Recomeçar sempre

O Espírito Emmanuel, nos deixou a seguinte mensagem: – “Janeiro a Janeiro, renova-se o ano, oferecendo novo ciclo ao trabalho. É como se tudo estivesse a dizer: Se quiseres, podes recomeçar. Disse, porém, o Divino Amigo que ninguém aproveita remendo novo em pano velho. Desse modo, desfaze-te do imprestável. Desvencilha-te do inútil. Esquece os enganos que te assaltaram. Deita fora as aflições improfícuas. Recomecemos, pois, qualquer esforço com firmeza, lembrando-nos, todavia, de que tudo volta, menos a oportunidade esquecida, que será sempre uma perda real”.

Para acolher verdadeiramente Jesus e seguir no caminho do progresso espiritual é preciso ter vontade e coragem para vencer hábitos antigos e soluções costumeiras, que dominamos, mas que nos incomodam intimamente. Se estamos em busca de renovar a maneira de nos relacionarmos com Deus, conosco, com parentes e com companheiros e se precisamos encontrar mais leveza, confiança e alegria no nosso caminhar é necessário acabar com estruturas arcaicas de dominação e de discriminação.

A proposta é vivenciar a Boa Nova mudando a forma de pensar e agir. Atuar neste sentido com determinação, com respeito e carinho, com autoamor e com misericórdia, porque somos falíveis e não existe mágica. Mudar é um processo – começamos, recomeçamos, insistimos… não há espaço para falsidades e culpas, apenas para confiança no Criador. Jesus não veio “remendar”, mas trazer algo novo e ele é nosso mestre, nosso exemplo, nosso arrimo nos momentos difíceis que, certamente, vivenciaremos.

No capítulo 10 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec, com base nas palavras de Jesus (Mateus, 7:3 a 5), diz que é grande a insensatez do homem ao ver o mal nos outros antes de ver aquele que está nele próprio. Ressalta que o orgulho faz com que disfarcemos os nossos defeitos, tanto físicos quanto morais, e nos apressemos em apontá-los nos outros. Segue ainda dizendo: “Infeliz daquele que diz: ‘Nunca perdoarei’ (…)com que direito pedirá a Deus o perdão das sua próprias faltas, se ele próprio não perdoa as dos outros?”

Justificamos a dificuldade em desculpar as faltas alheias porque fomos injustiçados, mas não nos perguntamos se a causa real não estaria na nossa arrogância. Dificilmente aceitamos ser portadores desta doença moral, que chega por meio do vírus do egoísmo e atinge a maioria de nós. Quantas rusgas e atitudes grosseiras em família e entre companheiros estão baseadas em disputas infundadas, em certezas absolutas, na rigidez de ideias. Há no ar um sentimento de superioridade que não consegue suportar o brilho do outro. Há no fundo dos corações medos e inseguranças que não admitimos e que nos levam a ver no outro o opositor, a ameaça.

Vigiemos pois o impulso para progredir, o instinto de conservação e à necessidade de segurança, que são os fatores de motivação para a coragem, para ousadia e para a superação. Estes fatores permitem o nosso desenvolvimento espiritual e o progresso da humanidade, entretanto, se nos deixarmos levar por eles sem a escora da humildade, do respeito ao outro, sem conhecer o nosso verdadeiro tamanho, a dor chegará para o necessário reajuste.

Atitudes simples podem nos apoiar para recomeçarmos de forma melhor a cada dia. Que tal perceber atitudes arrogantes, se desculpar, se colocar no lugar do outro, se cuidar, trabalhar os sentimentos e evitar que as lembranças desagradáveis de acontecimentos e de pessoas na condição de opositores, permaneçam no pensamento?

Vamos tratar de renovar nossas ideias, focando em momentos e situações positivas, na necessária misericórdia para com o outro e na piedade para nós mesmos! Instrui-nos o Espírito Simeão da seguinte forma: “Esquecei o mal que vos foi feito e pensai apenas no bem que podeis fazer.”

Letícia Schettino

Palavras de Vida Eterna, Francisco C. Xavier, pelo Espírito Emmanuel.
O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 10, Allan Kardec.
Escutando Sentimentos, Wanderley Soares de Oliveira, pelo
Espírito Ermance Dufaux.

O trabalho em “Campo da Paz”

André Luiz estava surpreso com a quantidade de informações que recebia de Cecília, no agradável bate-papo entre eles, Aldonina e Vicente. A conversa havia chegado a um ponto em que a jovem deu mais detalhes sobre algumas atividades desenvolvidas em “Campo da Paz”, colônia que fica bem mais próxima da crosta terrestre do que “Nosso Lar”.

Segundo a filha do casal Bacelar, “as tempestades que nos atingem obrigam-nos a serviços constantes. Os quadros inferiores que nos cercam são profundamente dolorosos. Nossa cidade não possui Ministérios da União Divina, nem da Elevação. Não podemos receber a influência superior com muita facilidade. Trabalhos de comunicação e auxílio necessitam ainda de muita gente educada no Evangelho, para funcionar com eficiência. Além disso, temos os problemas de finalidade. Nossa colônia foi instituída para socorro urgente. A nosso ver, “Campo da Paz” é, mais que tudo, um avançado centro de enfermagem, rodeado de perigos, porque os irmãos ignorantes e infelizes nos cercam o esforço por todos os lados. De dez em dez quilômetros, nas zonas de nossa vizinhança, há Postos de Socorro como este, que funcionam como instituições de assistência fraternal e sentinelas ativas, ao mesmo tempo.”[1]

Pelo relato acima podemos ter uma noção do quanto é difícil e, sobretudo, extremamente meritório os trabalhos realizados na cidade em que Cecília vive na dimensão extrafísica. Não é nada fácil a realização de atividades do bem nas regiões mais densas e próximas da crosta terrestre. São muitas vibrações pesadas e grosseiras, emanadas por parte de encarnados e desencarnados invigilantes, ignorantes e até mesmo que se comprazem com o mal. “Campo da Paz” não possui os Ministérios que, em “Nosso Lar”, favorecem o recebimento mais direto da influenciação dos planos mais elevados da vida. Requer trabalhadores vinculados e educados nos ensinamentos de Jesus para que as atividades mais rotineiras de auxílio e comunicação funcionem a contento.

A colônia é como se fosse um verdadeiro hospital de pronto-atendimento situado em região perigosa com o objetivo de auxiliar fraternalmente os que por lá vivem. Entretanto, muitas vezes os que seriam assistidos se tornam adversários ferrenhos dos trabalhadores do Cristo, tentando a todo modo minar os esforços do bem. Todavia, a boa-vontade, a perseverança, a alegria, a esperança e a coragem são características marcantes e indeléveis de quem escolheu viver à luz do Evangelho. Seria muito mais fácil para os moradores de “Campo da Paz” desistirem dos irmãos infelizes que vivem à sua volta. Porém, ao invés disso, criaram postos de socorro vinculados à colônia e que funcionam tanto como locais de assistência quanto pontos de vigilância.

Se evocarmos na Boa Nova os exemplos de Madalena, Paulo, Pedro, Tiago (filho de Alfeu e Barnabé), dentre outros, perceberemos claramente que as dificuldades nunca foram obstáculos intransponíveis para quem, de fato, segue Jesus. Quanto maiores as dificuldades nas tarefas, maior o mérito de quem as realiza.

“Nosso governador, quando se agravam os serviços, costuma asseverar que estamos num Campo de batalha, com a Paz de Jesus. Imagem alguma define tão bem o nosso núcleo como esta. No exterior, o trabalho é rigoroso e incessante, mas dentro de nós, existe uma tranquilidade que nós mesmos dificilmente podemos compreender.”[1] Este é um aspecto interessante daqueles que já conquistaram a paz, algo que só é possível com bom ânimo. Podemos estar no centro das maiores confusões, vivenciando enormes dificuldades, seja de que natureza forem, passando por vicissitudes assustadoramente complexas, mas se já tivermos conquistado a paz do Mestre em nossa intimidade, interiormente estaremos em um oásis de serenidade, mesmo com todos os obstáculos à nossa volta. Com isso, teremos melhores condições de observar, planejar e agir, sempre de acordo com os princípios espíritas.

Aqui temos mais dois pontos que merecem reflexão. Primeiro, pelo número de reencarnações diárias preparadas em “Campo da Paz”, podemos imaginar o tamanho da fila de Espíritos aguardando oportunidades para retornarem ao plano físico. Por isso, devemos valorizar muito a nossa reencarnação, fazendo o máximo possível para aproveitarmos os ensejos proporcionados por Deus. Segundo, se a dedicação dos amigos espirituais com as crianças até por volta dos sete anos de idade é imprescindível, o cuidado dos pais é imperioso. É neste período que as tendências de vidas passadas do reencarnante estão tamponadas e a ação dos responsáveis é essencial para corrigir mazelas e incutir novos e bons hábitos. A educação moral é obrigação dos pais e o período infantil é o mais propício para ministrá-la.

Ao final do capítulo, a jovem ainda informou que “(…) somente nossos instrutores vão ao serviço sozinhos. Quanto a nós, não saímos, a não ser em grupos. Necessitamos auxílio recíproco, não só no que diz com a eficiência, senão também no que se refere ao amparo magnético. (…) No trabalho de assistência aos outros e defesa de nós mesmos, não podemos dispensar a prática avançada e justa da cooperação sincera.”[1] A citação por nós destacada é um grande ensinamento que não deve ser esquecido por nenhum trabalhador do Evangelho, pois a Lei de Cooperação vige em todo o Universo.

Valdir Pedrosa
[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por
Francisco Cândido Xavier – capítulo 30 (Em palestra afetuosa).

Formação dos Mundos

Não seria exagerado afirmar que, desde sempre, o homem procura compreender o processo de sua criação, do universo e do mundo que habita, como nos provam as várias manifestações históricas, científicas e religiosas sobre o tema. De certa forma, tal busca é manifestação de nossa essência divina nos despertando para algo maior do que nós mesmos, dando-nos conta de que a vida, suas dores, alegrias e desafios possuem uma razão que vai além do que os nossos sentidos podem explicar.

A compreensão do processo de formação do homem, do mundo que habita e do universo que faz parte é tema intrigante, e Allan Kardec não desperdiçou a oportunidade de submetê-lo aos espíritos superiores. Muito embora, no atual estágio evolutivo, não tenhamos respostas definitivas para tais questões, trazem os espíritos da codificação informações valiosas que nos convidam à reflexão e que jogam luzes sobre o tema, permitindo ampliar nosso conhecimento a seu respeito, apesar de nossas limitações cognitivas para apreender toda complexidade da questão.

De forma didática, a criação será objeto do capítulo III da primeira parte de O Livro dos Espíritos, na qual Allan Kardec questionará aos espíritos da codificação sobre a formação dos mundos; a formação dos seres vivos; o povoamento da Terra, com referência à figura de Adão; a diversidade das raças humanas; a pluralidade dos mundos; fechando o capítulo com considerações e concordâncias bíblicas acerca da criação. Com a explicação de que o universo “abrange a infinidade dos mundos que vemos e dos que não vemos, todos os seres animados e inanimados, todos os astros que se movem no espaço, assim como os fluidos que os enchem”, Allan Kardec inicia o capítulo III da primeira parte de O Livro dos Espíritos tratando sobre a formação dos mundos, mesmo objeto do presente artigo.

E, para entender o tema, nada mais oportuno do que iniciar a sua reflexão questionando se o universo – que, para nós, assume feições de infinitude – existe desde sempre, como Deus, ou se, ao contrário, foi ele criado, como perguntou Allan Kardec aos espíritos superiores na questão 37 de O Livro dos Espíritos. Referida pergunta traz consigo importante aspecto a ser observado: se o universo existisse, desde sempre, não seria ele obra de Deus, o que permitiria equiparar um (universo) ao outro (Deus). Contudo, os espíritos da codificação foram taxativos nesse ponto e deixaram claro que “é fora de dúvida que ele [universo] não pode ter-se feito a si mesmo. Se existisse, como Deus, de toda a eternidade, não seria obra de Deus”. Com isso, por mais abstrato nos pareça, o universo nem sempre existiu, e, assim como nós – o que abrange os mundos que lhe integram -, foi criado por Deus.

Como o universo foi criado por Deus, Allan Kardec, então, com a didática que lhe é peculiar, na questão 38 perguntou aos espíritos da codificação como se deu esta criação. De forma simples e direta, responderam eles que foi pela vontade de Deus. Mais uma vez, o espírito pesquisador de Allan Kardec se manifestou. Por mais importante fosse a revelação de que a criação do universo é fruto da vontade de Deus, não se contentou Kardec com tal informação, e avançou na busca por ser mais específico, questionando se poderemos conhecer o modo de formação dos mundos e a duração desse processo, como se vê das perguntas 39 e 42 de O Livro dos Espíritos.

Ao que parece, pretendia Kardec que os espíritos detalhassem o processo em si da criação dos mundos. Em resposta, os espíritos esclareceram que a formação dos mundos se dá pela condensação da matéria disseminada no Espaço, sendo tudo o que poderíamos conhecer e que eles poderiam dizer a respeito. E, quanto à duração de tal processo, apenas o Criador saberia dizê-lo, sendo louco quem pretendesse afirmá-lo em Seu lugar. 

Compreendida a criação, com as informações que podemos ter no nosso estágio evolutivo, quase que intuitivamente somos levados a pensar no outro extremo, isto é, na extinção dos mundos, o que foi objeto da pergunta 41 de O Livro dos Espíritos. A seu respeito, Kardec questionou os espíritos se um mundo já formado poderá desaparecer, disseminando-se no Espaço a matéria que lhe compunha. E, de forma coerente, pois o que foi criado poderá ser extinto, responderam os espíritos que Deus renova os mundos como renova os seres vivos, o que permite concluir pela possibilidade de extinção dos mundos.

Ainda com relação ao tema, em resposta à pergunta 40, os espíritos da codificação esclarecem que, ainda que se possa identificar em um cometa um começo de condensação da matéria para a formação de um mundo futuro, seria inadequado acreditar que eles influenciam para além dos aspectos físicos, alcançando questões morais, o que ratifica e reitera que nossas escolhas são fruto de nossa vontade e do nosso livre arbítrio, o que nos faz sermos responsáveis pelas nossas obras.

Frederico Barbosa Gomes

O outro e eu

“Há, entre os seres pensantes, laços que não conheceis ainda.”
(Livro do Espíritos: q.387)

 

Já parou para refletir porque nos sentimos bem ou mal perto de algumas pessoas? Em matéria publicada na Revista Espírita de 1862, Kardec esclarece que quando duas pessoas se aproximam, cada qual envolvida por sua atmosfera perispiritual, há contato desses dois fluidos. Se forem de natureza simpática, se interpenetram; se de natureza antipática, repelem-se e os indivíduos sentirão uma espécie de mal-estar. Afirma ainda que nem sempre a simpatia ou antipatia entre duas pessoas tem causa em existência anterior, pois dois espíritos podem se atrair ou repelir sem terem tido qualquer contato como encarnados. 

O espírito Emmanuel, na obra O Consolador, reforça este conceito: “ A simpatia ou a antipatia têm as suas raízes profundas no espírito, na sutilíssima entrosagem dos fluidos peculiares a cada um e, quase sempre, de modo geral, atestam uma renovação de sensações experimentadas pela criatura, desde o passado…”

A psicologia nos esclarece que sempre que nos aproximamos de alguém, a nossa leitura de realidade vai infinitamente além do que o nosso cérebro processa racionalmente. Captamos não só o que nos é dito, mas também impressões visuais, olfativas e temos reações emocionais a partir da comparação bdessas percepções com fatos da nossa história anterior.

Em contato com diferentes pessoas podemos, a nível consciente ou inconsciente, despertar reações emocionais em função de antigos medos, traumas, prazeres que não foram processados e trabalhados. Sentimos inveja, repulsa, culpa, intensa alegria ou conforto sem sequer admitirmos isso para nós mesmos. 

No caso das antipatias, sempre nos parece mais fácil atribuir ao outro uma característica negativa do que as aceitar em nós mesmos. Identificamos no outro o que somos ou tememos ser. Em geral, invejosos se acham muito invejados, críticos se julgam criticados, vaidosos e egoístas pouco valorizados…

Somente o autoconhecimento pode nos conduzir a pôr fim a este ciclo de comportamentos equivocados que se repetem com frequência ao longo das nossas vidas, trazendo sofrimento e angústia. Vale refletir que aquele que pensa e age diferente de mim pode me incomodar por estar agredindo verdades que cristalizei ou por estar despertando em mim o medo de enfrentar o novo.

Quando passamos a identificar com sinceridade nossas reações e emoções na relação com o próximo, temos mais justeza ao avaliar uma estranheza legítima (perante desregramentos morais: vícios, violência, etc.) ou um mero mecanismo de defesa de nossas próprias dificuldades, que deve ser corrigido.

Cabe muito bem a recomendação do espírito Irmão José, na obra Crer e Agir: “Exigir menos dos outros e mais de ti. Eis a fórmula ideal para que saibas viver e conviver, proveitosamente, com todos, em qualquer parte do mundo. Experimente ser mais afável, mais solidário, mais atencioso e alegre com os outros para ver o que te acontece”.

Letícia Schettino

Revista Espírita de 1862, página 358. Edicel.
O Consolador, pelo espírito Emmanuel, questão 173.
O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questões 387 e 388.
Crer e Agir, pelo espírito Irmão José, psicografia de Chico Xavier e Carlos Bacelli.

Tolerância, Evangelho e atualidade

Nos últimos tempos a internet proporcionou a democratização da informação, na qual foram ampliados os canais de interação da sociedade – redes sociais, televisão, aplicativos, comércio, negócios, viagens, notícias, etc. e, ao mesmo tempo, encurtadas as distâncias físicas. Não sendo incomum que fatos ocorridos do “outro lado do mundo” ganhem repercussão instantânea para cada um de nós que estamos “antenados”, “on-line” ou ainda “logados” nas informações que mais nos agradem.

O fato de permanecermos online nos permite a pronunciar nossas opiniões a respeito de diversos temas, ainda que sem a devida profundidade que o tema mereça, no qual a resposta rápida, parece-nos, “ganha ar” de seriedade e verdade “absoluta”. De modo que, não admitindo opinião contrária a nossa, ou a do grupo dominante a que pertencemos, ou ainda qualquer contradição, sermos classificados imediatamente como radicais. Mas a que servirá a polarização radical? Onde há espaço para convivência e a tolerância? O diálogo não vale mais a pena porque a opinião é contrária? Queremos ter amigos ou ter razão?

Estamos crescendo como sociedade justamente porque há diversidade, na qual aquele que “sabe mais” contribui para elevar aquele que “sabe menos”, e aqui não estamos falando só de inteligência, pois o que falta em um complementa-se no que sobra do outro. Numa equação de cooperativismo, no qual não há vencedores ou ainda dominantes, mas sim seres fraternos, criados por um Pai amoroso, misericordioso e tolerante com nossas mazelas acima de tudo.

Nós precisamos de paz interior nas relações afetivas, no trabalho, para que a inquietude não nos perturbe, ou pior, não permita que possamos ver no outro não somente uma pessoa, mas um(a) irmão(ã) de  caminhada. E somente a convivência social nos permite desenvolver nossas habilidades, físicas e morais.

No atual contexto social, naturalmente temos falado a respeito de tolerância, política, religião, família, etc. mas como “bandeira de ação”, sem, entretanto, termos trabalhado esses temas em nossos corações, com o olhar proposto pelo Mestre Jesus no Evangelho. Especificamente, por mais que ouçamos falar da tolerância, os casos de violência marcados pela intolerância de vários matizes aumentam. 

Tolerância quer dizer qualidade de quem tolera, na qual quem tolera suporta as atitudes, ações daqueles que ainda desconhecem ou ignoram como se deve proceder ou ainda, de forma ególatra, pensam somente em si mesmo.

Na criação Divina o espetáculo é da diversidade, assim, devemos respeitar a individualidade de cada ser que compartilha conosco o ambiente terrestre. “Se cada um se encontra em degraus evolutivos diferentes é natural que não sejamos compreendidos por aqueles que se posicionam numa escala inferior à que já atingimos, tanto quanto encontramos dificuldades para exemplificar o desprendimento e amor daqueles que já alcançaram os planos mais elevados da vida (1)”.

Assim, o ser tolerante é indulgente para com as imperfeições alheias, seja em que aspecto for. Essa é a caridade que Jesus nos ensina, e para relembrarmos, consultando o Livro dos Espíritos, questão 886, encontramos o esclarecimento acerca do verdadeiro sentido da palavra caridade: “benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.”(2)

É certo que as virtudes caridade, benevolência, indulgência e perdão, são qualidades a serem adquiridas e aperfeiçoadas por nós mesmos, no trabalho incessante no bem, a fim de favorecer a nós mesmos e ao nosso próximo. É trabalho inadiável, tendo por finalidade integração com nosso Pai celestial, como herdeiros que somos do seu legado. Então mãos a obra, vamos encarar o “bom combate” contra nossas imperfeições morais, que constituem nossos maiores inimigos e residem dentro de nós mesmos. Nossos pensamentos e criações mentais dizem muito de nós e do modo como vivemos, sendo que provocamos os maiores impactos das nossas vidas, seja no construir, seja no destruir.

Combatamos em nós toda intolerância, começando por exercer o respeito ao próximo, permitindo-nos o silêncio ante atitudes reprováveis mas com a mão estendida para ajudar o caído. Porque hoje é o irmão, mas amanhã poderá ser cada um de nós. Não vamos nos inquietar com as atitudes alheias, pois o outro é o outro e o modo como conduzimos a vida diz respeito a nós mesmos.

Comecemos em nosso lar, utilizando-nos da gentileza que dispensamos a qualquer um na rua, ampliando nossas ações na escola, no trabalho, no centro espírita e na sociedade, até que essa virtude faça-se presente nos nossos pensamentos e atitudes, como nos ensina o Mestre Jesus: “ame ao próximo como a ti mesmo”(3)

Tolerância é caminho de paz.

João Jacques de Freitas

(1) https://www.uemmg.org.br/cofemg/area-de-infancia-e-juventude/ conteudo-programatico/livro/6-conduta-espirita-vivencia-39, acesso em 15/10/2019.

(2) Livro dos Espíritos, Editora FEB, Kardec, Alan. Questão 886

(3) Mateus 22-37:39

Formação mediúnica

Em Seara dos Médiuns, Emmanuel inicia sua reflexão comparando o processo de formação mediúnica “aos serviços do solo”. Em várias de suas parábolas, o próprio Cristo utiliza o conceito de “terra” como analogia nos seus ensinamentos acerca da edificação do reino de Deus. Emmanuel, ao utilizar da mesma metáfora do Cristo, evoca algumas reflexões fundamentais em torno de uma questão que normalmente inquieta muitos médiuns: “O que fazer para desenvolver a mediunidade?”

Versando sobre os desafios que o médium vai enfrentar no cultivo de sua própria mediunidade, elucida-nos o autor: “No caso da terra, o lavrador será mordomo vigilante. No caso da mediunidade, o médium será o zelador incansável de si mesmo.” Com esta orientação, Emmanuel já aponta um roteiro de cuidados que o médium deve seguir ao se aliançar com o compromisso mediúnico. “Zelador incansável de si mesmo”, deve o médium cultivar em seu terreno emocional contínuos cuidados para evitar o acúmulo de sentimentos parasitários que comprometerão a fertilidade de sua mediunidade. Igualmente, deve também o médium observar com precioso critério as sementes que tem cultivado em seu terreno mental, por meio da contínua vigília dos pensamentos, que arvoram dentro ele (e de todos nós) frutos dos mais diversos sabores.

Rememorando Paulo de Tarso, se a semeadura é livre, a colheita faz-se obrigatória. Não enfrentamos em nossa “floresta espiritual” nada além do que cultivamos e permitimos crescer em nós. Seguimos hoje colhendo alguns frutos amargos, nos ferindo com alguns espinhos semeados por nós mesmos. Mas também carreamos dentro de nós sementes dignificantes, adubos valiosos para fertilizar luz e evolução em nossas almas. Assim se apresenta a mediunidade. E de que modo nós nos temos apresentado a ela?

Ao discorrer este texto uma reflexão de Chico Xavier veio recorrentemente aos meus pensamentos. Ele costumava dizer que muitos seareiros espíritas o perguntavam o que tinham que fazer para desenvolver a mediunidade, e poucos lhe perguntavam como fazer para desenvolver a bondade. A associação de mediunidade e bondade é feita pelo próprio Emmanuel, neste texto, ao afirmar que: “Não há desenvolvimento mediúnico, para realizações sólidas, sem o aprimoramento da individualidade mediúnica.” (grifo nosso). Sigamos semeando o Bem! Paz e Luz a todos!

Carla Barros

Na casa espírita

“Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” — Jesus. (MATEUS, 18:20.)

 

Jesus afirmou que estaria sempre ao lado daqueles que se reunissem, com seriedade e fé, em seu nome. Para encontrar nosso Pai não nos bastará os bons sentimentos, mas fundamentalmente as atitudes no bem. Servir amorosamente, buscando a melhoria pessoal, é o desafio. Sob a proteção da Doutrina Espírita, todos nós, trabalhadores e frequentadores da casa devemos compartilhar ideias, tarefas, deveres e, fundamentalmente, afeto, respeito e amizade.

Nessas circunstâncias, os aprendizes leais ao Divino Mestre, devem manterse conectados aos Espíritos Superiores, libertando-se dos convencionalismos e vaidades terrestres, agindo com a própria consciência e com a melhor compreensão de responsabilidade. Afinal, adentramos a casa espírita por motivos diversos, mas não podemos nos esquecer que a meta maior é educarmo-nos, espiritualizarmos fraternalmente e progredirmos rumo ao Pai. Cada qual no seu tempo…

Na obra Conduta Espírita, ditada pelo espírito André Luiz ao Waldo Vieira, um capítulo é dedicado exclusivamente a nos orientar sobre a melhor maneira de estarmos juntos e em respeitoso contato com os espíritos superiores e amigos nas reuniões da Casa Espírita. Sendo os salões de reunião fraterna locais previamente escolhidos para nossos encontros com os mentores do plano espiritual e para nossa educação evangélica, cabe-nos, a cada oportunidade, sermos pontuais, discretos e atenciosos as exposições dos oradores. Evitar a conversação excessiva, o uso dos aparelhos celulares, os bocejos e qualquer atitude que possa dificultar a harmonia dos pensamentos, a paz e o progresso de todos, é sinal de boa educação e caridade.

Lembramos que o Espiritismo tem como um dos objetivos a Reforma Íntima do homem através da sua conscientização pelo Evangelho do Divino Mestre, não possuindo nenhum tipo de compromisso com dogmas ou sacramentos criados por mãos humanas. A terapia do passe, a fluidificação das águas e as orientações espirituais, dentre outras atividades, deverão ocorrer com disciplina e simplicidade. A disposição para servir em nome de Jesus e, humildemente, sob a orientação dos espíritos são requisitos importantes! 

O espírito Ermance Dufaux nos diz que a beleza da vida está no ato de todos serem diferentes e terem algo de novo a nos ensinar. E que compete-nos abrir nossos corações para esse mundo novo de vivências altruístas e ricas de diversidade que é a convivência na Casa Espírita. Concluímos afirmando que o amor e o respeito pelas diferenças, em qualquer tempo e lugar, consolidam a fraternidade em louvor à lei do bem, pois: “Ditosos serão os que houverem trabalhado no campo do Senhor, com desinteresse e sem outro móvel, senão a caridade.”(*)

Letícia Schettino

Bibliografia:
Obra Conduta Espírita, André Luiz, por Chico Xavier.
Obra Prazer de Viver, Ermance Dufaux, por Wanderley Oliveira.
(*) O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 20, item 5, Allan Kardec

Campo da Paz

Em conversa fraterna no Posto de Socorro, Cecília contou a André Luiz e Vicente um pouco sobre a história e a vida na colônia “Campo da Paz”:  “A história da fundação é interessante. Alguns benfeitores, reconhecidos a Jesus, resolveram organizar, em nome dele, uma colônia em plena região inferior, que funcionasse como instituto de socorro imediato aos que são  surpreendidos na Crosta com a morte física, em estado de ignorância ou de culpas dolorosas. O projeto mereceu a bênção do Senhor e o núcleo se criou, há mais de dois séculos. Nem todos os Espíritos envolvidos, no entanto, estimam o serviço nesse órgão de assistência constante. A maioria dos missionários vitoriosos, ao se ausentarem da Terra, necessitamES refazer energias, por direito natural do trabalhador fiel, e os mentores de nobre posição hierárquica têm seus programas de serviços, que não devem quebrar, em obediência aos desígnios do Senhor. Desse modo, nosso serviço é ativo, mas nossas aquisições são lentas e devemos sempre esperar por cooperadores que se eduquem na própria colônia, em benefício geral. Ganha-se excelente compensação, temos direito a grandes valores intercessórios, mas, por isso mesmo, nossas responsabilidades não são pequenas. Conhecendo a utilidade dos que servem em nossa colônia, não passamos nunca sem instrutores abnegados, que procedem da zona superior, alentando-nos o bom ânimo. O que pedimos, com fundamentação legítima, nunca é negado; e, se tarda o recurso, beneméritos orientadores de nossas atividades prestam explicações que nos libertam de qualquer angústia na espera. Por isso, nosso grupo está sempre coeso e muitos preferem adiar certas realizações sublimes, para permanecer ao lado de companheiros antigos, aos quais se unem com desvelado amor.” [1]

Como vimos, a colônia nasceu de um dos sentimentos mais nobres, oriundo de corações agradecidos ao Cristo: a gratidão. Ser grato é reconhecer e valorizar a ação de alguém que nos concedeu um favor, um auxílio ou um benefício de qualquer natureza. Além disso, a gratidão sincera nos estimula a fazer pelo próximo aquilo que outra pessoa fez por nós. Não reside aí a  egra áurea da convivência e um dos mais importantes ensinamentos do Mestre Jesus? “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles; porque esta é a lei e os profetas.”[2]

Aprendemos que “Campo da Paz” localiza se nas zonas inferiores do Umbral, mais próxima da crosta terrestre do que “Nosso Lar”. Sua missão é acolher e prestar assistência aos recém-desencarnados em situação de culpa e ignorância. Os trabalhadores da colônia se especializaram no serviço de amparo a espíritos obsessores. Obviamente, trata-se de atividade árdua, porém muito recompensadora e reconfortante. Há muito mérito para aqueles que conseguem, com paciência e energia, resgatar nossos irmãos infelizes das trevas espirituais em que se emaranham.

Conforme informado por Cecília, não obstante os espíritos mais evoluídos se encontrarem vinculados à tarefas de grande importância, “Campo da Paz” jamais esteve sem o amparo de seus mentores, os quais, procedendo das zonas mais elevadas, estimulam o bom ânimo dos seareiros e atendem seus pedidos justos.

Relevante frisar que os novos cooperadores são formados na própria colônia, onde recebem orientações e treinamentos específicos. Muitos deles são espíritos que lá chegaram padecendo graves distúrbios espirituais, como o pai de Cecília. Posteriormente, a família se uniu ao Sr. Bacelar, como narrado pela jovem: “Meu pai, há mais de cinquenta anos, foi socorrido pelos benfeitores de “Campo da Paz” e, restabelecida a saúde espiritual, fixou-se na colônia, com razoável impulso de amizade e gratidão. Mais tarde, minha mãe reuniu-se a ele e, faz precisamente vinte anos, Aldonina e eu fomos atraídas amorosamente por ambos, a fim de continuarmos, ali, no santuário familiar. Desse modo, trabalhamos ao lado deles, desde a primeira hora.” [1]

André Luiz ficou encantado com aquele resumo de lições enobrecedoras sobre sacrifício, merecimento, compromisso fraterno e a solidariedade compensadora. “Campo da Paz”, “Nosso Lar”, “Alvorada Nova”, “Novos Horizontes” e tantas outras colônias espirituais representam o esforço e o carinho que os amigos espirituais têm para conosco, laborando em nome do Cristo de Deus para nos auxiliar em nossa longa jornada de redenção.

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 29 (Notícias interessantes).
[2] Evangelho Segundo Mateus 7:12.

Muito prazer! Eu sou o seu Anjo da guarda

“Santo Anjo do Senhor meu zeloso guardador já que a ti me confiou a piedade Divina hoje e sempre me governa, rege, guarda e ilumina. Amém.”

 

Eu conheci esta oração em tenra idade. Minha mãe orava comigo antes de adormecermos. A ela eu sou muito grato pela inestimável orientação religiosa recebida, especialmente na infância, etapa de vida na qual o espírito absorve com a máxima intensidade as influências do meio. Sei que muitos, mesmo sob o hábito da oração em família, não se sensibilizaram tanto assim. Mas, em mim, essa experiência fez um efeito indescritível. Sinto ter renascido com uma “ânsia religiosa” e, por isso, a evangelização infantil encontrou em mim uma identidade que desde aquele momento, e até hoje, se traduz em paz de espírito e esperança na vida. Fico pensando quantos renascem com a mesma necessidade, e não encontram no lar, o alimento espiritual que tanto necessitam.

Curiosamente, devo à minha mãezinha também a transmigração filosófica-conceitual que imprimi no contexto da fé durante a minha juventude ao pisar pela primeira vez em
uma casa espírita. Parti da concepção tradicional de “religião” para o entendimento e vivência da ideia de “espiritualidade”. Antes, a presença dogmática da “igreja”. Agora, o entendimento e a vivência do sentido amplo de “fraternidade”. Ambas, igreja e fraternidade, elementos de uma mesma caminhada espiritual. Sem dúvida alguma, minha mãe, meu pai e meus irmãos foram anjos em minha infância. Mas nenhum deles é o meu Anjo da guarda! Explico.

Antes de tudo é importante salientar que a ideia da existência dos anjos não é uma exclusividade da doutrina espírita. Vamos
encontrá-los, por exemplo, no budismo, no islamismo, no hinduísmo e no judaísmo. No catolicismo eles estão muito presentes tanto na liturgia, na música, na pintura. Na doutrina espírita, o Livro dos Espíritos oferece uma longa sequência de perguntas e respostas sobre o assunto, na segunda parte da obra, no capítulo IX. Consultando essas páginas é possível constatar que “há espíritos que se ligam particularmente a um indivíduo para protegê-lo. É o espírito protetor, o bom espírito, o bom gênio”, ou… Anjo da guarda. A missão deles “é a de guiar o seu protegido pela senda do bem, auxiliá-lo com seus conselhos, consolá-lo nas suas aflições, levantar- -lhe o ânimo nas provas da vida”. Fazem isso “desde o nascimento, e muitas vezes nos acompanham na vida espírita e mesmo ao longo de várias encarnações”. Desta forma, não raras vezes, ao retornarmos à vida espiritual reconhecemos o nosso Anjo da guarda, “pois provavelmente o conhecemos antes de renascer na Terra”.

Partindo do pressuposto que muitos não reconhecem a sua existência, e que até optam por praticar o mal, qual será a postura do Anjo guardião nesses casos? Os espíritos assim responderam à Kardec – Nesses casos, o Anjo da guarda “afasta-se, quando vê que seus conselhos são inúteis e que mais forte é, no seu protegido, a decisão de submeter-se à influência dos Espíritos inferiores. Mas, não o abandona completamente e sempre se faz ouvir. É então o homem quem tapa os ouvidos. O protetor volta desde que este o chame”.

São Luis e Santo Agostinho complementam: “Sim, onde quer que estejais, estarão convosco. Nem nos cárceres, nem nos hospitais, nem nos lugares de devassidão, nem na solidão, estais separados desses amigos a quem não podeis ver, mas cujo brando influxo vossa alma sente, ao mesmo tempo que lhes ouve os ponderados conselhos. “Ah! se conhecêsseis bem esta verdade! Quanto vos ajudaria nos momentos de crise! Quanto vos livraria dos maus Espíritos! Mas, oh! Quantas vezes, no dia solene, não se verá esse anjo constrangido a vos observar: “Não te aconselhei isto? Entretanto, não o fizeste. Não te mostrei o abismo? Contudo, nele te precipitaste! Não fiz ecoar na tua consciência a voz da verdade? Preferiste, no entanto, seguir os conselhos da mentira!” Oh! Interrogai os vossos anjos guardiães; estabelecei entre eles e vós essa terna intimidade que reina entre os melhores amigos”.

Lembrando que da mesma forma que existem anjos da guarda que atuam de forma individual, as aglomerações de indivíduos, como as sociedades, as cidades, as nações, também têm Espíritos protetores já que “esses agregados são individualidades coletivas que, caminhando para um objetivo comum, precisam de uma direção superior.” Qual é o
nome dele? O que importa? “Dai-lhe o nome que quiserdes. O de um Espírito superior que vos inspire simpatia ou veneração. O vosso protetor acudirá ao apelo que com esse nome lhe dirigirdes, visto que todos os bons Espíritos são irmãos e se assistem mutuamente.”

Que riqueza inestimável e frequentemente desperdiçada! Considerando que o Anjo da guarda sempre pertence a um nível superior ao de seu protegido, como sermos indiferentes a eles diante de tantas necessidades e sofrimentos que presenciamos na Terra? A sua existência como descrito pela doutrina espírita, especialmente pela sua ação pessoal, demonstra sem equívocos o sublime amor de Deus por seus filhos. É a Providência divina atuando particularmente em favor de mim. Em favor de você! Que tal? Um “personal angel”. É evidente que não compreendendo e não crendo, eles deixam de existir. Pelo menos para aquele que descrê.

E o que fazer para estreitar os laços com o seu anjo da guarda? Inicialmente, escolha um nome que lhe agrade. Em seguida, estude O Livro dos Espíritos contrapondo, resposta por resposta, à sua concepção de vida, de Deus e do amor universal. Analise se faz sentido para você. Se esta ideia é coerente com tudo aquilo que você já viveu e acredita. E se está de acordo com os princípios da doutrina dos espíritos. Ao mesmo tempo, estabeleça uma comunicação constante com o seu Anjo da guarda. Estabeleça uma relação de confiança, simpatia e acima de tudo de gratidão. Por ser hierarquicamente superior, o seu Anjo da guarda age inspirado por Jesus. Quanto mais você também assim o fizer, mais estará apto para perceber as intuições para decidir com proveito e se livrar do mal. Amém.

Finalmente, como todo Anjo da guarda possui o seu Anjo da guarda, que tal ser uma espécie de Anjo da guarda de alguém de sua convivência? Já pensou nisso? Dê bons conselhos, ampare nas necessidades materiais, interceda diante das injustiças, silencie diante do conflito injustificado e exalte as qualidades de seu protegido. Estagiando dessa forma no exercício do amor ao próximo, em muito breve você poderá ascender ao status de Anjo da guarda. E aí, será um grande prazer, conhecê-lo!

Vinícius Moura

O Livro dos Espíritos. Capítulo IX – Anjos da guarda. Espíritos
protetores, familiares ou simpáticos. Questões 489 a 522.

Sofredores e obsessores

O diálogo entre Cecília, Vicente e André Luiz continuava extremamente proveitoso para nossos amigos. Em dado momento, a filha do casal Bacelar, ao salientar diferenças em alguns serviços entre as colônias “Nosso Lar” e “Campo da Paz”, comentou: “Vocês conhecem lá muitos Espíritos sofredores, mas, em “Campo da Paz”, conhecemos muitos Espíritos obsessores. Lá poderá existir muita gente que ainda chora; mas em nosso meio há muita gente que se revolta. É mais fácil remediar o que geme, que atender ao revoltado. Nas câmaras a que se refere, vocês retificam erros que já apareceram, dores que já se manifestaram; mas aqui, meu amigo, somos compelidos a lutar com irmãos ignorantes e perversos, que se sentem absolutamente certos nas fantasias perigosas que esposaram, e vemo-nos obrigados a atender a doentes que não acreditam na própria enfermidade. (…) Aliás, é natural que assim seja. Estamos a pouca distância dos homens, nossos irmãos na carne. E sabemos que, na Crosta, a situação não é diferente. Quantos materialistas se fantasiam, por lá, de filósofos? Quantos demônios com capa de santos? Quanta má fé a fingir generosidade e boas intenções? A influência da Humanidade encarnada em nosso núcleo de serviço é vigorosa e inevitável.” [1]

Enquanto isso aqui na Terra, dentre as várias atividades realizadas nas instituições espíritas, uma que sempre despertou o interesse e a curiosidade até de quem não é espiritista, é a chamada reunião mediúnica, antigamente denominada sessão espírita. Trata-se de pessoas com um bom nível de conhecimento doutrinário e vivência evangélica que acolhem e atendem os espíritos sofredores e obsessores conduzidos pelos mentores à estas reuniões. Basicamente, os grupos ou equipes são compostas por dirigentes, doutrinadores (ou dialogadores) e médiuns ostensivos (psicofônicos, psicógrafos, videntes, etc.), de sustentação e passistas. Através do intercâmbio mediúnico, os doutrinadores esclarecem, orientam e consolam as entidades comunicantes, sempre com base nos ensinamentos de Jesus e Kardec. Nesses trabalhos recebe-se também a palavra amiga e norteadora da Espiritualidade Superior por meio dos mentores responsáveis pela tarefa.

Bem distintos são os atendimentos ou diálogos, pois deve-se observar a natureza e as condições de cada espírito comunicante. Se por um lado pode-se ter uma conversa
fraterna mais tranquila com os sofredores, baseada no consolo que o Evangelho e o Espiritismo proporcionam, o mesmo não se pode dizer com relação aos obsessores. Via de regra, esses últimos são seres que se agarram às suas vítimas, arvorando-se em verdugos cruéis ou implacáveis justiceiros do Além. A maioria ainda se compraz com a prática do mal, buscando
vingança por situações de vidas passadas, não demonstrando qualquer abertura para o perdão e o entendimento.

Engana-se o dialogador que pensa que pode se impor a esses espíritos utilizando raciocínios longos e de profundo saber doutrinário. Como diz um amigo espiritual, quem se digna a este mister deve se armar da brandura, mas também da firmeza, pois lidará com entidades que, geralmente são sagazes, maliciosas e inteligentes. Sentem prazer ao perturbar o ambiente da reunião e quando derrubam os argumentos apresentados pelos doutrinadores. Jesus ensinou no Evangelho que só é possível doutrinar ou evangelizar essa casta de espírito com oração e jejum.[2] Cabe ressaltar que a oração nos coloca em ligação com os planos mais elevados da vida, de onde recebemos as intuições e inspirações dos nossos mentores e guias. O jejum, sobre o qual o Mestre se refere, não é de alimentos, mas sim o jejum moral, a abstenção de todo o mal que possamos praticar, seja por ações ou pensamentos, pois a moral superior é a única ascendência que possuímos frente a esses irmãos.

Isso me lembra uma passagem sobre exorcistas judeus ambulantes que tentavam invocar os nomes de Jesus e de Paulo sobre os espíritos malignos. Certa feita, foram surpreendidos por um obsessor que lhes revelou que não estavam à altura moral daqueles que invocavam. Em outras palavras, aprenderam às duras penas que não basta falar em nome de alguém; é necessário procedermos sempre da forma mais elevada possível. “Respondendo, porém, o espírito maligno, disse: A Jesus conheço, e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois? Então o homem, no qual estava o espírito maligno, saltando sobre eles, apoderou-se de dois e prevaleceu contra eles, de modo que, nus e feridos, fugiram daquela casa.”[3]

Os guias da humanidade responderam à Allan Kardec que os maus espíritos não renunciam às suas tentativas de prejudicar os homens. Às vezes se afastam e ficam à espreita de um momento propício para atacar. Contudo, o homem pode neutralizar tal influência perniciosa praticando todo o bem possível e colocando sua confiança em Deus. Salientam ainda que tais os obsessores só se apegam aos que, pelos seus desejos os chamam e aos que, pelos seus pensamentos os atraem.[4]

“Deduzo de tudo isso manifestações sacrificiais muito grandes, mas o trabalho em “Campo da Paz” deve ser altamente meritório” – disse Vicente, ao que Cecília respondeu de pronto: “Incontestavelmente”.[1] O estudo, a observação e a prática de alguns anos nessa lide nos levam à mesma conclusão. É muito mais complicado tratar com espíritos obsessores do que com sofredores. Não obstante, seja qual for a circunstância, todos que nos procuram ou que são conduzidos às nossas reuniões devem ser recebidos e tratados com respeito e carinho. É muito provável que, algum dia, estivemos na situação em que eles se encontram agora e que alguém nos estendeu as mãos em nome de Jesus. Façamos o mesmo agora.

Valdir Pedrosa