos da gratidão na saúde das pessoas. Seus estudos concluíram que exercícios diários de gratidão fortalecem o sistema imunológico devido aos estímulos cerebrais que esse sentimento desperta, podendo reduzir o risco de doenças como infarto, AVC, ansiedade e depressão.

Um dos métodos sugeridos por ele é a criação de um “Diário da gratidão” que consiste em anotar, ao final de cada dia, as coisas pelas quais somos gratos. No início pode surgir uma certa dificuldade, mas como a disciplina antecede a espontaneidade, em pouco tempo se tornará um hábito prazeroso contar as bênçãos que Deus nos dá a cada dia. 

Como afirma Emmanuel, em seu livro Urgência, lição 2, intitulada Contar as bênçãos: “contar as bênçãos que temos é a melhor medida para diminuir o peso das provações. Aprendamos a guardar para com Deus um coração agradecido, para recebermos de Deus a paz necessária para o equilíbrio.” 

 

Adriana Souza 

 

Músicas de lá e músicas de cá

A reunião no Posto de Socorro[1] vinculado à colônia “Campo da Paz” transcorria em ambiente de lídima fraternidade, sem o mínimo espaço para a hipocrisia e as convenções aviltantes, infelizmente tão comuns em alguns encontros na nossa esfera.

Em dado momento, anfitriões e convidados se dirigiram ao Salão da Música, um enorme recinto, muito bem iluminado, no qual “um coro de pequenos musicantes executava harmoniosa peça, ladeando um grande órgão, algo diferente dos que conhecemos na Terra. Oitenta crianças, meninos e meninas, surgiam, ali, num quadro vivo, encantador. Cinquenta tangiam instrumentos de corda e trinta conservavam-se, graciosamente, em posição de canto. Executavam, com maravilhosa perfeição, uma linda barcarola[2] que eu nunca ouvira no mundo”. [1]

Ao término da apresentação, Ismália pediu à Cecília que tocasse uma canção. A esposa de Alfredo se lembrou de seus tempos de infância e juventude, bem como seus queridos pais que muito estimavam as composições europeias. A senhora Bacelar recordou que música que o pai de Ismália preferia e sugeriu sua execução. A jovem, acompanhada pelo coro das crianças, entoou de forma magistral a “Tocata e Fuga em Ré Menor”, de autoria do genial Johann Sebastian Bach. Como não poderia ser diferente, todos os presentes ficaram bastante emocionados, principalmente Ismália, cujos pensamentos pareciam passear pelo antigo lar terrestre.

Em seguida, a nobre senhora pediu que Cecília executasse uma canção de sua própria alma. “A jovem sorriu, voltou ao teclado, mas permanecia, agora, fundamente transfigurada. Seu belo semblante parecia refletir alguma luz diferente, que vinha de mais alto. Começou a cantar, de maneira misteriosa e comovedora. A música parecia sair-lhe das profundezas do coração, mergulhando-nos em sublime emotividade. Procurei guardar as palavras da maravilhosa canção, mas seria impossível repeti-las integralmente, no círculo dos encarnados na Terra. (…) Como se fora rodeada de claridades diversas daquela em que nos banhávamos, Cecília cantou com voz veludosa e cariciante”.[1]

Ao desferir as últimas notas, a senhora Bacelar informou que a canção executada pela filha retratava seu amor por Hermínio, um Espírito que vivia de queda em queda. Por isso, Cecília não poderia contar com o amado por um bom tempo, mas não desanimava e continuava trabalhando, cheia de esperança em um futuro venturoso para ambos. Quando se desculpou junto à Ismália por ainda ter o coração ligado à Terra, a nobre esposa de Alfredo a abraçou, compreendendo-lhe o sofrimento íntimo e disse: “Devotar-se não é crime, minha boa Cecilia. O amor é luz de Deus, ainda mesmo quando resplandeça no fundo do abismo”. [1]

Em outras obras de André Luiz fica evidente a importância das músicas de boa qualidade, canções que externam os melhores sentimentos que possuímos. Além disso, estudos e a própria observação demonstram o quanto as músicas influenciam ambientes e seres. Como exemplo, podemos citar o fato de que belas melodias oriundas das oficinas onde trabalham os habitantes de “Nosso Lar” atravessam o ar e são ouvidas nas ruas. O Governador reconheceu que a música intensifica o rendimento do serviço em todos os setores de esforço construtivo. Ninguém trabalha na colônia sem esse estímulo de alegria.[3]

Há uma outra passagem em que André Luiz estava feliz e já totalmente integrado às atividades das Câmaras de Retificação, quando foi convidado por Lísias para um passeio ao Campo da Música. O local é de uma beleza exuberante. Em suas extremidades estão os espaços que atendem ao gosto pessoal dos grupos que ainda não conseguem entender a arte sublime, enquanto o centro é reservado para manifestações musicais de ordem universal e divina. Com muita beleza, simplicidade e alegria, Espíritos da colônia conversavam sobre o amor, a cultura intelectual, a pesquisa científica, a filosofia edificante e, sobretudo, a respeito da vida e dos ensinamentos de Jesus. Enquanto André se maravilhava com aquela sociedade otimista e com a música sublime, Lísias comentou: “Nossos orientadores, em harmonia, absorvem raios de inspiração nos planos mais altos, e os grandes compositores terrestres são, por vezes, trazidos às esferas como a nossa, onde recebem algumas expressões melódicas, transmitindo-as, por sua vez, aos ouvidos humanos, adornando os temas recebidos com o gênio que possuem. O Universo, André, está cheio de beleza e sublimidade. O facho resplendente e eterno da vida procede originariamente de Deus”.[4]

Eis então alguns pequenos apontamentos sobre as canções de lá. Quanto às de cá, não nos cabe muitos comentários. Basta sintonizarmos qualquer rádio para percebermos que as músicas atuais, em geral, são muito diferentes do tipo de música que mencionamos nos parágrafos acima. As melodias e as letras deveriam remeter as pessoas aos píncaros da espiritualidade superior, abordando assuntos que elevem a alma e que as auxiliem no processo de reflexão, compreensão, assimilação e vivência das Leis Divinas, culminando no trabalho incessante de aperfeiçoamento de si mesmas.

Temos o livre-arbítrio de optar entre as músicas de lá ou as de cá. É só escolher onde queremos sintonizar a mente e o coração, de acordo com nossos gostos e tendências, lembrando-nos, porém, que muitos outros, sejam encarnados ou desencarnados, estarão também na mesma sintonia.

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 31 (Cecília ao órgão).
[2] Barcarola – a) Canção romântica dos gondoleiros de Veneza, em compasso binário composto. b) Poesia cuja cadência do verso sugere o compasso dos remos quando batem na água.
c) Cantiga medieval, de influência italiana, sobre assuntos marítimos. – Fonte: Dicionário Michaelis da Língua Portuguesa.
[3] Nosso Lar – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 11 (Notícias do plano).
[4] Nosso Lar – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 45 (No Campo da Música).

Recomeçar sempre

O Espírito Emmanuel, nos deixou a seguinte mensagem: – “Janeiro a Janeiro, renova-se o ano, oferecendo novo ciclo ao trabalho. É como se tudo estivesse a dizer: Se quiseres, podes recomeçar. Disse, porém, o Divino Amigo que ninguém aproveita remendo novo em pano velho. Desse modo, desfaze-te do imprestável. Desvencilha-te do inútil. Esquece os enganos que te assaltaram. Deita fora as aflições improfícuas. Recomecemos, pois, qualquer esforço com firmeza, lembrando-nos, todavia, de que tudo volta, menos a oportunidade esquecida, que será sempre uma perda real”.

Para acolher verdadeiramente Jesus e seguir no caminho do progresso espiritual é preciso ter vontade e coragem para vencer hábitos antigos e soluções costumeiras, que dominamos, mas que nos incomodam intimamente. Se estamos em busca de renovar a maneira de nos relacionarmos com Deus, conosco, com parentes e com companheiros e se precisamos encontrar mais leveza, confiança e alegria no nosso caminhar é necessário acabar com estruturas arcaicas de dominação e de discriminação.

A proposta é vivenciar a Boa Nova mudando a forma de pensar e agir. Atuar neste sentido com determinação, com respeito e carinho, com autoamor e com misericórdia, porque somos falíveis e não existe mágica. Mudar é um processo – começamos, recomeçamos, insistimos… não há espaço para falsidades e culpas, apenas para confiança no Criador. Jesus não veio “remendar”, mas trazer algo novo e ele é nosso mestre, nosso exemplo, nosso arrimo nos momentos difíceis que, certamente, vivenciaremos.

No capítulo 10 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec, com base nas palavras de Jesus (Mateus, 7:3 a 5), diz que é grande a insensatez do homem ao ver o mal nos outros antes de ver aquele que está nele próprio. Ressalta que o orgulho faz com que disfarcemos os nossos defeitos, tanto físicos quanto morais, e nos apressemos em apontá-los nos outros. Segue ainda dizendo: “Infeliz daquele que diz: ‘Nunca perdoarei’ (…)com que direito pedirá a Deus o perdão das sua próprias faltas, se ele próprio não perdoa as dos outros?”

Justificamos a dificuldade em desculpar as faltas alheias porque fomos injustiçados, mas não nos perguntamos se a causa real não estaria na nossa arrogância. Dificilmente aceitamos ser portadores desta doença moral, que chega por meio do vírus do egoísmo e atinge a maioria de nós. Quantas rusgas e atitudes grosseiras em família e entre companheiros estão baseadas em disputas infundadas, em certezas absolutas, na rigidez de ideias. Há no ar um sentimento de superioridade que não consegue suportar o brilho do outro. Há no fundo dos corações medos e inseguranças que não admitimos e que nos levam a ver no outro o opositor, a ameaça.

Vigiemos pois o impulso para progredir, o instinto de conservação e à necessidade de segurança, que são os fatores de motivação para a coragem, para ousadia e para a superação. Estes fatores permitem o nosso desenvolvimento espiritual e o progresso da humanidade, entretanto, se nos deixarmos levar por eles sem a escora da humildade, do respeito ao outro, sem conhecer o nosso verdadeiro tamanho, a dor chegará para o necessário reajuste.

Atitudes simples podem nos apoiar para recomeçarmos de forma melhor a cada dia. Que tal perceber atitudes arrogantes, se desculpar, se colocar no lugar do outro, se cuidar, trabalhar os sentimentos e evitar que as lembranças desagradáveis de acontecimentos e de pessoas na condição de opositores, permaneçam no pensamento?

Vamos tratar de renovar nossas ideias, focando em momentos e situações positivas, na necessária misericórdia para com o outro e na piedade para nós mesmos! Instrui-nos o Espírito Simeão da seguinte forma: “Esquecei o mal que vos foi feito e pensai apenas no bem que podeis fazer.”

Letícia Schettino

Palavras de Vida Eterna, Francisco C. Xavier, pelo Espírito Emmanuel.
O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 10, Allan Kardec.
Escutando Sentimentos, Wanderley Soares de Oliveira, pelo
Espírito Ermance Dufaux.

O trabalho em “Campo da Paz”

André Luiz estava surpreso com a quantidade de informações que recebia de Cecília, no agradável bate-papo entre eles, Aldonina e Vicente. A conversa havia chegado a um ponto em que a jovem deu mais detalhes sobre algumas atividades desenvolvidas em “Campo da Paz”, colônia que fica bem mais próxima da crosta terrestre do que “Nosso Lar”.

Segundo a filha do casal Bacelar, “as tempestades que nos atingem obrigam-nos a serviços constantes. Os quadros inferiores que nos cercam são profundamente dolorosos. Nossa cidade não possui Ministérios da União Divina, nem da Elevação. Não podemos receber a influência superior com muita facilidade. Trabalhos de comunicação e auxílio necessitam ainda de muita gente educada no Evangelho, para funcionar com eficiência. Além disso, temos os problemas de finalidade. Nossa colônia foi instituída para socorro urgente. A nosso ver, “Campo da Paz” é, mais que tudo, um avançado centro de enfermagem, rodeado de perigos, porque os irmãos ignorantes e infelizes nos cercam o esforço por todos os lados. De dez em dez quilômetros, nas zonas de nossa vizinhança, há Postos de Socorro como este, que funcionam como instituições de assistência fraternal e sentinelas ativas, ao mesmo tempo.”[1]

Pelo relato acima podemos ter uma noção do quanto é difícil e, sobretudo, extremamente meritório os trabalhos realizados na cidade em que Cecília vive na dimensão extrafísica. Não é nada fácil a realização de atividades do bem nas regiões mais densas e próximas da crosta terrestre. São muitas vibrações pesadas e grosseiras, emanadas por parte de encarnados e desencarnados invigilantes, ignorantes e até mesmo que se comprazem com o mal. “Campo da Paz” não possui os Ministérios que, em “Nosso Lar”, favorecem o recebimento mais direto da influenciação dos planos mais elevados da vida. Requer trabalhadores vinculados e educados nos ensinamentos de Jesus para que as atividades mais rotineiras de auxílio e comunicação funcionem a contento.

A colônia é como se fosse um verdadeiro hospital de pronto-atendimento situado em região perigosa com o objetivo de auxiliar fraternalmente os que por lá vivem. Entretanto, muitas vezes os que seriam assistidos se tornam adversários ferrenhos dos trabalhadores do Cristo, tentando a todo modo minar os esforços do bem. Todavia, a boa-vontade, a perseverança, a alegria, a esperança e a coragem são características marcantes e indeléveis de quem escolheu viver à luz do Evangelho. Seria muito mais fácil para os moradores de “Campo da Paz” desistirem dos irmãos infelizes que vivem à sua volta. Porém, ao invés disso, criaram postos de socorro vinculados à colônia e que funcionam tanto como locais de assistência quanto pontos de vigilância.

Se evocarmos na Boa Nova os exemplos de Madalena, Paulo, Pedro, Tiago (filho de Alfeu e Barnabé), dentre outros, perceberemos claramente que as dificuldades nunca foram obstáculos intransponíveis para quem, de fato, segue Jesus. Quanto maiores as dificuldades nas tarefas, maior o mérito de quem as realiza.

“Nosso governador, quando se agravam os serviços, costuma asseverar que estamos num Campo de batalha, com a Paz de Jesus. Imagem alguma define tão bem o nosso núcleo como esta. No exterior, o trabalho é rigoroso e incessante, mas dentro de nós, existe uma tranquilidade que nós mesmos dificilmente podemos compreender.”[1] Este é um aspecto interessante daqueles que já conquistaram a paz, algo que só é possível com bom ânimo. Podemos estar no centro das maiores confusões, vivenciando enormes dificuldades, seja de que natureza forem, passando por vicissitudes assustadoramente complexas, mas se já tivermos conquistado a paz do Mestre em nossa intimidade, interiormente estaremos em um oásis de serenidade, mesmo com todos os obstáculos à nossa volta. Com isso, teremos melhores condições de observar, planejar e agir, sempre de acordo com os princípios espíritas.

Aqui temos mais dois pontos que merecem reflexão. Primeiro, pelo número de reencarnações diárias preparadas em “Campo da Paz”, podemos imaginar o tamanho da fila de Espíritos aguardando oportunidades para retornarem ao plano físico. Por isso, devemos valorizar muito a nossa reencarnação, fazendo o máximo possível para aproveitarmos os ensejos proporcionados por Deus. Segundo, se a dedicação dos amigos espirituais com as crianças até por volta dos sete anos de idade é imprescindível, o cuidado dos pais é imperioso. É neste período que as tendências de vidas passadas do reencarnante estão tamponadas e a ação dos responsáveis é essencial para corrigir mazelas e incutir novos e bons hábitos. A educação moral é obrigação dos pais e o período infantil é o mais propício para ministrá-la.

Ao final do capítulo, a jovem ainda informou que “(…) somente nossos instrutores vão ao serviço sozinhos. Quanto a nós, não saímos, a não ser em grupos. Necessitamos auxílio recíproco, não só no que diz com a eficiência, senão também no que se refere ao amparo magnético. (…) No trabalho de assistência aos outros e defesa de nós mesmos, não podemos dispensar a prática avançada e justa da cooperação sincera.”[1] A citação por nós destacada é um grande ensinamento que não deve ser esquecido por nenhum trabalhador do Evangelho, pois a Lei de Cooperação vige em todo o Universo.

Valdir Pedrosa
[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por
Francisco Cândido Xavier – capítulo 30 (Em palestra afetuosa).

Formação dos Mundos

Não seria exagerado afirmar que, desde sempre, o homem procura compreender o processo de sua criação, do universo e do mundo que habita, como nos provam as várias manifestações históricas, científicas e religiosas sobre o tema. De certa forma, tal busca é manifestação de nossa essência divina nos despertando para algo maior do que nós mesmos, dando-nos conta de que a vida, suas dores, alegrias e desafios possuem uma razão que vai além do que os nossos sentidos podem explicar.

A compreensão do processo de formação do homem, do mundo que habita e do universo que faz parte é tema intrigante, e Allan Kardec não desperdiçou a oportunidade de submetê-lo aos espíritos superiores. Muito embora, no atual estágio evolutivo, não tenhamos respostas definitivas para tais questões, trazem os espíritos da codificação informações valiosas que nos convidam à reflexão e que jogam luzes sobre o tema, permitindo ampliar nosso conhecimento a seu respeito, apesar de nossas limitações cognitivas para apreender toda complexidade da questão.

De forma didática, a criação será objeto do capítulo III da primeira parte de O Livro dos Espíritos, na qual Allan Kardec questionará aos espíritos da codificação sobre a formação dos mundos; a formação dos seres vivos; o povoamento da Terra, com referência à figura de Adão; a diversidade das raças humanas; a pluralidade dos mundos; fechando o capítulo com considerações e concordâncias bíblicas acerca da criação. Com a explicação de que o universo “abrange a infinidade dos mundos que vemos e dos que não vemos, todos os seres animados e inanimados, todos os astros que se movem no espaço, assim como os fluidos que os enchem”, Allan Kardec inicia o capítulo III da primeira parte de O Livro dos Espíritos tratando sobre a formação dos mundos, mesmo objeto do presente artigo.

E, para entender o tema, nada mais oportuno do que iniciar a sua reflexão questionando se o universo – que, para nós, assume feições de infinitude – existe desde sempre, como Deus, ou se, ao contrário, foi ele criado, como perguntou Allan Kardec aos espíritos superiores na questão 37 de O Livro dos Espíritos. Referida pergunta traz consigo importante aspecto a ser observado: se o universo existisse, desde sempre, não seria ele obra de Deus, o que permitiria equiparar um (universo) ao outro (Deus). Contudo, os espíritos da codificação foram taxativos nesse ponto e deixaram claro que “é fora de dúvida que ele [universo] não pode ter-se feito a si mesmo. Se existisse, como Deus, de toda a eternidade, não seria obra de Deus”. Com isso, por mais abstrato nos pareça, o universo nem sempre existiu, e, assim como nós – o que abrange os mundos que lhe integram -, foi criado por Deus.

Como o universo foi criado por Deus, Allan Kardec, então, com a didática que lhe é peculiar, na questão 38 perguntou aos espíritos da codificação como se deu esta criação. De forma simples e direta, responderam eles que foi pela vontade de Deus. Mais uma vez, o espírito pesquisador de Allan Kardec se manifestou. Por mais importante fosse a revelação de que a criação do universo é fruto da vontade de Deus, não se contentou Kardec com tal informação, e avançou na busca por ser mais específico, questionando se poderemos conhecer o modo de formação dos mundos e a duração desse processo, como se vê das perguntas 39 e 42 de O Livro dos Espíritos.

Ao que parece, pretendia Kardec que os espíritos detalhassem o processo em si da criação dos mundos. Em resposta, os espíritos esclareceram que a formação dos mundos se dá pela condensação da matéria disseminada no Espaço, sendo tudo o que poderíamos conhecer e que eles poderiam dizer a respeito. E, quanto à duração de tal processo, apenas o Criador saberia dizê-lo, sendo louco quem pretendesse afirmá-lo em Seu lugar. 

Compreendida a criação, com as informações que podemos ter no nosso estágio evolutivo, quase que intuitivamente somos levados a pensar no outro extremo, isto é, na extinção dos mundos, o que foi objeto da pergunta 41 de O Livro dos Espíritos. A seu respeito, Kardec questionou os espíritos se um mundo já formado poderá desaparecer, disseminando-se no Espaço a matéria que lhe compunha. E, de forma coerente, pois o que foi criado poderá ser extinto, responderam os espíritos que Deus renova os mundos como renova os seres vivos, o que permite concluir pela possibilidade de extinção dos mundos.

Ainda com relação ao tema, em resposta à pergunta 40, os espíritos da codificação esclarecem que, ainda que se possa identificar em um cometa um começo de condensação da matéria para a formação de um mundo futuro, seria inadequado acreditar que eles influenciam para além dos aspectos físicos, alcançando questões morais, o que ratifica e reitera que nossas escolhas são fruto de nossa vontade e do nosso livre arbítrio, o que nos faz sermos responsáveis pelas nossas obras.

Frederico Barbosa Gomes

O outro e eu

“Há, entre os seres pensantes, laços que não conheceis ainda.”
(Livro do Espíritos: q.387)

 

Já parou para refletir porque nos sentimos bem ou mal perto de algumas pessoas? Em matéria publicada na Revista Espírita de 1862, Kardec esclarece que quando duas pessoas se aproximam, cada qual envolvida por sua atmosfera perispiritual, há contato desses dois fluidos. Se forem de natureza simpática, se interpenetram; se de natureza antipática, repelem-se e os indivíduos sentirão uma espécie de mal-estar. Afirma ainda que nem sempre a simpatia ou antipatia entre duas pessoas tem causa em existência anterior, pois dois espíritos podem se atrair ou repelir sem terem tido qualquer contato como encarnados. 

O espírito Emmanuel, na obra O Consolador, reforça este conceito: “ A simpatia ou a antipatia têm as suas raízes profundas no espírito, na sutilíssima entrosagem dos fluidos peculiares a cada um e, quase sempre, de modo geral, atestam uma renovação de sensações experimentadas pela criatura, desde o passado…”

A psicologia nos esclarece que sempre que nos aproximamos de alguém, a nossa leitura de realidade vai infinitamente além do que o nosso cérebro processa racionalmente. Captamos não só o que nos é dito, mas também impressões visuais, olfativas e temos reações emocionais a partir da comparação bdessas percepções com fatos da nossa história anterior.

Em contato com diferentes pessoas podemos, a nível consciente ou inconsciente, despertar reações emocionais em função de antigos medos, traumas, prazeres que não foram processados e trabalhados. Sentimos inveja, repulsa, culpa, intensa alegria ou conforto sem sequer admitirmos isso para nós mesmos. 

No caso das antipatias, sempre nos parece mais fácil atribuir ao outro uma característica negativa do que as aceitar em nós mesmos. Identificamos no outro o que somos ou tememos ser. Em geral, invejosos se acham muito invejados, críticos se julgam criticados, vaidosos e egoístas pouco valorizados…

Somente o autoconhecimento pode nos conduzir a pôr fim a este ciclo de comportamentos equivocados que se repetem com frequência ao longo das nossas vidas, trazendo sofrimento e angústia. Vale refletir que aquele que pensa e age diferente de mim pode me incomodar por estar agredindo verdades que cristalizei ou por estar despertando em mim o medo de enfrentar o novo.

Quando passamos a identificar com sinceridade nossas reações e emoções na relação com o próximo, temos mais justeza ao avaliar uma estranheza legítima (perante desregramentos morais: vícios, violência, etc.) ou um mero mecanismo de defesa de nossas próprias dificuldades, que deve ser corrigido.

Cabe muito bem a recomendação do espírito Irmão José, na obra Crer e Agir: “Exigir menos dos outros e mais de ti. Eis a fórmula ideal para que saibas viver e conviver, proveitosamente, com todos, em qualquer parte do mundo. Experimente ser mais afável, mais solidário, mais atencioso e alegre com os outros para ver o que te acontece”.

Letícia Schettino

Revista Espírita de 1862, página 358. Edicel.
O Consolador, pelo espírito Emmanuel, questão 173.
O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questões 387 e 388.
Crer e Agir, pelo espírito Irmão José, psicografia de Chico Xavier e Carlos Bacelli.

Tolerância, Evangelho e atualidade

Nos últimos tempos a internet proporcionou a democratização da informação, na qual foram ampliados os canais de interação da sociedade – redes sociais, televisão, aplicativos, comércio, negócios, viagens, notícias, etc. e, ao mesmo tempo, encurtadas as distâncias físicas. Não sendo incomum que fatos ocorridos do “outro lado do mundo” ganhem repercussão instantânea para cada um de nós que estamos “antenados”, “on-line” ou ainda “logados” nas informações que mais nos agradem.

O fato de permanecermos online nos permite a pronunciar nossas opiniões a respeito de diversos temas, ainda que sem a devida profundidade que o tema mereça, no qual a resposta rápida, parece-nos, “ganha ar” de seriedade e verdade “absoluta”. De modo que, não admitindo opinião contrária a nossa, ou a do grupo dominante a que pertencemos, ou ainda qualquer contradição, sermos classificados imediatamente como radicais. Mas a que servirá a polarização radical? Onde há espaço para convivência e a tolerância? O diálogo não vale mais a pena porque a opinião é contrária? Queremos ter amigos ou ter razão?

Estamos crescendo como sociedade justamente porque há diversidade, na qual aquele que “sabe mais” contribui para elevar aquele que “sabe menos”, e aqui não estamos falando só de inteligência, pois o que falta em um complementa-se no que sobra do outro. Numa equação de cooperativismo, no qual não há vencedores ou ainda dominantes, mas sim seres fraternos, criados por um Pai amoroso, misericordioso e tolerante com nossas mazelas acima de tudo.

Nós precisamos de paz interior nas relações afetivas, no trabalho, para que a inquietude não nos perturbe, ou pior, não permita que possamos ver no outro não somente uma pessoa, mas um(a) irmão(ã) de  caminhada. E somente a convivência social nos permite desenvolver nossas habilidades, físicas e morais.

No atual contexto social, naturalmente temos falado a respeito de tolerância, política, religião, família, etc. mas como “bandeira de ação”, sem, entretanto, termos trabalhado esses temas em nossos corações, com o olhar proposto pelo Mestre Jesus no Evangelho. Especificamente, por mais que ouçamos falar da tolerância, os casos de violência marcados pela intolerância de vários matizes aumentam. 

Tolerância quer dizer qualidade de quem tolera, na qual quem tolera suporta as atitudes, ações daqueles que ainda desconhecem ou ignoram como se deve proceder ou ainda, de forma ególatra, pensam somente em si mesmo.

Na criação Divina o espetáculo é da diversidade, assim, devemos respeitar a individualidade de cada ser que compartilha conosco o ambiente terrestre. “Se cada um se encontra em degraus evolutivos diferentes é natural que não sejamos compreendidos por aqueles que se posicionam numa escala inferior à que já atingimos, tanto quanto encontramos dificuldades para exemplificar o desprendimento e amor daqueles que já alcançaram os planos mais elevados da vida (1)”.

Assim, o ser tolerante é indulgente para com as imperfeições alheias, seja em que aspecto for. Essa é a caridade que Jesus nos ensina, e para relembrarmos, consultando o Livro dos Espíritos, questão 886, encontramos o esclarecimento acerca do verdadeiro sentido da palavra caridade: “benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.”(2)

É certo que as virtudes caridade, benevolência, indulgência e perdão, são qualidades a serem adquiridas e aperfeiçoadas por nós mesmos, no trabalho incessante no bem, a fim de favorecer a nós mesmos e ao nosso próximo. É trabalho inadiável, tendo por finalidade integração com nosso Pai celestial, como herdeiros que somos do seu legado. Então mãos a obra, vamos encarar o “bom combate” contra nossas imperfeições morais, que constituem nossos maiores inimigos e residem dentro de nós mesmos. Nossos pensamentos e criações mentais dizem muito de nós e do modo como vivemos, sendo que provocamos os maiores impactos das nossas vidas, seja no construir, seja no destruir.

Combatamos em nós toda intolerância, começando por exercer o respeito ao próximo, permitindo-nos o silêncio ante atitudes reprováveis mas com a mão estendida para ajudar o caído. Porque hoje é o irmão, mas amanhã poderá ser cada um de nós. Não vamos nos inquietar com as atitudes alheias, pois o outro é o outro e o modo como conduzimos a vida diz respeito a nós mesmos.

Comecemos em nosso lar, utilizando-nos da gentileza que dispensamos a qualquer um na rua, ampliando nossas ações na escola, no trabalho, no centro espírita e na sociedade, até que essa virtude faça-se presente nos nossos pensamentos e atitudes, como nos ensina o Mestre Jesus: “ame ao próximo como a ti mesmo”(3)

Tolerância é caminho de paz.

João Jacques de Freitas

(1) https://www.uemmg.org.br/cofemg/area-de-infancia-e-juventude/ conteudo-programatico/livro/6-conduta-espirita-vivencia-39, acesso em 15/10/2019.

(2) Livro dos Espíritos, Editora FEB, Kardec, Alan. Questão 886

(3) Mateus 22-37:39

Formação mediúnica

Em Seara dos Médiuns, Emmanuel inicia sua reflexão comparando o processo de formação mediúnica “aos serviços do solo”. Em várias de suas parábolas, o próprio Cristo utiliza o conceito de “terra” como analogia nos seus ensinamentos acerca da edificação do reino de Deus. Emmanuel, ao utilizar da mesma metáfora do Cristo, evoca algumas reflexões fundamentais em torno de uma questão que normalmente inquieta muitos médiuns: “O que fazer para desenvolver a mediunidade?”

Versando sobre os desafios que o médium vai enfrentar no cultivo de sua própria mediunidade, elucida-nos o autor: “No caso da terra, o lavrador será mordomo vigilante. No caso da mediunidade, o médium será o zelador incansável de si mesmo.” Com esta orientação, Emmanuel já aponta um roteiro de cuidados que o médium deve seguir ao se aliançar com o compromisso mediúnico. “Zelador incansável de si mesmo”, deve o médium cultivar em seu terreno emocional contínuos cuidados para evitar o acúmulo de sentimentos parasitários que comprometerão a fertilidade de sua mediunidade. Igualmente, deve também o médium observar com precioso critério as sementes que tem cultivado em seu terreno mental, por meio da contínua vigília dos pensamentos, que arvoram dentro ele (e de todos nós) frutos dos mais diversos sabores.

Rememorando Paulo de Tarso, se a semeadura é livre, a colheita faz-se obrigatória. Não enfrentamos em nossa “floresta espiritual” nada além do que cultivamos e permitimos crescer em nós. Seguimos hoje colhendo alguns frutos amargos, nos ferindo com alguns espinhos semeados por nós mesmos. Mas também carreamos dentro de nós sementes dignificantes, adubos valiosos para fertilizar luz e evolução em nossas almas. Assim se apresenta a mediunidade. E de que modo nós nos temos apresentado a ela?

Ao discorrer este texto uma reflexão de Chico Xavier veio recorrentemente aos meus pensamentos. Ele costumava dizer que muitos seareiros espíritas o perguntavam o que tinham que fazer para desenvolver a mediunidade, e poucos lhe perguntavam como fazer para desenvolver a bondade. A associação de mediunidade e bondade é feita pelo próprio Emmanuel, neste texto, ao afirmar que: “Não há desenvolvimento mediúnico, para realizações sólidas, sem o aprimoramento da individualidade mediúnica.” (grifo nosso). Sigamos semeando o Bem! Paz e Luz a todos!

Carla Barros

Na casa espírita

“Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” — Jesus. (MATEUS, 18:20.)

 

Jesus afirmou que estaria sempre ao lado daqueles que se reunissem, com seriedade e fé, em seu nome. Para encontrar nosso Pai não nos bastará os bons sentimentos, mas fundamentalmente as atitudes no bem. Servir amorosamente, buscando a melhoria pessoal, é o desafio. Sob a proteção da Doutrina Espírita, todos nós, trabalhadores e frequentadores da casa devemos compartilhar ideias, tarefas, deveres e, fundamentalmente, afeto, respeito e amizade.

Nessas circunstâncias, os aprendizes leais ao Divino Mestre, devem manterse conectados aos Espíritos Superiores, libertando-se dos convencionalismos e vaidades terrestres, agindo com a própria consciência e com a melhor compreensão de responsabilidade. Afinal, adentramos a casa espírita por motivos diversos, mas não podemos nos esquecer que a meta maior é educarmo-nos, espiritualizarmos fraternalmente e progredirmos rumo ao Pai. Cada qual no seu tempo…

Na obra Conduta Espírita, ditada pelo espírito André Luiz ao Waldo Vieira, um capítulo é dedicado exclusivamente a nos orientar sobre a melhor maneira de estarmos juntos e em respeitoso contato com os espíritos superiores e amigos nas reuniões da Casa Espírita. Sendo os salões de reunião fraterna locais previamente escolhidos para nossos encontros com os mentores do plano espiritual e para nossa educação evangélica, cabe-nos, a cada oportunidade, sermos pontuais, discretos e atenciosos as exposições dos oradores. Evitar a conversação excessiva, o uso dos aparelhos celulares, os bocejos e qualquer atitude que possa dificultar a harmonia dos pensamentos, a paz e o progresso de todos, é sinal de boa educação e caridade.

Lembramos que o Espiritismo tem como um dos objetivos a Reforma Íntima do homem através da sua conscientização pelo Evangelho do Divino Mestre, não possuindo nenhum tipo de compromisso com dogmas ou sacramentos criados por mãos humanas. A terapia do passe, a fluidificação das águas e as orientações espirituais, dentre outras atividades, deverão ocorrer com disciplina e simplicidade. A disposição para servir em nome de Jesus e, humildemente, sob a orientação dos espíritos são requisitos importantes! 

O espírito Ermance Dufaux nos diz que a beleza da vida está no ato de todos serem diferentes e terem algo de novo a nos ensinar. E que compete-nos abrir nossos corações para esse mundo novo de vivências altruístas e ricas de diversidade que é a convivência na Casa Espírita. Concluímos afirmando que o amor e o respeito pelas diferenças, em qualquer tempo e lugar, consolidam a fraternidade em louvor à lei do bem, pois: “Ditosos serão os que houverem trabalhado no campo do Senhor, com desinteresse e sem outro móvel, senão a caridade.”(*)

Letícia Schettino

Bibliografia:
Obra Conduta Espírita, André Luiz, por Chico Xavier.
Obra Prazer de Viver, Ermance Dufaux, por Wanderley Oliveira.
(*) O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 20, item 5, Allan Kardec