Na casa espírita

“Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” — Jesus. (MATEUS, 18:20.)

 

Jesus afirmou que estaria sempre ao lado daqueles que se reunissem, com seriedade e fé, em seu nome. Para encontrar nosso Pai não nos bastará os bons sentimentos, mas fundamentalmente as atitudes no bem. Servir amorosamente, buscando a melhoria pessoal, é o desafio. Sob a proteção da Doutrina Espírita, todos nós, trabalhadores e frequentadores da casa devemos compartilhar ideias, tarefas, deveres e, fundamentalmente, afeto, respeito e amizade.

Nessas circunstâncias, os aprendizes leais ao Divino Mestre, devem manterse conectados aos Espíritos Superiores, libertando-se dos convencionalismos e vaidades terrestres, agindo com a própria consciência e com a melhor compreensão de responsabilidade. Afinal, adentramos a casa espírita por motivos diversos, mas não podemos nos esquecer que a meta maior é educarmo-nos, espiritualizarmos fraternalmente e progredirmos rumo ao Pai. Cada qual no seu tempo…

Na obra Conduta Espírita, ditada pelo espírito André Luiz ao Waldo Vieira, um capítulo é dedicado exclusivamente a nos orientar sobre a melhor maneira de estarmos juntos e em respeitoso contato com os espíritos superiores e amigos nas reuniões da Casa Espírita. Sendo os salões de reunião fraterna locais previamente escolhidos para nossos encontros com os mentores do plano espiritual e para nossa educação evangélica, cabe-nos, a cada oportunidade, sermos pontuais, discretos e atenciosos as exposições dos oradores. Evitar a conversação excessiva, o uso dos aparelhos celulares, os bocejos e qualquer atitude que possa dificultar a harmonia dos pensamentos, a paz e o progresso de todos, é sinal de boa educação e caridade.

Lembramos que o Espiritismo tem como um dos objetivos a Reforma Íntima do homem através da sua conscientização pelo Evangelho do Divino Mestre, não possuindo nenhum tipo de compromisso com dogmas ou sacramentos criados por mãos humanas. A terapia do passe, a fluidificação das águas e as orientações espirituais, dentre outras atividades, deverão ocorrer com disciplina e simplicidade. A disposição para servir em nome de Jesus e, humildemente, sob a orientação dos espíritos são requisitos importantes! 

O espírito Ermance Dufaux nos diz que a beleza da vida está no ato de todos serem diferentes e terem algo de novo a nos ensinar. E que compete-nos abrir nossos corações para esse mundo novo de vivências altruístas e ricas de diversidade que é a convivência na Casa Espírita. Concluímos afirmando que o amor e o respeito pelas diferenças, em qualquer tempo e lugar, consolidam a fraternidade em louvor à lei do bem, pois: “Ditosos serão os que houverem trabalhado no campo do Senhor, com desinteresse e sem outro móvel, senão a caridade.”(*)

Letícia Schettino

Bibliografia:
Obra Conduta Espírita, André Luiz, por Chico Xavier.
Obra Prazer de Viver, Ermance Dufaux, por Wanderley Oliveira.
(*) O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 20, item 5, Allan Kardec

Campo da Paz

Em conversa fraterna no Posto de Socorro, Cecília contou a André Luiz e Vicente um pouco sobre a história e a vida na colônia “Campo da Paz”:  “A história da fundação é interessante. Alguns benfeitores, reconhecidos a Jesus, resolveram organizar, em nome dele, uma colônia em plena região inferior, que funcionasse como instituto de socorro imediato aos que são  surpreendidos na Crosta com a morte física, em estado de ignorância ou de culpas dolorosas. O projeto mereceu a bênção do Senhor e o núcleo se criou, há mais de dois séculos. Nem todos os Espíritos envolvidos, no entanto, estimam o serviço nesse órgão de assistência constante. A maioria dos missionários vitoriosos, ao se ausentarem da Terra, necessitamES refazer energias, por direito natural do trabalhador fiel, e os mentores de nobre posição hierárquica têm seus programas de serviços, que não devem quebrar, em obediência aos desígnios do Senhor. Desse modo, nosso serviço é ativo, mas nossas aquisições são lentas e devemos sempre esperar por cooperadores que se eduquem na própria colônia, em benefício geral. Ganha-se excelente compensação, temos direito a grandes valores intercessórios, mas, por isso mesmo, nossas responsabilidades não são pequenas. Conhecendo a utilidade dos que servem em nossa colônia, não passamos nunca sem instrutores abnegados, que procedem da zona superior, alentando-nos o bom ânimo. O que pedimos, com fundamentação legítima, nunca é negado; e, se tarda o recurso, beneméritos orientadores de nossas atividades prestam explicações que nos libertam de qualquer angústia na espera. Por isso, nosso grupo está sempre coeso e muitos preferem adiar certas realizações sublimes, para permanecer ao lado de companheiros antigos, aos quais se unem com desvelado amor.” [1]

Como vimos, a colônia nasceu de um dos sentimentos mais nobres, oriundo de corações agradecidos ao Cristo: a gratidão. Ser grato é reconhecer e valorizar a ação de alguém que nos concedeu um favor, um auxílio ou um benefício de qualquer natureza. Além disso, a gratidão sincera nos estimula a fazer pelo próximo aquilo que outra pessoa fez por nós. Não reside aí a  egra áurea da convivência e um dos mais importantes ensinamentos do Mestre Jesus? “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles; porque esta é a lei e os profetas.”[2]

Aprendemos que “Campo da Paz” localiza se nas zonas inferiores do Umbral, mais próxima da crosta terrestre do que “Nosso Lar”. Sua missão é acolher e prestar assistência aos recém-desencarnados em situação de culpa e ignorância. Os trabalhadores da colônia se especializaram no serviço de amparo a espíritos obsessores. Obviamente, trata-se de atividade árdua, porém muito recompensadora e reconfortante. Há muito mérito para aqueles que conseguem, com paciência e energia, resgatar nossos irmãos infelizes das trevas espirituais em que se emaranham.

Conforme informado por Cecília, não obstante os espíritos mais evoluídos se encontrarem vinculados à tarefas de grande importância, “Campo da Paz” jamais esteve sem o amparo de seus mentores, os quais, procedendo das zonas mais elevadas, estimulam o bom ânimo dos seareiros e atendem seus pedidos justos.

Relevante frisar que os novos cooperadores são formados na própria colônia, onde recebem orientações e treinamentos específicos. Muitos deles são espíritos que lá chegaram padecendo graves distúrbios espirituais, como o pai de Cecília. Posteriormente, a família se uniu ao Sr. Bacelar, como narrado pela jovem: “Meu pai, há mais de cinquenta anos, foi socorrido pelos benfeitores de “Campo da Paz” e, restabelecida a saúde espiritual, fixou-se na colônia, com razoável impulso de amizade e gratidão. Mais tarde, minha mãe reuniu-se a ele e, faz precisamente vinte anos, Aldonina e eu fomos atraídas amorosamente por ambos, a fim de continuarmos, ali, no santuário familiar. Desse modo, trabalhamos ao lado deles, desde a primeira hora.” [1]

André Luiz ficou encantado com aquele resumo de lições enobrecedoras sobre sacrifício, merecimento, compromisso fraterno e a solidariedade compensadora. “Campo da Paz”, “Nosso Lar”, “Alvorada Nova”, “Novos Horizontes” e tantas outras colônias espirituais representam o esforço e o carinho que os amigos espirituais têm para conosco, laborando em nome do Cristo de Deus para nos auxiliar em nossa longa jornada de redenção.

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 29 (Notícias interessantes).
[2] Evangelho Segundo Mateus 7:12.

Muito prazer! Eu sou o seu Anjo da guarda

“Santo Anjo do Senhor meu zeloso guardador já que a ti me confiou a piedade Divina hoje e sempre me governa, rege, guarda e ilumina. Amém.”

 

Eu conheci esta oração em tenra idade. Minha mãe orava comigo antes de adormecermos. A ela eu sou muito grato pela inestimável orientação religiosa recebida, especialmente na infância, etapa de vida na qual o espírito absorve com a máxima intensidade as influências do meio. Sei que muitos, mesmo sob o hábito da oração em família, não se sensibilizaram tanto assim. Mas, em mim, essa experiência fez um efeito indescritível. Sinto ter renascido com uma “ânsia religiosa” e, por isso, a evangelização infantil encontrou em mim uma identidade que desde aquele momento, e até hoje, se traduz em paz de espírito e esperança na vida. Fico pensando quantos renascem com a mesma necessidade, e não encontram no lar, o alimento espiritual que tanto necessitam.

Curiosamente, devo à minha mãezinha também a transmigração filosófica-conceitual que imprimi no contexto da fé durante a minha juventude ao pisar pela primeira vez em
uma casa espírita. Parti da concepção tradicional de “religião” para o entendimento e vivência da ideia de “espiritualidade”. Antes, a presença dogmática da “igreja”. Agora, o entendimento e a vivência do sentido amplo de “fraternidade”. Ambas, igreja e fraternidade, elementos de uma mesma caminhada espiritual. Sem dúvida alguma, minha mãe, meu pai e meus irmãos foram anjos em minha infância. Mas nenhum deles é o meu Anjo da guarda! Explico.

Antes de tudo é importante salientar que a ideia da existência dos anjos não é uma exclusividade da doutrina espírita. Vamos
encontrá-los, por exemplo, no budismo, no islamismo, no hinduísmo e no judaísmo. No catolicismo eles estão muito presentes tanto na liturgia, na música, na pintura. Na doutrina espírita, o Livro dos Espíritos oferece uma longa sequência de perguntas e respostas sobre o assunto, na segunda parte da obra, no capítulo IX. Consultando essas páginas é possível constatar que “há espíritos que se ligam particularmente a um indivíduo para protegê-lo. É o espírito protetor, o bom espírito, o bom gênio”, ou… Anjo da guarda. A missão deles “é a de guiar o seu protegido pela senda do bem, auxiliá-lo com seus conselhos, consolá-lo nas suas aflições, levantar- -lhe o ânimo nas provas da vida”. Fazem isso “desde o nascimento, e muitas vezes nos acompanham na vida espírita e mesmo ao longo de várias encarnações”. Desta forma, não raras vezes, ao retornarmos à vida espiritual reconhecemos o nosso Anjo da guarda, “pois provavelmente o conhecemos antes de renascer na Terra”.

Partindo do pressuposto que muitos não reconhecem a sua existência, e que até optam por praticar o mal, qual será a postura do Anjo guardião nesses casos? Os espíritos assim responderam à Kardec – Nesses casos, o Anjo da guarda “afasta-se, quando vê que seus conselhos são inúteis e que mais forte é, no seu protegido, a decisão de submeter-se à influência dos Espíritos inferiores. Mas, não o abandona completamente e sempre se faz ouvir. É então o homem quem tapa os ouvidos. O protetor volta desde que este o chame”.

São Luis e Santo Agostinho complementam: “Sim, onde quer que estejais, estarão convosco. Nem nos cárceres, nem nos hospitais, nem nos lugares de devassidão, nem na solidão, estais separados desses amigos a quem não podeis ver, mas cujo brando influxo vossa alma sente, ao mesmo tempo que lhes ouve os ponderados conselhos. “Ah! se conhecêsseis bem esta verdade! Quanto vos ajudaria nos momentos de crise! Quanto vos livraria dos maus Espíritos! Mas, oh! Quantas vezes, no dia solene, não se verá esse anjo constrangido a vos observar: “Não te aconselhei isto? Entretanto, não o fizeste. Não te mostrei o abismo? Contudo, nele te precipitaste! Não fiz ecoar na tua consciência a voz da verdade? Preferiste, no entanto, seguir os conselhos da mentira!” Oh! Interrogai os vossos anjos guardiães; estabelecei entre eles e vós essa terna intimidade que reina entre os melhores amigos”.

Lembrando que da mesma forma que existem anjos da guarda que atuam de forma individual, as aglomerações de indivíduos, como as sociedades, as cidades, as nações, também têm Espíritos protetores já que “esses agregados são individualidades coletivas que, caminhando para um objetivo comum, precisam de uma direção superior.” Qual é o
nome dele? O que importa? “Dai-lhe o nome que quiserdes. O de um Espírito superior que vos inspire simpatia ou veneração. O vosso protetor acudirá ao apelo que com esse nome lhe dirigirdes, visto que todos os bons Espíritos são irmãos e se assistem mutuamente.”

Que riqueza inestimável e frequentemente desperdiçada! Considerando que o Anjo da guarda sempre pertence a um nível superior ao de seu protegido, como sermos indiferentes a eles diante de tantas necessidades e sofrimentos que presenciamos na Terra? A sua existência como descrito pela doutrina espírita, especialmente pela sua ação pessoal, demonstra sem equívocos o sublime amor de Deus por seus filhos. É a Providência divina atuando particularmente em favor de mim. Em favor de você! Que tal? Um “personal angel”. É evidente que não compreendendo e não crendo, eles deixam de existir. Pelo menos para aquele que descrê.

E o que fazer para estreitar os laços com o seu anjo da guarda? Inicialmente, escolha um nome que lhe agrade. Em seguida, estude O Livro dos Espíritos contrapondo, resposta por resposta, à sua concepção de vida, de Deus e do amor universal. Analise se faz sentido para você. Se esta ideia é coerente com tudo aquilo que você já viveu e acredita. E se está de acordo com os princípios da doutrina dos espíritos. Ao mesmo tempo, estabeleça uma comunicação constante com o seu Anjo da guarda. Estabeleça uma relação de confiança, simpatia e acima de tudo de gratidão. Por ser hierarquicamente superior, o seu Anjo da guarda age inspirado por Jesus. Quanto mais você também assim o fizer, mais estará apto para perceber as intuições para decidir com proveito e se livrar do mal. Amém.

Finalmente, como todo Anjo da guarda possui o seu Anjo da guarda, que tal ser uma espécie de Anjo da guarda de alguém de sua convivência? Já pensou nisso? Dê bons conselhos, ampare nas necessidades materiais, interceda diante das injustiças, silencie diante do conflito injustificado e exalte as qualidades de seu protegido. Estagiando dessa forma no exercício do amor ao próximo, em muito breve você poderá ascender ao status de Anjo da guarda. E aí, será um grande prazer, conhecê-lo!

Vinícius Moura

O Livro dos Espíritos. Capítulo IX – Anjos da guarda. Espíritos
protetores, familiares ou simpáticos. Questões 489 a 522.

Sofredores e obsessores

O diálogo entre Cecília, Vicente e André Luiz continuava extremamente proveitoso para nossos amigos. Em dado momento, a filha do casal Bacelar, ao salientar diferenças em alguns serviços entre as colônias “Nosso Lar” e “Campo da Paz”, comentou: “Vocês conhecem lá muitos Espíritos sofredores, mas, em “Campo da Paz”, conhecemos muitos Espíritos obsessores. Lá poderá existir muita gente que ainda chora; mas em nosso meio há muita gente que se revolta. É mais fácil remediar o que geme, que atender ao revoltado. Nas câmaras a que se refere, vocês retificam erros que já apareceram, dores que já se manifestaram; mas aqui, meu amigo, somos compelidos a lutar com irmãos ignorantes e perversos, que se sentem absolutamente certos nas fantasias perigosas que esposaram, e vemo-nos obrigados a atender a doentes que não acreditam na própria enfermidade. (…) Aliás, é natural que assim seja. Estamos a pouca distância dos homens, nossos irmãos na carne. E sabemos que, na Crosta, a situação não é diferente. Quantos materialistas se fantasiam, por lá, de filósofos? Quantos demônios com capa de santos? Quanta má fé a fingir generosidade e boas intenções? A influência da Humanidade encarnada em nosso núcleo de serviço é vigorosa e inevitável.” [1]

Enquanto isso aqui na Terra, dentre as várias atividades realizadas nas instituições espíritas, uma que sempre despertou o interesse e a curiosidade até de quem não é espiritista, é a chamada reunião mediúnica, antigamente denominada sessão espírita. Trata-se de pessoas com um bom nível de conhecimento doutrinário e vivência evangélica que acolhem e atendem os espíritos sofredores e obsessores conduzidos pelos mentores à estas reuniões. Basicamente, os grupos ou equipes são compostas por dirigentes, doutrinadores (ou dialogadores) e médiuns ostensivos (psicofônicos, psicógrafos, videntes, etc.), de sustentação e passistas. Através do intercâmbio mediúnico, os doutrinadores esclarecem, orientam e consolam as entidades comunicantes, sempre com base nos ensinamentos de Jesus e Kardec. Nesses trabalhos recebe-se também a palavra amiga e norteadora da Espiritualidade Superior por meio dos mentores responsáveis pela tarefa.

Bem distintos são os atendimentos ou diálogos, pois deve-se observar a natureza e as condições de cada espírito comunicante. Se por um lado pode-se ter uma conversa
fraterna mais tranquila com os sofredores, baseada no consolo que o Evangelho e o Espiritismo proporcionam, o mesmo não se pode dizer com relação aos obsessores. Via de regra, esses últimos são seres que se agarram às suas vítimas, arvorando-se em verdugos cruéis ou implacáveis justiceiros do Além. A maioria ainda se compraz com a prática do mal, buscando
vingança por situações de vidas passadas, não demonstrando qualquer abertura para o perdão e o entendimento.

Engana-se o dialogador que pensa que pode se impor a esses espíritos utilizando raciocínios longos e de profundo saber doutrinário. Como diz um amigo espiritual, quem se digna a este mister deve se armar da brandura, mas também da firmeza, pois lidará com entidades que, geralmente são sagazes, maliciosas e inteligentes. Sentem prazer ao perturbar o ambiente da reunião e quando derrubam os argumentos apresentados pelos doutrinadores. Jesus ensinou no Evangelho que só é possível doutrinar ou evangelizar essa casta de espírito com oração e jejum.[2] Cabe ressaltar que a oração nos coloca em ligação com os planos mais elevados da vida, de onde recebemos as intuições e inspirações dos nossos mentores e guias. O jejum, sobre o qual o Mestre se refere, não é de alimentos, mas sim o jejum moral, a abstenção de todo o mal que possamos praticar, seja por ações ou pensamentos, pois a moral superior é a única ascendência que possuímos frente a esses irmãos.

Isso me lembra uma passagem sobre exorcistas judeus ambulantes que tentavam invocar os nomes de Jesus e de Paulo sobre os espíritos malignos. Certa feita, foram surpreendidos por um obsessor que lhes revelou que não estavam à altura moral daqueles que invocavam. Em outras palavras, aprenderam às duras penas que não basta falar em nome de alguém; é necessário procedermos sempre da forma mais elevada possível. “Respondendo, porém, o espírito maligno, disse: A Jesus conheço, e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois? Então o homem, no qual estava o espírito maligno, saltando sobre eles, apoderou-se de dois e prevaleceu contra eles, de modo que, nus e feridos, fugiram daquela casa.”[3]

Os guias da humanidade responderam à Allan Kardec que os maus espíritos não renunciam às suas tentativas de prejudicar os homens. Às vezes se afastam e ficam à espreita de um momento propício para atacar. Contudo, o homem pode neutralizar tal influência perniciosa praticando todo o bem possível e colocando sua confiança em Deus. Salientam ainda que tais os obsessores só se apegam aos que, pelos seus desejos os chamam e aos que, pelos seus pensamentos os atraem.[4]

“Deduzo de tudo isso manifestações sacrificiais muito grandes, mas o trabalho em “Campo da Paz” deve ser altamente meritório” – disse Vicente, ao que Cecília respondeu de pronto: “Incontestavelmente”.[1] O estudo, a observação e a prática de alguns anos nessa lide nos levam à mesma conclusão. É muito mais complicado tratar com espíritos obsessores do que com sofredores. Não obstante, seja qual for a circunstância, todos que nos procuram ou que são conduzidos às nossas reuniões devem ser recebidos e tratados com respeito e carinho. É muito provável que, algum dia, estivemos na situação em que eles se encontram agora e que alguém nos estendeu as mãos em nome de Jesus. Façamos o mesmo agora.

Valdir Pedrosa

Na prática do autoconhecimento

Muito tem se falado desse tema, mas o fato é que o autoconhecimento é algo que precisa ser incorporado como uma prática diária que propiciará o desenvolvimento das potencialidades do próprio ser. O autoconhecimento é a capacidade de fazer uma viagem para dentro de si, buscando realmente se conhecer. Esse é um processo gradativo e contínuo de descobertas, visando a transformação que possibilita o aumento da própria consciência sobre os talentos que se tem, mas que ainda não são utilizados, por desconhecimento.

O autoconhecimento também visa a identificação e aceitação dos aspectos da personalidade que precisam ser trabalhados, modificados, questionados e atualizados. Cuidando também das marcas emocionais e cicatrizando as feridas interiores que muitas vezes paralisam a vida em determinados aspectos. Viver hoje em um mundo com tantos estímulos externos de consumos, em todas as áreas, se tornou um grande desafio para qualquer pessoa.

E as grandes questões que surgem com isso são: Como equilibrar essas demandas com as necessidades essenciais do ser? Como viver no mundo sem se perder de si mesmo? A resposta é: pratique o autoconhecimento! Analise a si mesmo através das situações que mais mexeram com você no decorrer do dia. Com muito amor e compreensão, reveja suas respostas, atitudes e suas consequências, bem como o que te levou a agir assim. Reflita, sobre o que mobilizou para determinadas reações? O que na verdade estava por atrás dessas atitudes?

Na prática do autoconhecimento faça perguntas a si mesmo. As respostas chegarão na medida que se tenha coragem de saber. O ser consciente de si é alguém renovado por essa jornada interior. É uma pessoa que sempre retorna mais maduro das reflexões que realiza. Continua convivendo no mundo, com as pessoas e vive as experiências, se diverte, busca ser feliz, mas agora de uma forma muito mais harmônica. Por estar bem consigo mesmo, tudo flui mais facilmente. Já não projeta suas dificuldades no outro. Como se trata com consideração, também dá o direito de cada um ser quem é, com suas escolhas e peculiaridades. 

É alguém que escuta os próprios sentimentos, se respeitando profundamente. Sente muita segurança na vida, porque não busca mais a segurança nas coisas que são mutáveis e transitórias, ou nas pessoas que também são imperfeitas. Mas sua segurança vem da confiança que tem em saber da própria capacidade de lidar com os fatos e situações, de refletir, ponderar e com isso, fazer escolhas saudáveis, que são coerentes com o que realmente é essencial.

Enfim, quem trilha a jornada do autoconhecimento, descobre que é um ser único, que é digno, que tem valores próprios e que por isso mesmo o seu caminho de crescimento também será singular. E com isso, busca agir com responsabilidade ao fazer as escolhas e viver de modo totalmente coerente com os próprios valores, com o objetivo claro de encontrar o melhor.

Rodrigo Ferretti

Liberdade de pensamento e caridade

“Fora da caridade não há salvação” pode também significar “fora do auxílio aos outros não te libertarás do teu eu”, inclinado à vaidade e ao orgulho, ao egoísmo e à discórdia.” (Emmanuel).

 

O capítulo X, da Parte Terceira, de O Livro dos Espíritos, traz importante estudo sobre a liberdade em seus diversos aspectos, como lei natural e dom do Espírito, desde sua origem. Todos os Espíritos receberam do Criador a vontade e o livre arbítrio, o que equivale ao uso, pelas criaturas, do próprio pensamento, no qual goza de plena liberdade.

Ensina Alan Kardec* que o pensamento é o atributo característico do ser espiritual e que ele atua sobre os fluidos ambientes, como o som age sobre o ar. Define o Codificador a vontade como sendo o pensamento transformado em força motriz. Nos ambientes que frequentamos, há sempre pensamentos sendo irradiados, por espíritos encarnados e desencarnados. Há pensamentos harmoniosos e também pensamentos discordantes. Devemos estar vigilantes não apenas quanto nossas palavras e atos, mas, em especial, aos nossos pensamentos que atuam plasmando quadros de grande positividade, mas também de graves desajustes.

A liberdade que temos de pensar conduz ao poder de exercer livremente a vontade de fazer. Lembremo-nos que este não é um dom exclusivo nosso, pois Deus o concedeu também ao próximo e há de haver respeito aos direitos alheios, inclusive aos que pensam de forma diferente da nossa. Qualquer desrespeito aos direitos alheios acarretará responsabilidades ao transgressor, gerando necessidade de reparação, por meio de aprendizados dolorosos, conforme as leis divinas, justas e imutáveis.

No nosso planeta, esperamos que a liberdade autêntica, responsável, seja alcançada de acordo com a evolução natural, conforme a lei divina do progresso. Esta liberdade significa trabalharmos buscando respeito às leis e aos semelhantes e, em paralelo, auxiliando e amparando sempre, praticando não só a beneficência, mas em especial a benevolência e o perdão para com os irmãos de caminhada.

Em síntese, para sermos realmente livres e felizes deverá existir entre nós, homens de bem, entendimento e amor fraterno, independente das nacionalidades, raças, condições sociais e credos. A verdadeira liberdade de pensar e agir decorre dos sentimentos superiores de amor, justiça e caridade. A prática evangélica aprimora o coração. O conhecimento doutrinário ilumina a inteligência, alargando o raciocínio. Evangelho no coração e doutrina no entendimento, eis o tipo ideal do cooperador de Jesus no cenário terrestre. (Emmanuel*)

Letícia Schettino

É preciso valorizar

É comum ouvirmos no meio espírita confrades desavisados alardearem quanto à necessidade de matarmos o homem velho para promover o nascimento do homem novo. Antes de mais nada é preciso compreender os conceitos. O homem velho representa o passado ou em outras palavras as experiências boas ou não que vivenciamos, bem como os valores bons ou ruins amealhados ao longo das existências. Em função do estágio evolutivo no qual nos encontramos nem sempre o nosso homem velho se apresenta como algo totalmente positivo. Por outro lado o homem novo é aquilo que já aspiramos é o resultado do progresso espiritual que buscamos é o homem renovado e iluminado pelo conhecimento e pela prática das lições do Cristo. Portanto, o homem novo (futuro) nada mais é do que o homem velho (passado) transformado. Se matarmos o homem velho não haverá o homem novo.

Estamos dizendo isso para demonstrar a importância de valorizar as nossas conquistas. Certo somos espíritos atrasados carregando ainda um homem velho bem pesado reflexo dos inúmeros vícios, mazelas e defeitos que alimentamos. Por outro lado também é óbvio que nem tudo é ruim. Em reencarnações passadas adquirimos virtudes, conquistamos valores e tivemos experiências enobrecedoras. Desta forma uma das tarefas que devemos realizar é a reforma interior que nada mais é do que identificar os pontos positivos e negativos que possuímos e trabalhá-los. Precisamos potencializar e otimizar ao máximo os  positivos e minimizar ou até mesmo acabar com os negativos. Não se trata de tarefa fácil, mas sim de esforço necessário. Sem isso, não evoluímos.

Diante do acima exposto fica clara a nossa necessidade de melhoria, mas também é um alerta para aprendermos a valorizar o que já conquistamos. Ora, se hoje somos bafejados pelo conhecimento da Doutrina Espírita e pelo aprendizado do Evangelho de Jesus, é porque já temos algo que nos capacita a isso. Ninguém recebe nada de graça, tem que haver merecimento. É sobre essa necessidade de valorização que a jovem Cecília, filha do casal Bacelar, comentou com André Luiz e Vicente, quando sua família visitou Alfredo e Ismália no Posto de Socorro. Disse ela: “Estou trabalhando há muito para alcançar um prêmio de visita a “Nosso Lar”. Minhas superioras prometeram-me semelhante satisfação para o ano próximo. (…) Entretanto, para consegui-lo tenho de atender a umas tantas obrigações importantes.”[1] É importante ressaltar que a família Bacelar vivia na colônia espiritual “Campo da Paz”, local de árduos trabalhos santificantes. Admirado, Vicente perguntou se era necessário tanto merecimento assim para ela conhecer a colônia que ele aprendeu a chamar de lar. Esclareceu Cecília: “Sem dúvida. O meu amigo talvez não esteja convencido, quanto ao brilho de sua atual posição. Viver em “Nosso Lar” é uma grande bênção. Acaso não o terá compreendido ainda? (…) Segundo os instrutores que nos visitam em “Campo da Paz” os seus Ministérios são verdadeiras universidades de preparação espiritual. O ensejo educativo neles é imenso. E chego a crer que para avaliarem a extensão da benesse que Jesus lhes concedeu seria necessário viverem alguns anos em nossa colônia onde o trabalho ativo de vigilância e assistência é mais imperioso, mais exigente.” [1]

Vicente e André não percebiam completamente o quanto eram bem-aventurados por viverem em “Nosso Lar”. Mesmo depois de passarem por extensas provações após o desencarne ambos foram acolhidos na colônia, estudaram, se prepararam e naquele momento ensaiavam os primeiros passos no serviço de assistência ao próximo. Viver em “Nosso Lar” e em outras cidades semelhantes no plano espiritual é um prêmio para aqueles que fizeram por merecer. Não é simplesmente uma benção divina concedida a qualquer um. Todos que nelas vivem e trabalham se esforçam diariamente para se provarem dignos. São espíritos que já possuem algumas virtudes conquistadas em vidas anteriores e que podem ser colocadas em prática no trabalho do bem. Não é qualquer um que entra nessas colônias. Basta lembrar o caso da vampira, barrada em “Nosso Lar”, pelo irmão Paulo[2] e o fato dos Samaritanos excursionarem de tempos em tempos nas regiões umbralinas em busca de espíritos que já estejam em condições de serem amparados[3].

André ainda mencionou o fato de existirem em “Nosso Lar” um grande número de sofredores e que o Ministério da Regeneração é uma verdadeira colmeia. Sem perder a sagacidade nas observações, Cecília considerou: “Você diz muito bem quando se refere a colmeia significando possibilidades de trabalho. Creia que os sofredores que atingem o seu núcleo já se encontram a caminho de excelentes realizações. Naturalmente que os irmãos desequilibrados, que por lá existem, já se torturam pelo vagaroso despertar da consciência já sentem remorsos e arrependimentos indicativos de renovação. São sofredores que melhoram progressivamente, porque o ambiente da cidade é de elevação positiva. Onde a maioria vive com a bondade a maldade da minoria tende sempre a desaparecer. “Nosso Lar” portanto, mesmo para os que choram, possui soberanas vantagens espirituais.” [1]

Por tudo isso precisamos valorizar as conquistas e concessões espirituais, pois são elas que pavimentam as veredas onde pisamos na presente encarnação. O somatório de nossas experiências passadas nos localiza hoje na estrada evolutiva que trilhamos. Por bem ou por mal estamos onde merecemos e precisamos estar. Valorizemos as oportunidades recebidas utilizando-as da melhor forma possível a fim de promover o nosso progresso espiritual, afinal de contas “a quem muito é dado, muito será cobrado.”[4]

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por
Francisco Cândido Xavier – capítulo 29 (Notícias interessantes).
[2] Nosso Lar – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 31 (Vampiro).
[3] Nosso Lar – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 28 (Serviço).
[4] Evangelho Segundo Lucas 12:48.

Espaço Universal

Os espíritos nos ensinam que o egoísmo e o orgulho são enormes obstáculos à nossa evolução, pois, ao analisarmos, em essência, os vícios que tingem a nossa trajetória, veremos que eles decorrem de um ou de outro, isto é, ou do orgulho e/ou do egoísmo. Pelo orgulho, atribuímo-nos qualidades que não possuímos e exaltamos desproporcionalmente a nossa personalidade, criando de nós mesmos uma imagem que não corresponde à realidade, beirando, em muitos casos, à soberba e à arrogância, o que nos leva a acreditar que somos melhores, mais capazes e mais sábios do que somos.

Por isso, o nosso grande desafio, além de aprender a verdadeiramente amar, é sermos humildes. Isso, ao contrário do que se supõe, não se confunde com baixa autoestima, com subserviência e/ou com falsa modéstia que, muitas vezes, não passa de orgulho dissimulado -, mas sim com a capacidade de reconhecer o nosso verdadeiro valor, nossas capacidades, nossas limitações e os nossos pontos de melhoria. Isto nos permitirá assumir as responsabilidades de que já somos capazes de nos desincumbir, bem como identificar e nos empenhar em melhorar aquilo que sabemos que ainda somos falhos, certos de que a luta é contínua e a evolução é uma lei da qual não podemos fugir.

Infelizmente, o orgulho ainda fala muito malto em nós, especialmente quando tratamos de assuntos que escapam dos nossos sentidos e para os quais os nossos limitados conhecimentos são incapazes de dar as respostas de que gostaríamos de ter. Por isso, é importante ter em mente que o fato de não termos a resposta não significa que ela não exista, pois, às vezes, sequer temos o desenvolvimento necessário para sua compreensão. 

Admitir isso é um exercício de humildade, o que nos leva a reconhecer que a nossa razão tem limites decorrentes da nossa própria condição evolutiva, mas que, nem por isso, devemos renunciar ao esforço por uma compreensão contínua de nossa realidade e por saber lidar com as restrições próprias do nosso potencial cognitivo.

A proposta espírita de construir uma fé raciocinada rompe com a ideia de que a fé se limitaria à esfera do acreditar – e não do compreender -, estando restrita ao campo do sobrenatural, onde a razão não trafegaria. Na realidade, a união de ambas (fé e razão) permite descortinar um caminho para a construção do homem integral, por meio do qual crer e compreender são faces de uma mesma moeda. E isso nos permite construir, do ponto de vista intelectual, uma perspectiva mais humilde, por meio da qual o fato de não conhecermos não significa dizer de que não existe, mas pode sinalizar algo que ainda aprenderemos no nosso processo evolutivo. 

De certa forma, é isso que os espíritos da codificação nos ensinam, especialmente quando tratam de temas de alta complexidade e de profunda indagação, como é a questão do espaço universal, objeto deste artigo, e que é tratado nas perguntas de número 35 e 36 de O Livro dos Espíritos.

Em busca de maiores esclarecimentos sobre o tema, Kardec questionou aos espíritos da codificação na pergunta 34 daquela obra se o espaço universal seria infinito ou limitado, ao que responderam os orientadores espirituais: “Infinito. Supõe-no limitado: que haverá para lá de seus limites? Isto te confunde a razão, bem o sei: no entanto, a razão te diz que não pode ser de outro modo. O mesmo se dá com o infinito em todas as coisas. Não é na pequenina esfera em que vos achais que podereis compreendê-lo”. 

Tentando ser ainda mais didático, Kardec acrescentou à resposta dos espíritos que: “Supondo-se um limite ao Espaço, por mais distante que a imaginação o coloque, a razão diz que além desse limite alguma coisa há e assim, gradativamente, até ao infinito, porquanto, embora essa alguma coisa fosse o vazio absoluto, ainda seria Espaço”. 

E, para deixar claro que o universo é um todo ocupado, cuja extensão não temos condições de apreender, esclarecem os espíritos da codificação na resposta da pergunta de número 35 que não há vácuo, pois, o que parece ser vazio, na realidade, está ocupado por matéria cuja percepção escapa aos nossos sentidos e aos equipamentos que temos. Do exposto, temos que a busca pela compreensão de temas de alta complexidade, como o presente, é de fundamental importância para o nosso crescimento e para a nossa evolução. Entretanto, devemos estar atentos para que essa busca não se torne um fim em si mesmo, quando apenas alimentaremos o nosso orgulho. 

Por isso, mais do que entender a grandiosidade da revelação sobre a infinitude do universo e sobre a sua taxa de ocupação – o que agrada a nossa razão -, valeria a pena refletir sobre essa lição com os olhos do espírito. E, uma das interpretações que nos parece plausível – interpretação esta que não tem a pretensão de ser a única e nem a de ser a delas – é a de que, de fato, há muitas moradas na casa do Pai. E se, de um lado, a compreensão do universo ainda transcende – e muito – a nossa razão, essa mesma razão é capaz de fortalecer a nossa fé, ao nos permitir perceber que, apesar do nosso minúsculo tamanho diante da infinitude universal e da sua enorme taxa de ocupação, ainda assim, o amor de Deus por nós é infinito, conhecendo-nos a todos pelo nosso próprio nome.

Frederico Barbosa Gomes

Renovando a esperança

Estamos vivenciando um momento conturbado em nosso orbe terrestre. Diríamos que estamos atravessando a noite escura dos valores morais. Há tempos não precisamos mais abrir um jornal ou ligar a TV para vislumbrarmos cenas de violência, conflitos de toda ordem, contendas inúteis que refletem o egoísmo, o orgulho, a indiferença e o desamor. Esse cenário no qual estamos imersos tem nos causado, muitas vezes, uma sensação de profunda exaustão energética. Sintomas como cansaço, indisposição, desânimo, incredibilidade no ser humano, visão pessimista do mundo e da existência como se a esperança “a última que morre” tivesse realmente ido embora definitivamente…

Joanna de Ângelis, no livro “Encontro com a paz e a saúde”, psicografado por Divaldo Franco faz toda uma análise do comportamento humano nos dias atuais e chega à conclusão de que as criaturas parecem anestesiadas pelo sofrimento, havendo perdido o rumo e a confiança num futuro melhor. De acordo com a benfeitora “como a sociedade está enferma e por sua vez influi no comportamento individual este por sua vez é aglutinador do grupo social interdependendo-se mutuamente em incessante fluxo de energias. Embora as soluções devam ser propostas pelos grupamentos, será no indivíduo que se devem trabalhar as bases do ajustamento, das diretrizes do reequilíbrio, os valores éticos em benefício da sua saúde emocional, psíquica e moral(…) de modo a recuperar a saúde geral e salvar o planeta que padece a alucinação de seus habitantes”.

Embora a paisagem seja sombria e desconsertante, com as trocas fluídicas nos influenciando de forma integral, temos urgência em melhorar nossas emanações individuais para influenciarmos o meio em que vivemos com um facho de luz da esperança de modo a torná-lo mais ameno, mais dignificante. Primeiramente é necessário compreender que a terra está passando por esses reajustes para se chegar à regeneração. Os desastres, infortúnios, calamidades diversas fazem parte da transição e nos trazem a oportunidade de servir mais, tornando-nos mais fortes, optando por viver de forma mais cooperativa ajustando também dentro de cada um de nós os valores morais necessários para ter equilíbrio suficiente para superação dos desafios e sabedoria para viver neste contexto.

Nossa querida mentora Meimei, através da mensagem psicofônica na Reunião de Convívio Espiritual do dia 16/06/2019, nos presenteia com algumas diretrizes importantes para mudarmos o nosso comportamento quando as dificuldades surgirem. Orienta-nos a manter a calma, a paciência em Jesus por meio da prece, do esforço para se tornar uma pessoa melhor a cada dia. Convida-nos a desenvolver mais tolerância com o nosso próximo principalmente quando não concordamos com a opinião dele silenciando para evitar conflitos e respeitando sempre. Ressalta ainda que não nos preocupemos tanto com os erros alheios e sim com os próprios erros refletindo sempre ao final de cada dia como nos ensinou Santo Agostinho avaliando nossas ações acerca do que fizemos e o que poderíamos ter feito de maneira diferente.

A espiritualidade sempre tão cuidadosa com todos nós tem pedido muito para renovarmos a esperança em nossos corações. Não uma esperança passiva, apenas acreditando que dias melhores virão e que a paz e o amor irão reinar, mas esperar servindo, orando, amando e instruindo. Esperar servindo é esperar com as mãos ocupadas no trabalho ajudando o nosso próximo na escola da caridade, porque as boas ações fortalecem nosso espírito e transformam a realidade. Devemos também esperar orando. Muitas vezes nos desequilibramos e não conseguimos tampouco fazer uma prece. Daí a necessidade de vigilância constante. Perceber a importância de se realizar o culto cristão no lar para renovar a esperança na vida, na família, no ser humano, para melhorar a convivência, para harmonizar o ambiente. Esperar orando é também colocar o coração em oração em qualquer tempo e lugar para sentirmos amparados e confortados com o amor de Jesus. É elevar nosso pensamento seja para agradecer ou rogar força e sabedoria para vencer os momentos difíceis do caminho. É convidar Jesus para fazer parte da nossa rotina.

“Amai-vos e instruí-vos” eis a essência da Doutrina Espírita, frase encontrada no Capítulo VI (O Cristo Consolador) de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Esperar amando e instruindo é estudar e vivenciar o evangelho fazendo-nos solidários e misericordiosos com o nosso semelhante e também conosco. Esperar amando diz respeito a um amor incondicional. Esperar instruindo é não perder de vista o estudo das obras básicas do Espiritismo que estão consubstanciadas em: O livro dos Espíritos, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese, assim como a vasta literatura espírita que descortina um universo de possibilidades de novos conhecimentos auxiliando-nos na compreensão da vida permitindo que aprofundemos em diversos temas propiciando o autoconhecimento necessário para avaliarmos se nossas ações estão realmente condizentes com os ensinamentos do Cristo permitindo os reajustes necessários para aperfeiçoarmos sempre, objetivo maior de estarmos reencarnados.

Enfim, o convite é para hoje. Renovemos a esperança em nossos corações. Esperança de dias melhores, de sermos melhores “melhores no amor, melhores na dor, melhores em tudo”, como diz uma canção… E se por ventura o sentimento de medo, tristeza ou desânimo chegar e nos convidar ao repouso ou à imobilização não deixemos que a esperança esmoreça em nós. Continuemos esperando servindo, orando, amando e instruindo com perseverança apesar de tudo. Nunca parar, pois Cristo segue à nossa frente.

Adriana Souza

O Desculpismo Indesculpável

O assunto sobre a assistência aos encarnados, apresentado pelo Sr. Bacelar, despertou o interesse dos presentes na residência de Alfredo e Ismália, no Posto de Socorro. Após breve explanação sobre os desafios de tão nobre atividade, André Luiz ponderou: “Tem razão; entretanto, vale por conforto a certeza de que há muitos cooperadores encarnados no mundo prontos a colaborar na tarefa.” [1] Ledo engano! No final da década de 1990, quando descobri a maravilha que é o Espiritismo, eu também pensava como André. Diante de todo o conhecimento e trabalho que a Doutrina Espírita nos proporciona, imaginei que havia inúmeros tarefeiros de boa vontade que, em uníssono com os pensamentos do Cristo, levavam a caridade a todos os cantos.  Algum tempo depois, já estudando um pouco mais os postulados evangélicos, me deparei com a seguinte fala de Jesus aos seus discípulos: “Na verdade, a seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara.”[2] Posteriormente, abracei com intenso amor a função de expositor espírita e, aos poucos, fui percebendo a veracidade do comentário do Mestre. Depois de mais de vinte anos percorrendo inúmeras instituições de nossa cidade e de sua região metropolitana, observei que na maioria delas há uma quantidade considerável de frequentadores, pessoas que buscam na Doutrina o consolo, a orientação e o esclarecimento para as mais diversas situações de suas vidas. Todavia, infelizmente, o número de tarefeiros quase sempre é muito pequeno. Faltam dirigentes, expositores e médiuns, dentre outros. Sobretudo, há uma grande carência de lidadores espíritas devidamente qualificados e comprometidos com a pureza doutrinária do Espiritismo.

Em resposta à colocação feita por André Luiz, o Sr. Bacelar comentou: “Nem sempre. A cooperação é outro problema. A maioria dos irmãos que se propõem ao serviço, partem daqui prometendo, mas gostam de viver descansados, no planeta. (…) Raramente encontramos companheiros encarnados com bastante disposição para amar o trabalho pelo trabalho, sem ideia de recompensa. A maioria está procurando remuneração imediata. Nessas condições, não percebem que a mente lhes fica como aposento escuro, atulhado de elementos inúteis. (…) Enxergam tormentas onde há paisagens celestes, montanhas de pedra onde o caminho é gloriosa elevação. De pequenos enganos a pequenos enganos, formam o continente das grandes fantasias.” [1] Essa é outra visão do mesmo problema: Espíritos que reencarnam trazendo sua programação de trabalhos edificantes, porém ao chegarem à Terra, se imaginam em uma verdadeira colônia de férias. Quando se dignam ao serviço benfazejo, exigem retribuição quase instantânea. Como se não bastasse, são incapazes de avistar o lado positivo das situações, pois só conseguem enxergar dificuldades e obstáculos, sem atinar que  se tratam de recursos oportunos utilizados pela Providência Divina em nosso próprio benefício.

Ao citar enganos e fantasias que se tornam constantes na vida dessas pessoas, o Sr. Bacelar me fez recordar da preleção do instrutor Eusébio: “As facilidades concedidas aos espíritos santificados, que admiramos, são prodigalizadas a nós, por Deus, em todos os lugares. O aproveitamento, porém, é obra nossa. As máquinas terrestres podem alçar-vos o corpo físico a consideráveis alturas, mas o voo espiritual, com que vos libertareis da animalidade, jamais o desferireis sem asas próprias. (…) Não cobiceis o repouso das mãos e dos pés; antes de abrigar semelhante propósito, procurai a paz interior na suprema tranquilidade da consciência. Abandonai a ilusão, antes que a ilusão vos abandone.”[3]

E quanto ao desculpismo? O distinto Sr. Bacelar também nos chama a atenção para isso. Quantas pessoas alegam falta de tempo ou de condições, sejam lá quais forem, para abraçar uma atividade na seara
do Cristo? Quantas ponderam em relação a inadiáveis compromissos familiares ou profissionais, nem sempre verídicos, para fugirem do trabalho no bem? Quantas até inventam enfermidades para se verem livres das tarefas de luz? O contingente não é pequeno, lamentavelmente. O que precisamos fazer é nos organizarmos, sermos disciplinados e definirmos as prioridades de nossas vidas. Esse trio, organização + disciplina + prioridades, nos colocará no caminho que conduz à seara de Jesus. Para finalizar, devolvo a palavra ao Sr. Bacelar: “Nesse terreno de assistência espiritual, verão, um dia, quantos pretextos são inventados pelas criaturas terrestres para fugir ao testemunho da verdade divina, nas tarefas que lhes são próprias. Os mordomos da responsabilidade alegam excesso de deveres, os servidores da obediência afirmam ausência de ensejo. Os que guardam possibilidades financeiras montam guarda ao patrimônio amoedado, os que receberam a bênção da pobreza de recursos monetários aconselham-se com a revolta. Os moços declaram-se muito jovens para cultivar as realidades sublimes, os mais idosos afirmam-se inúteis para servi-las. Os casados reclamam quanto à família, os solteiros queixam-se da ausência dela. Dizem os doentes que não podem, comentam os sãos que não precisam. Raros companheiros encarnados conseguem viver sem a contradição.”[1] Em outras palavras, o desculpismo é indesculpável! Avaliemos nossa conduta perante os convites que o Mestre nos envia.

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 28 (Vida social).
[2] Evangelho Segundo Mateus 9:37-38.
[3] No Mundo Maior – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por
Francisco Cândido Xavier – capítulo 2 (A preleção de Eusébio).