Saudade e entendimento

Me incluo entre aqueles que dizem não ter medo de morrer, mas que sentirão muita saudade das pessoas amadas que permanecerão na Terra. De fato, a dor da separação, principalmente se tratando de quem amamos verdadeiramente, é um dos maiores flagelos da desencarnação. Todavia, é de fundamental importância o entendimento acerca do plano espiritual e das Leis Divinas para superarmos esse doloroso momento, presente tanto no coração de quem vai, quanto no de quem fica.

André Luiz nos informa sobre interessante diálogo travado entre Alfredo, o administrador do posto de socorro filiado à colônia Campo da Paz, e um senhor de expressão humilde e simpática chamado Alonso. O velhinho queria saber se Alfredo havia recebido notícias de seus familiares na crosta. O administrador informou-o que sua viúva permanecia extremamente triste e que seus filhos, não obstante estarem bem de saúde, continuavam muito ansiosos em virtude da ausência do falecido pai.

Creio que todos podemos imaginar o aperto que Alonso sentia no peito. A saudade era imensa, assim como a preocupação com o bem-estar da família terrena. Comovido com a situação do querido colaborador, Alfredo pediu-lhe para que não se angustiasse, pois como pai zeloso mesmo estando distante fisicamente, Alonso trabalhava no plano espiritual buscando concretizar algumas medidas em favor de seus familiares. Lembrou-lhe sobre os cuidados necessários para administrar a saudade, para que ela não fosse um instrumento de desorganização mental, pois “a saudade que fere, impedindo-nos atender à Vontade Divina, não é louvável nem útil. É enfermidade do coração, precipitando-nos em abismos insondáveis do pensamento. ” [1]

O Espiritismo nos ensina que, de acordo com o seu teor, os pensamentos emitidos por encarnados repercutem nos desencarnados de forma positiva ou negativa, causando-lhes sensações de contentamento ou desarmonia. Alonso, embora já demonstrando melhoria significativa em sua vida mental devido aos deveres assumidos no posto de socorro, sentia-se de fato renovado em termos espirituais. No entanto, quando se concentrava nas habituais preces noturnas, sentia pensamentos dolorosos da esposa e dos filhos chamando por ele, penetrando profundamente em sua mente. Isto o perturbava e lhe prejudicava no trabalho diário. Dizia ele: “Que chefe de família não se sentiria atormentado, ouvindo angustiosos apelos do lar, sem meios de atender, como se faz indispensável? (…) quisera rogar aos meus calma e coragem, esclarecendo que meu coração ainda é frágil e necessita do amparo deles; estimaria pedir-lhes esse auxílio para que eu possa atender às atuais obrigações, sem desfalecimentos. ” [1]

Convidando o servidor à reflexão minuciosa sobre o assunto, Alfredo ponderou que seria até possível estabelecer comunicação entre Alonso e sua família, embora com prejuízos à manutenção da própria paz. O administrador salientou a importância da resignação diante dos desígnios de Deus. Se Alonso e a esposa estavam separados é porque ambos necessitavam de novas experiências no campo evolutivo. Tanto ele quanto ela sofriam as dificuldades causadas pela separação, as quais deveriam ser convertidas em oportunidades de aperfeiçoamento espiritual. Os filhos estavam chorosos, desalentados e revoltados diante da desordem doméstica que se estabeleceu após o desencarne do pai. Entretanto, antes de tudo, eram filhos de Deus e, sob o amparo do Mais Alto, precisavam definir responsabilidades e assumir as rédeas das respectivas realizações. Enquanto no mundo físico, Alonso já havia feito tudo o que podia por eles. Estava na hora de se conformarem com a realidade e se tornarem protagonistas de suas existências. O velhinho, tão sincero em seus sentimentos e tão dedicado aos seus familiares consanguíneos, não possuía naquele momento preparo suficiente para tudo ver no antigo lar sem sofrer desastrosamente. Era imperioso deixar o tempo passar. Agradecido, ele compreendeu as justas ponderações de Alfredo, que rogou a Deus que lhe abençoasse o entendimento.

Realmente não é fácil nos desapegar das pessoas que amamos. É claro que podemos sentir saudade e até chorar pelos nossos entes queridos que já partiram para a Pátria verdadeira. Porém, a grande diferença está na forma pela qual extravasamos sentimentos e emoções. Se o choro for de gratidão e reconhecimento, se for uma saudade permeada pela certeza do reencontro, podemos ter a certeza de que tais energias farão muito bem àquele no qual pensamos. Contudo, se dermos vazão ao desequilíbrio, à incompreensão, à lamentação e à revolta, não há a menor dúvida de que nossas vibrações atingirão o desencarnado como um projétil repleto de veneno fatal.

Como no caso de Alonso, existem várias situações em que a dor não é opcional, mas o sofrimento sim. A separação causada pela morte do corpo carnal desencadeia um processo doloroso para os envolvidos. Não há como fugir disso. Para pelo menos amenizar o sofrimento, é imperioso a compreensão das Leis Divinas e dos mecanismos que regem o mundo espiritual e suas relações com o mundo físico. Por isso encerramos com uma pérola da sabedoria de Alfredo: “Tenho a impressão, Alonso, de que Deus nos deixa sozinhos, por vezes, a fim de refazermos o aprendizado, melhorando o coração. A soledade, porém, quando aproveitada pela alma, precede o sublime reencontro. ” [2]

 

Valdir Pedrosa

 [1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 26 (Ouvindo servidores).

[2] Pão Nosso – Pelo Espírito Emmanuel, psicografado por Francisco Cândido X   

Sono e sonhos

 Na Parte Segunda do “Livro dos Espíritos” (LE), no capítulo VIII, questões 400 a 455, temos importantes informações da Espiritualidade sobre a “Emancipação do Espírito”, fenômeno que permite o intercâmbio entre o plano físico e o plano espiritual. Vamos comentar algumas delas a seguir.

Em termos biológicos o sono é um estado de inconsciência e de relativa inatividade, comum a todos os animais vertebrados, no qual ocorrem mudanças fisiológicas significativas que garantem a manutenção do desempenho físico, mental e energético do ser. Por essa razão, ter um sono regular e com qualidade fortalece nosso sistema imunológico e evita muitas doenças.

Registra-se na questão 401 do LE que “[…] o Espírito jamais está inativo” e esclarecem-nos os Espíritos Superiores, na questão 412 desta Obra, que a alma se afasta do seu corpo físico durante o sono, mas a ele permanece conectada por meio do perispírito, o qual, por sua vez, transmite ao corpo de carne as impressões, boas ou más, vindas do Espírito, conforme a natureza das atividades que ele desenvolve na outra dimensão.

Assim, há real necessidade de cuidarmos da higiene do nosso sono, buscando os bons hábitos para saúde de nosso corpo físico, mas, fundamentalmente, do nosso Espírito, por meio das boas leituras, das preces e meditações, que nos permitirão conexões com bons parceiros e instrutores durante o repouso do corpo, lembrando que o sono é forma de reparação das forças orgânicas e também morais.

Quanto aos sonhos, em resposta a questão 402 do LE, dizem os Orientadores Espirituais que “[…]O sonho é a lembrança do que o Espírito viu durante o sono”. Liberto, o Espírito adquire maior potencialidade, comunica-se com outros Espíritos, encarnados e desencarnados, se lembra de acontecimentos do passado, “algumas vezes prevê o futuro”, vai a lugares distantes que jamais viu, e “até a outros mundos”.

Nos chamados “sonhos comuns” o espírito flutua na atmosfera sem se afastar muito do corpo e fica afeto as sensações e preocupações do seu dia. Nos “sonhos espirituais” o Espírito, desprendido do corpo, exerce atividade real e efetiva no plano espiritual, encontra com parentes, amigos, instrutores espirituais, inimigos ou desafetos, desta e de outras vidas. Portanto, se ao despertarmos nos sentirmos envolvidos por emoções agradáveis, vivenciamos a noite uma experiência positiva, ao contrário, se as emoções são negativas, certamente nos vinculamos a situações e espíritos desequilibrados, necessitando reformar nossas condutas, pensamentos e sentimentos.

Ressaltamos que a análise dos sonhos pode nos trazer informações valiosas para nosso autodescobrimento, mas é importante nos precavermos contra as adivinhações, com base nas imagens e lembranças esparsas de sonhos, que só trazem conflitos na caminhada.

Letícia Schetino

Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos.

Tradução de Guillon Ribeiro. ed. Rio de janeiro: FEB, 2007, questões: 401; 412; 402.

Ninguém dá o que não tem

Ismália deu por encerrada a tarefa da oração no posto de socorro vinculado à colônia Campo da Paz, mais especificadamente no pavilhão dos Espíritos que dormiam. Ao perceber a perplexidade   de André Luiz e Vicente, seus tutelados, o instrutor espiritual Aniceto esclareceu, com sua proverbial sabedoria, os pormenores do ocorrido durante a prece proferida pela esposa de Alfredo: “(…)toda prece impessoal dirigida às forças Supremas do bem, delas recebe resposta imediata, em nome Deus. Sobre os que oram nessas tarefas benditas, fluem, das esferas mais altas, os elementos-força que vitalizam nosso mundo interior, edificando-nos as esperanças divinas, e se exteriorizam, em seguida, contagiados de nosso magnetismo pessoal, no intenso desejo de servir com o Senhor. (…) viram, vocês, cair sobre nós os elementos a que me refiro, e observaram a sua exteriorização com as luzes de cada um de nós, em benefício dos irmãos que dormem e sofrem. Concedeu-nos o Altíssimo a força de auxiliar, em porções iguais para todos, mas nós a espalhamos de acordo com a nossa possibilidade e coloração individuais. Ismália, cujos sentimentos são mais amplos e universalistas que os nossos, pode receber comais clareza o auxílio divino e distribuí-lo com mais abundância e eficiência. Temos, aqui, uma profunda lição. Como já disse, o Pai visita os filhos necessitados, através dos filhos que procuram compreende-lo. Não poderíamos abusar do senhor, como abusamos no círculo terrestre dos nossos pais humanos. Não vive Ele ao sabor de nossos caprichos pessoais. Nunca poderia vir, em pessoa, enxugar o pranto do necessitado que chora, em consequência, aliás, do olvido das Divinas Leis. Compete ao necessitado caminha ao reencontro dEle. O senhor, todavia, atende sempre a todos os homens de boa vontade, por intermédio dos homens bons, que se edificam na casa divina. Todos os nossos desejos e impulsos razoáveis são atendidos pelas bênçãos paternais do Eterno. Ainda que nos demoremos nas lágrimas e nas aflições, jamais permanecemos ao desamparo. Apenas devemos salientar que as respostas de Deus vão sendo maiores e mais diretas, à medida que se intensifique o nosso merecimento, competindo-nos reconhecer que, para semelhantes respostas, são utilizados todos quantos trazem consigo a luz da bondade, ou já possuem mérito e confiança para auxiliar em nome de Deus. (…) reparem que, nestes pavilhões, temos mil e novecentos e oitenta abrigados que dormem. Todos recebem diariamente alimento e medicação comuns, mas só quatrocentos são atendidos com alimento e medicação especializados, por se mostrarem mais susceptíveis de justa melhora. Desses quatrocentos, apenas dois terços se revelam aptos à recepção de passes magnéticos. Muitos não podem receber, por enquanto, água efluviada. Poucos foram contemplados com soro curativo e somente dois se levantaram, ainda assim, profundamente perturbados. Já que iniciam um trabalho de cooperação fraternal, não esqueçam esta lição. Façamos todos o bem, sem qualquer ansiedade. Semeemo-lo sempre e em toda a parte, mas não estacionemos na exigência de resultados. O lavrador pode espalhar as sementes à vontade e onde quer que esteja, mas precisa reconhecer que a geminação, o crescimento e o resultado pertencem a Deus. ” [¹]

O ensinamento é cristalino: ninguém pode dar o que não possuiu. No relato acima verificamos que os elementos-força verteram do mais alto em direção aos espíritos tarefeiros, irmãos já conscientes de suas responsabilidades para com o próximo. Como todos ali se encontravam em atitude de oração sincera e prontos para auxiliar, receberam as energias dos planos superiores de acordo com suas possibilidades ou, se preferir, em conformidade com suas condições evolutivas. Algo semelhante ao que Jesus relatou na parábola dos talentos. [²] Após serem absorvidos, esses elementos-força foram exteriorizados impregnados pelos fluidos dos próprios trabalhadores espirituais, manifestando assim o potencial e a luminosidade pertinentes à capacidade de cada Espírito. Pelo texto depreende-se que Ismália era a entidade mais evoluída presente naquele recinto.

Isso nos leva a pensar no quanto podemos contribuir com nossos irmãos, seja em tarefas assistenciais ou até mesmo nos diversos relacionamentos que mantemos. Quando nos conectamos às forças superiores da vida através da oração sincera, recebemos esses fluidos poderosos que somados às energias que nos são próprias, exteriorizam-se em benefício de quantos nos propormos a auxiliar em nome do Cristo. Todavia, para melhorar servir à espiritualidade amiga. É preciso produzirmos e cultivarmos energias positivas. Para isso é essencial mantermos desejos, sentimentos e pensamentos sempre elevados. Se quisermos fazer o bem, precisamos do bem dentro de nós. Se pretendemos espalhar o amor, é necessário cultivarmos o amor em nosso íntimo. Se ansiamos estender a paz por onde passamos, é indispensável respirarmos a paz em nosso mundo interior. Em suma, refletimos o que somos, damos o que temos. Quando entendemos isso e colocamos em prática os ensinamentos dos Espíritos superiores, criamos um círculo virtuoso, no qual nos alimentamos do bem em todos os sentidos, pois sempre podemos exercitá-lo e absorvê-lo, independentemente de qualquer coisa. E o Pai Celestial é tão magnânimo que estabeleceu em Suas leis que é dando que se recebe, como ensinou Francisco de Assis em sua famosa prece.

Deste modo, quanto mais amor oferecemos ao Universo, mais amor o Universo nos oferece. Quanto mais paz e luz espalhamos, mais luz e paz receberemos. Assim, nosso reservatório individual estará sempre transbordando de boas energias e caberá a cada qual espalhar os elementos-força que vêm do Mais alto, acrescidos de seus recursos morais e espirituais. “ O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, do seu mau tesouro tira o mal; pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca”, ensinou o Mestre Jesus. [³]

Valdir Pedrosa

[¹] Os mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capitulo 25 (Efeitos da oração).

[²] Evangelho Segundo Mateus 25:14-30.

[³]Evangelho Segundo Lucas 6:45.

 

Voz da Espiritualidade

O amor de Cristo nos uniu como pérolas, como pérolas multicoloridas, valiosas e únicas, em cordões de esperança!
Meus caros, coube-me a feliz tarefa concedida pelo magnífico Espírito Irmão Glacus, da qual me honro de fazer a síntese, de resumir os sentimentos desta reunião. Chamou-nos a atenção, nessa tarde, a prevalência da angústia de final de não. Mas sendo o final de ano caracterizado pela proximidade do Natal, o sentimento não deveria ser exatamente o contrário?
Ao recordamos a Estrela de Belém que estacionou sobre a manjedoura indicando à humanidade “o caminho”, não deveríamos cultivar sentimentos de fé e de esperança, de propósitos espirituais, uma vez que não importa o passado quando o espírito define novos objetivos?
Definir metas espirituais em torno do amor é “cobrir a multidão de pecados”! Não desperdice este período do calendário se angustiando. O Cristo te propõe exatamente o contrário: “Tome a sua cruz e siga-Me. Eu te elevarei, te sustentarei e serás bem-aventurado diante de Deus e dos homens. ”
Esse é o verdadeiro espírito de Natal!
Não creiam que o espírita possa vivenciar o Natal sem se preparar antecipadamente. Já dissemos e vamos repetir: os Espíritos Superiores não sabem que é hoje. Qual é o dia do Natal!
Isso pouco importa para Eles! Quanto mais estivermos apegados às tradições sem vivenciar o amor e nossa essência espiritual, mais nos declaramos pequenos espiritualmente. O Natal para eles é o ano inteiro.
Vamos tentar ajuda-los com essa estória:
Pedrinho é um espírito missionário que aceitou reencarnar em uma família na condição de espírito um pouco mais avançado em relação aos demais. É comum isso acontecer. Faz parte da Providência Divina a família possuir um integrante que impulsione, que evangelize, que seja a engrenagem de luz.
Pedrinho, mesmo com sua pouca idade na presente encarnação, não gostou quando chegou da escola e encontrou a árvore de NATAL já pronta. E se queixou:
“- Como assim…, vocês montaram a árvore de Natal e eu não estava presente?! Como vocês fizeram a árvore sem que a nossa família estivesse reunida? ”
Então sua mãe lhe respondeu:
“-Seu pai estava com tempo, resolveu montar a árvore e aí está ela. A árvore já está pronta! ”
Pedrinho até tinha se esquecido deste episódio: na noite de Natal foi, em sequência, por diversas vezes surpreendido! Primeiramente, foi chamado no quarto por uma de suas irmãs, para receber um presente. Toda criança gosta de vivenciar a surpresa de ganhar um presente! Mas ao abrir, o menino deparou com uma roupa muito estranha. Pedrinho, pela pouca idade e pelo imaginário da infância, olhou a roupa e se decepcionou, pois esperava um brinquedo.
“- Que roupa estranha e …! ” Sua irmã lhe interrompeu, dizendo:
“-Vai Pedro, já estamos atrasados. Veste logo, porque essa é a roupa que você vai usar no Natal! ” Pedrinho obedeceu. Ao sair do quarto, o menino se assustou ao ver a mesa de jantar:
“- Que bicho é aquele que está em cima da mesa? ”
Seu primo, que passava por perto, respondeu:
“- É um porco! ”
E Pedrinho exclamou: “Morto e inteiro? ”
O primo respondeu dando gargalhadas:
“- Claro Pedrinho! ”
Pedrinho se afastou, olhando para trás, ressabiado.
Ao olhar a árvore de Natal, observou que havia muitos presentes. Resolveu perguntar ao tio:
“ – Tio, porque todos os presentes são iguais? ”
O tio respondeu um tanto desconcertado:
“-Pedrinho, foi uma promoção… compramos todos os presentes na mesma loja para facilitar. Mas não conta para ninguém, ok ?!”
Pedrinho, que vivenciava a consciência de uma noite de Natal pela primeira vez, também não entendeu porque seu tio Cláudio às vezes ria, às vezes chorava, outras gritava; e perguntou:
“- Fernanda, o que o tio Cláudio tem? ”
“-Pedrinho… tio Cláudio bebeu muito e por isto está assim: às vezes fica feliz, às vezes, triste…!
O menino insistiu com espírito investigativo:
“- Mas ele está feliz por quê? ”
Fernanda respondeu com impaciência: “- Por nada, Pedro, por nada. Está feliz…! ”
E assim Pedrinho foi percorrendo o espaço no tempo da comemoração. E como não bastasse a sequência de sustos, de repente sua mãe chega com um presente lhe dizendo baixinho ao ouvido:
“- Quando for sua vez, Pedrinho, você entrega esse presente para a Fátima. ”
“-Quem é Fátima? ”
“- Fátima, sua tia! ”
“- Ela mora no Brasil? Eu nunca a vi! ”
“- Pedrinho, ela mora no Brasil, em nossa cidade. Mas somente a vemos no Natal! ’’
“- Que presente é esse que vou dar? ”
“- Ah! É uma roupa lindíssima! ”
“- E se a tia Fátima não gostar? “
Perguntou aflito!
“- Pedrinho, lógico que ela vai gostar! Foi ela quem escolheu o presente! ”
O menino abaixou os olhos triste e se assentou recurvando ao lado da majestosa árvore de Natal. Olhou desanimado para o que parecia ser uma multidão de pessoas ao seu redor. Foi quando viu ao pé da árvore uma pequena casinha de palha e palitos de picolé. E viu o menino Jesus na manjedoura ao lado das ovelhas. Sentiu-se alegre novamente! Pedrinho pegou o Menino Jesus e deslocou ao centro da sala. E ficou ali imóvel contemplando o Menino Jesus que trazia carinhosamente em sua mão. Então, algo incrível aconteceu! Todos pararam e foram pouco a pouco se aquietando ao observar a postura do menino. O silêncio se fez presente no ambiente. Nesse instante, ao perceber que Jesus era o centro das atenções, Pedrinho ergueu o menino Jesus para que fosse visto por todos, e perguntou em voz alta inaugurando o verdadeiro espírito de Natal:
“ Que horas a gente vai cantar os parabéns para o Menino Jesus? ”
Meus irmãos, a tão desejada evangelização se dá “ de fora para dentro”. Eis que surge a hora, talvez já com atraso, de começarmos a Celebração de Natal em nossa intimidade. Que façamos a “novena” real do sacrifício do outro. Somente assim, contagiaremos corações com um sentimento forte, independente do sofrimento geral das angústias e do materialismo ao seu derredor.
Desejamos, com sinceridade, que a humilde mensagem da Espiritualidade chegue a tempo de enxugar as suas lágrimas. O Cristo vem até você. Ele vem para os doentes do corpo e do espírito não para os sãos. Sigamos com Ele, porque se estivermos com Ele estaremos em Paz.

Um feliz, um maravilhoso Natal a todos.

Adaptado.
Do amigo e irmão, Pedro de Camargo.

Mensagem recebida na reunião de convívio espiritual do dia 18/11/2018 pelo médium Vinícius Trindade Moura (Texto revisado pelo médium)

Fuja das rogativas maléficas

Maravilhado com os efeitos da prece proferida por Ismália, André Luiz observava avidamente tudo o que acontecia ao seu redor. O ambiente fora tomado uma claridade serena, doce e irradiante, bem diferente da iluminação artificial. Os flocos de energia que partiam dos tarefeiros ali presentes se multiplicavam no ar, encaminhando- se para os Espíritos que dormiam. A impressão era que tal energia penetrava os corpos enrijecidos e inanimados, chegando às células mais profundas. Em seguida, algumas daquelas verdadeiras múmias espirituais começaram a dar sinais de vida, fosse por meio de gemidos ou se postando como sonâmbulos que acabavam de desapertar de pesadelos atormentadores.

 Dentre todos naquela situação, havia dois que receberam auxílio de todo tipo, inclusive o chamado sopro curativo[1]. Ambos acordaram subitamente como loucos e saíram em desabalada carreira pelo pavilhão. Alfredo, o administrador do posto de socorro, explicou que aqueles infelizes acreditavam estar sonhando e que, como não era possível fugir das instalações, em breve pediriam socorro em outras áreas, onde seriam devidamente acolhidos para o tratamento necessário. As demais múmias ficaram imóveis novamente e as luzes foram se apagando de forma gradua.

Ismália sinalizou o término das atividades da oração, agradecendo à pequena comitiva de Nosso Lar pelo concurso fraterno, salientando que há alguns dias nenhum irmão menos feliz havia se levantado.

Foi neste momento que o nobre mentor espiritual Aniceto, explicando alguns aspectos fundamentais da prece dentro do contexto que eles haviam acabado de presenciar: “(…) o trabalho da prece é mais importante do que se pode imaginar no círculo dos encarnados. Não há prece sem respostas. E a oração, filha do amor, não é apenas súplica.

É comunhão entre o criador e a criatura, constituindo, assim, o mais poderoso influxo magnético que conhecemos. Acresce notar, porém, já que comentamos o assunto, que a rogativa maléfica conta, igualmente, com enorme potencial de influenciação. Toda vez que o Espírito se coloca nessa atitude mental, estabelece um laço de correspondência entre ele e o além. Se a oração traduz atividade no bem divino, venha donde vier, encaminhar-se-á para o Além em sentido vertical, buscando as bênçãos da vida superior, cumprindo-nos advertir que os maus respondem aos maus nos planos inferiores, entrelaçando-os mentalmente uns com os outros. É razoável, porém, destacar que toda prece impessoal dirigida às forças Supremas do Bem, delas recebe resposta imediata, em nome de Deus. Sobre os que oram nessas tarefas benditas, fluem, das esferas mais altas, os elementos-força que vitalizam nosso mundo interior, edificando-nos as esperanças divinas, e se exteriorizam, em seguida, contagiados de nosso magnetismo pessoal, no intenso desejo de servir com o senhor. ” [2]

Tais informações enriquecem muito o conhecimento de que já dispomos sobre a oração e seus mecanismos[3]. Todavia, gostaríamos de chamar a atenção para algo de extrema relevância: as rogativas maléficas. Rogar é apelar, pedir, solicitar veemente. Existem indivíduos que, infelizmente, fazem rogativas maléficas, ou seja, se ligam mentalmente ao plano espiritual inferior, vinculando- se à espíritos ignorantes que ainda se comprazem com a prática do mal. Nestes conluios das trevas, as pessoas solicitam a assistência de entidades malfazejas, visando a realização de seus desejos egoístas e mesquinhos, sendo que muitas vezes planejam prejudicar seus desafetos encarnados. ‘‘ Aquele que intenta praticar uma ação má, pelo simples fato de alimentar essa intenção, chama em seu auxilio maus Espíritos, aos quais fica então obrigado a servir, porque dele também precisam esses Espíritos para o mal que queiram fazer. Nisto é que consiste o pacto. ” [4]. Destacamos o fato de que a rogativa em si nem é necessária; apenas a intenção de fazer o mal já coloca os Espíritos inferiores em estreita ligação conosco.

Mas como nos livramos de tão perniciosa influência cuja sintonia nós mesmo buscamos? Os grandes mestres da humanidade nos ensinam que a providência Divina é tão justa, sábia e misericordiosa que coloca em nossas próprias mãos as condições para nos desvencilharmos de tal situação. Aprendemos com os mentores que essa sintonia pode ser quebrada com nossa mudança íntima, renovando-nos em Cristo, pois os Espíritos que procuram nos arrastar para o mal só se apegam às pessoas que os chamam pelos desejos e os atraem pelos pensamentos. Entretanto, embora repelindo-os pela vontade e pela reforma interior, eles não se afastam de todo. Ficam à espreita, de tocaia, aguardando que tenhamos um momento de invigilância par se aproximarem novamente. Contudo, quando praticamos o bem em todas as ocasiões possíveis e colocamos toda a confiança em Deus, não há dúvida de que, deste modo, repeliremos a influência dos Espíritos inferiores e, como dizem os guias, aniquilaremos o domínio que eles desejam ter sobre nós. [5]

A escolha, invariavelmente, é de cada um. Façamos então bom uso do livre-arbítrio e direcionemos nossos desejos, sentimentos e pensamentos sempre para o bem.

Valdir Pedrosa 

[1] Vide artigo ‘‘o sopro curador’’ de Valdir Pedrosa.

[2] Os mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 25 (Efeitos da oração).

[3] Vide artigo “A importância da prece” de Valdir Pedrosa.

[4] O livro dos Espíritos – Allan Kardec – 2ª parte- capitulo IX (Da intervenção dos Espíritos) – questão 549.

[5] O livro dos espíritos – Allan Kardec – 2ª parte – capitulo IX (Da intervenção dos Espíritos) – questões 467 a 469.

Psicografia: a mensagem dos espíritos nas orientações mediúnicas

Não é de se surpreender que, nos centros espíritas encontram – se pessoas em busca de palavras de consolo e esperança, qual ocorre nas orientações mediúnicas. As dores e os anseios são de variados matizes! A mensagem psicografada, no entanto, vai além do que se busca conscientemente, pois avança, certeira, no âmago das aflições também ignoradas.

“Paz e alegria”! Assim se costumam iniciar a orientação, por vezes extensas, que, nos momentos de desalento, acalmam, consolam e aconchegam aqueles para quem se dirigem. É um verdadeiro refrigério para a alma! Mas não é tudo…

O seu conteúdo, também e, sobretudo, tem o condão mediato do encorajamento à percepção de si mesmo, pois além dos passes, da água fluidificada e do culto no lar, misericórdia da sabedoria divina à disposição, instrui a espiritualidade para o hábito da boa leitura, mormente daquela recomendada para o caso especifico.

Desatento ainda, o consultante se questiona: por que o livro? Não  sabe previamente! Mas aos poucos, a leitura promove a percepção da necessária mudança de hábito – única responsável pelo aprimoramento que mitiga as dores e os sofrimentos. 

Atento e desperto, porém, compreende a relevância da mensagem psicografada, pois esta convida para muito mais do que uma simples reflexão, mas para uma profunda transformação interior, que dá posse, na intimidade, da morada da “Paz e alegria”, sentimentos imprescindíveis a refletirem o que se busca, a cura definitiva.

  Paz e alegria!

Luciano de Magalhães Rodrigues

Prece e elementos – Força

Chegara o momento da oração no posto de socorro ligado à colônia Campo da Paz. Com as luzes artificiais apagadas, os tons do crepúsculo preenchiam o ambiente e o firmamento apresentava-se imerso em tonalidades celestiais, não obstante a presença de sombra intensa no centro dos pavilhões onde se encontravam os Espíritos que dormiam.

A nobre Ismália, esposa do administrador do posto, Alfredo, iniciou comovente oração, assistida por algumas senhoras que lhe acompanhavam, bem como pelos demais homens e mulheres que compunham o quadro de colaboradores daquela instituição de amor. Aniceto instruiu André e Vicente para que acompanhassem a rogativa mentalmente, repetindo “em pensamento, cada expressão, a fim de imprimir o máximo ritmo e harmonia ao verbo, ao som e à ideia, numa só vibração. ”[1] Penetrando o coração dos presentes, a voz de Ismália se elevava aos Mais Altos- carregada de sentimento puro, pedindo a Deus forças para executar Seus desígnios e amparo àqueles irmãos infelizes que dormiam, ainda “anestesiados pela negação espiritual a que se entregaram no mundo. ”[1]

Naquele momento, André reparou “que a esposa de Alfredo se transfigurara. Luzes diamantinas irradiavam de todo o seu corpo, em particular do tórax, cujo âmago parecia conter misteriosa lâmpada acesa. ”[1] E para sua surpresa, nosso amigo observou que o mesmo fenômeno também acontecia com os demais, inclusive com ele, porém com menor intensidade. Chamou-lhe a atenção o fato de que os tarefeiros ali presentes exibiam expressão luminosa gradativa, obviamente, de acordo com os recursos espirituais e a condição evolutiva de cada um. “As senhoras que acompanhavam Ismália estavam quase semelhantes a ela, como se trajassem soberbos costumes radiosos, em que predominava a cor azul. Depois delas, em brilho, vinha a luz de Aniceto, de um lilás surpreendente. Em seguida, tínhamos Alfredo, cuja luz era de um verde suave e sugestivo, sem grande esplendor. Depois dele, vinham alguns servidores ostentando na fronte claridades sublimes, expressas em variadas cores, e, logo após, Vicente e eu, mostrávamos fraca luminosidade, a qual, porém, nos enchia de júbilo intenso, considerando que a maioria dos cooperadores em serviço apresentava o corpo obscuro, como acontece na esfera carnal ” [1]. Isso acontece com todos nós quando auxiliamos o próximo. Sabemos que não há possibilidade de oferecer recursos que não dispomos, isto é, só podemos dar aquilo que possuímos, principalmente no tocante aos valores que já auferimos como conquista espiritual. Claro que, dispostos a servir desinteressadamente e de boa vontade, os Espíritos que laboram na seara do Cristo potencializam nossos recursos, qualificando- -os, aumentando-os e direcionando-os aos que mais necessitam. [2] É da Lei que assim seja.

Observando o ambiente, André, tomado por suave calor que lhe proporcionava sensação de conforto, percebeu que muitos flocos esbranquiçados, de proporções variadas, não caíam sobre os infelizes irmãos que dormiam, mas sim sobre os trabalhadores do bem que oravam naquele momento. Tinha a impressão que eles se derramavam dos planos superiores em direção à fronte dos Espíritos amigos, com a mesma abundância para todos. Mas as surpresas não acabaram aí. Ao tocar seus corpos espirituais, os flocos desapareciam e, em seguida, saíam da fronte (centro cerebral) e do peito (centro coronário) grandes bolhas de luz, coloridas da claridade que cada qual se encontrava revestido. As bolhas subiam e logo depois se dirigiam aos Espíritos que dormiam à feição das antigas múmias egípcias. Percebia- -se então a evolução de cada um, conforme relata André: “As luzes emitidas por Ismália eram mais brilhantes, intensas e rápidas, alcançando muitos enfermos de uma só vez. Em seguida, vinham as fornecidas pelas senhoras do seu círculo pessoal. Depois, tínhamos as de Aniceto, de Alfredo e dos demais. Os servos de corpo obscuro emitiam vibrações fracas, mas visivelmente luminosas. Cada qual, naquele instante de contato com o plano superior, revelava o valor próprio na cooperação que podia prestar. ”[1]

E, para finalizar, a explicação sempre concisa do sábio Aniceto: “Na prece encontramos a produção avançada de elementos-força. Eles chegam da Providência em quantidade igual para todos os que se deem ao trabalho divino da intercessão, mas cada Espírito tem uma capacidade diferente para receber. Essa capacidade é a conquista individual para o mais alto. E como Deus socorre o homem pelo homem e atende a alma pela alma, cada um de nós somente poderá auxiliar os semelhantes e colaborar com o Senhor, com as qualidades de elevação já conquistadas na vida. ”[1]

Valdir Pedrosa

 [1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 24 (A prece de Ismália).

 [2] O Livro dos Médiuns – Allan Kardec – capítulo XIV (Dos médiuns) – médiuns curadores (item 176 – 2ª questão).

Finalidade das comunicações dos Espíritos

Os Espíritos são as almas dos homens que desencarnaram e retornaram ao mundo espiritual. Através da mediunidade, estes podem entrar em contato com o mundo material, utilizando um intermediário que conhecemos como médium. Allan Kardec nos apresenta a Escala Espírita onde nos esclarece que “A classificação dos Espíritos se baseia no grau de adiantamento deles, nas qualidades que já adquiriram e nas imperfeições de que ainda terão de despojar-se.”¹

 Portanto, as comunicações dos Espíritos vão variar de acordo com o grau de adiantamento moral e intelectual de cada um, de forma similar as comunicações dos homens de nossa sociedade. “Os Espíritos, em geral, admitem três categorias principais, ou três grandes divisões. Na última, a que fica na parte inferior da escala, estão os Espíritos imperfeitos, caracterizados pela predominância da matéria sobre o Espírito e pela propensão para o mal. Os da segunda se caracterizam pela predominância do Espírito sobre a matéria e pelo desejo do bem: são os bons Espíritos. A primeira, finalmente, compreende os Espíritos puros, os que atingiram o grau supremo da perfeição. ”¹

A finalidade das comunicações pode ser perfeitamente ser conhecida pela linguagem dos Espíritos comunicantes. A grosseria das expressões, a frivolidade, a baixeza das frases, a falta de aprofundamento de ideias, as comunicações maliciosas, ou aquelas que se apegam as coisas deste mundo, podemos inferir que são advindas de Espíritos inferiores. Seriam as comunicações grosseiras ou frívolas, explicitadas por Kardec no estudo sobre a Natureza das Comunicações dos Espíritos ².  Allan Kardec, também nos orienta a respeito das comunicações sérias, mesmo advindas de Espíritos imperfeitos, pois ele define as comunicações sérias, como – “são as que tratam de assuntos graves e de maneira ponderada. Toda comunicação que exclui a frivolidade e a grosseria, tendo uma finalidade útil, mesmo que de interesse particular, é naturalmente séria, mas nem por isso está sempre isenta de erros. Os Espíritos sérios não são todos igualmente esclarecidos. ”²

Finalmente, Allan Kardec nos fala das comunicações instrutivas: – “são as comunicações sérias que têm por finalidade principal algum ensinamento dado pelos Espíritos sobre as Ciências, a Moral, a Filosofia, etc. Sua maior ou menor profundidade dependem do grau de elevação e de desmaterialização do Espírito”². Muitas destas comunicações buscam inspirar bons pensamentos, desviando os homens da senda do mal, protegendo seus tutelados. É comum percebermos uma linguagem digna, envolvida pela benevolência, elevada e as vezes sublime.

É, pois, necessário distinguir as “comunicações verdadeiramente sérias das comunicações falsamente sérias, o que nem sempre é fácil, porque é graças à própria gravidade da linguagem que certos Espíritos presunçosos ou pseudo -sábios tentam impor as ideias quais falsas e os sistemas mais absurdos. E para se fazerem mais aceitos e se darem maior importância, eles não têm escrúpulo de se adornar com os nomes mais respeitáveis e mesmo os mais venerados ”². Este é um dos maiores escolhos da prática mediúnica. É por isso que os Espíritos verdadeiramente superiores nos recomendam sem cessar que submetamos todas as comunicações ao controle da razão e da lógica mais severa.

Porém, o ponto essencial das comunicações dos Espíritos, independente do conteúdo da mensagem, e também do nível de evolução dos Espíritos comunicantes, é que estas comunicações são as provas incontestes da existência e da natureza do mundo espiritual, bem como as relações com o nosso mundo, e segundo o próprio Allan Kardec em suas pesquisas científicas iniciais, nas quais percebeu que as comunicações dos Espíritos iriam legar a humanidade uma revolução no pensamento humano e consequentemente uma revolução moral da humanidade. – “Compreendi, antes de tudo, a gravidade da exploração que ia empreender; percebi, naqueles fenômenos, a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro da humanidade, a solução que eu procurara em toda a minha vida. Era, em suma, toda uma revolução nas ideias e nas crenças… ”³

Jesus nos abençoe.

Ladimir Freitas

1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: Segunda Parte – Cap. I – Dos Espíritos – questão 100. Rio de Janeiro: FEB, 1996.

2 KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns: Segunda Parte – Cap. X – Da Natureza das Comunicações. Rio de Janeiro: FEB, 1996.

3 KARDEC, Allan. Obras Póstumas: Cap. X – A minha primeira iniciação no Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

Visão e julgamento

Dentro do pavilhão onde se localizavam os Espíritos que dormiam, Aniceto convocou André Luiz ao trabalho: “Você, André, examine detidamente essa irmã. Abstenha-se de todas as considerações do plano exterior. Observe-a com todas as possibilidades e percepções ao seu alcance. ” [1] A pobre alma a sua frente se chamava Ana e, ao perscrutar – lhe a casa mental, descobriu que ela foi a autora de um crime brutal, com requintes de crueldade.

Diante de sua visão espiritual desfilavam cenas horríveis e angustiantes ocorridas em modesta residência localizada em humilde cidade. Dentro da casa, aquela mulher de idade madura e com maldade impassível estampada no rosto, lutava contra um homem bêbado. Ciente de que tinha sido envenenado por meio de bebida mortal, o ébrio chorava copiosamente e pedia perdão. Por piedade, solicitava que não fosse morto, evocando a necessidade de cuidar dos filhos. Ana, completamente transtornada, respondeu com frieza inabalável: “Morrerás mesmo assim. Tenho a infelicidade de amar-te, a ti que pertences a outra mulher! Não quiseste seguir-me e preciso vingar-me! ” [1] subitamente, ela assassinou o companheiro com marteladas no crânio. Não satisfeita, transportou o corpo em um carrinho de mão e o colocou na via férrea. Depositou o cadáver sobre os trilhos, cuidando para que a cabeça fosse decepada quando o trem passasse. Era noite muito escura e não houve testemunhas. A seguir, o amigo espiritual testemunhou a assassina ser cercada por seres que se assemelhavam a verdadeiros bandidos de vestes negras. Agora era a desventurada irmã quem gritava, parecendo estar embriagada de pavor. Acabou vencida por Espíritos tão perversos quanto si mesma, completamente abatida pela loucura incontrolável.

André Luiz teve um primeiro impulso de revolta em razão do crime cometido. Porém, recordou as lições que já havia recebido na colônia “Nosso Lar” e dedicou à desventurada irmã toda a sua compaixão. Aniceto externou sua satisfação com a postura do discípulo: “Estou satisfeito. Seus pensamentos de fraternidade e paz muito auxiliaram essa irmã infeliz. Guarde a certeza disso e continue buscando a compreensão para socorrer e ajudar com êxito. (…) não precisamos comentar qualquer episódio dessas existências vividas em oposição à Vontade Divina. Bastará lembrar sempre que a dívida, em toda parte, anda com os devedores. ” [1]

E se fôssemos nós no lugar de André? Será que a nossa visão do ocorrido guiar-nos-iam na avaliação do fato? E quanto ao que temos aprendido com o Espiritismo? Como conciliar o que vemos, o que sentimos, o que pensamos e o que devemos fazer? Ante uma atrocidade tão monstruosa como essa, emitiríamos bons pensamentos e sentimentos em favor da irmã desequilibrada ou será que partiríamos imediatamente para o julgamento, condenação e execução? Se aquela mulher fosse nossa mãe, esposa ou irmã, não faríamos tudo ao nosso alcance para ajudá-la? Como poderíamos assumir as funções de juiz e executor se não estávamos a par de seu histórico ou ficha espiritual? Não saberíamos sequer dizer se ela recebeu educação conveniente, se teve um lar digno ou afeições sinceras. Como julgar sem estar de posse do processo completo, sem conhecer toda a história, sem levar em conta as atenuantes e agravantes do caso? O que vítima e verdugo tinham em comum? Onde, como e porque teria começado aquele drama tão doloroso para ambos? Como avaliar o quadro obsessivo em que se encontravam? Jesus ensinou: “A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo teu corpo terá luz; se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes são tais trevas! [2] (…) não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgais, sereis julgados; e com a medida com que medis vos medirão a vós. ” [3]

Hoje, perante a imagem de um irmão precisando de auxílio, seja ele criminoso ou vítima, como temos nos portado? Que tal relermos a parábola do bom samaritano [4] e meditarmos nos ensinamentos nela contidos? O Cristo, assim como o Espiritismo, não quer que sejamos exímios observadores da vida alheia e nem juízes implacáveis, mas sim pessoas que praticam a verdadeira caridade – “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas. ” [5]… Desta forma, façamos o bem sem olhar a quem, despidos de qualquer sentimento de preconceito e sem nos arvorarmos em paladinos da justiça.

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 23 (Pesadelos).

 [2] Evangelho Segundo Mateus 6:22-23.

 [3] Evangelho Segundo Mateus 7:1-2.

[4] Evangelho Segundo Lucas 10:25-37.

[5] O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – 3ª parte – cap. XI (Da Lei de Justiça, de Amor e de Caridade) – questão 886.

Mediunidade de efeitos físicos e cura espiritual

A mediunidade de efeitos físicos é definida por Kardec como uma mediunidade que se manifesta por efeitos sensíveis, tais como ruídos, movimentos e deslocamento de corpos sólidos. Umas são espontâneas, isto é, independem da vontade de quem quer que seja; outras podem ser provocadas. O efeito mais simples, e um dos primeiros que foram observados, foi o movimento das mesas chamadas posteriormente de “mesas girantes”. De uma ou outra forma, para que o fenômeno se produza, é necessária a intervenção de um ou mais pessoas dotadas de especial aptidão denominadas médiuns de efeito físicos.

Mas como pode um Espirito produzir o movimento de um corpo solido?

Essa foi exatamente a pergunta formulada por Kardec aos Espíritos que assim a responderam: “Combinando uma parte do fluido uni- versal com o fluido, próprio àquele efeito, que o médium emite”¹. A análise da resposta nos permite compreender que médiuns de efeitos físicos são os médiuns que possuem facilidade de desprender o fluido animalizado o qual o fenômeno requer. Para distinguir a ação puramente magnética da mediunidade de cura, Kardec explica que todo médium curador é um emissor de fluido magnético, mas o que o torna médium é a sensibilidade para ser circundado por Espíritos que aumentarão a força magnética e a vontade de fazer o bem, dirigindo e modificando a propriedade do flui- do, o que o tornará capaz de trazer alivio ao doente ou até a cura.

E por falar em ampliação da força magnética, vale a pena refletir o papel dos Centros Espiritas no tratamento dos enfermos. O estudo sistemático das obras básicas e do evangelho, oferecido pelas casas espiritas bem orientadas, oferece recursos para que o trabalhador não apenas compreenda o mecanismo da mediunidade, como também imprima uma reforma moral capaz de lhe tornar apto à influencia de Espíritos superiores. Quando Kardec perguntou se “agiria com maior eficácia aquele que, tendo a força magnética, acre- ditasse na intervenção dos Espíritos?”², recebeu a surpreendente e inquietante resposta: “Faria coisas que consideraríeis milagre”.

É, parece que o tão desejado “milagre” mora bem próximo de nós, aguardando es- tudo, desprendimento material e amor incondicional ao próximo. Todos os dias estamos correndo o bendito risco de presenciar o milagre em nossas cabines de passe, nas visitas aos enfermos, nas salas de evangelização, nas palestras e até mesmo no culto cristão no lar. Pelo menos, do que depende do médium de efeitos físicos. Por que do outro lado, do ponto de vista do doente, existe uma outra condição tão necessária quanto a assistência dos bons Espíritos e a doação do fluido do médium. Essa condição é a transformação dos sentimentos do enfermo por meio de uma revolução na estrutura mental geradora dos pensamentos capaz de estabelecer um proposito real de vivenciar os ensinamentos do Cristo. E para isso, é bom recordá-Lo nos aconselhando: “A sua fé́ te curou. Vai e não peques mais”³.

Vinicius Moura

[1] KARDEC, A.O Livro dos Médiuns. 59a ed. Brasília: FEB, 1944,p.93.

[2] KARDEC, A.O Livro dos Médiuns. 59a ed. Brasília: FEB, 1944,p.218.

[3] Joao. 08:11.