Conhecer a si mesmo

Sob o prisma das Leis Divinas da existência e da evolução natural e permanente do Espírito, através de reencarnações sucessivas, torna-se um desafio fundamental redescobrirmos a nós mesmos. De onde vim e para onde vou? Como melhorar minha caminhada? Perguntas fortes que inquietam os nossos corações….

Em geral enxergamos fora de nós o que queremos conquistar: sucesso, fama, dinheiro, felicidade, amor, estabilidade, etc. Nos sentimos ansiosos e perdidos porque agimos com o foco exclusivo no plano material o que nos faz esquecer de olhar para dentro e refletir sobre nossas vidas.

Autoconhecimento significa estar consciente de quem você é na essência e a consciência é o que faz o ser humano poder observar e interagir com tudo o que existe dentro e fora de si.

Quais são suas características principais, que fazem você agir da forma que age, ser quem você é, ou ter os resultados que você tem?

No “O Livro dos Espíritos”, considerando a dificuldade de cada um conhecer-se a si mesmo, o Codificador indaga a respeito do meio de consegui-lo obtendo a seguinte resposta assinada pelo Espírito Santo Agostinho na questão 919a:

Fazei o que eu fazia quando vivi na Terra: ao fim do dia interrogava a minha consciência passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma.

Comentando a resposta dada por Santo Agostinho, Kardec assinala: Muitas faltas que cometemos nos passam despercebidas. (…). Se interrogássemos mais amiúde a nossa consciência veríamos quantas vezes falimos sem que o suspeitemos unicamente por não perscrutarmos a natureza e o móvel dos nossos atos.

Conhecer a si mesmo é o primeiro passo para que o Espírito possa atingir a perfeição moral. Mesmo sendo o processo de renovação para o bem longo, pois que depende do esforço de vontade de cada um ele é inevitável conforme a lei do Progresso.

Enfim nos orienta o prezado Léon Denis:

A todas as interrogações do homem, a suas hesitações, a seus temores, a suas blasfêmias, uma voz grande, poderosa e misteriosa responde: Aprende a amar! O amor é o resumo de tudo, o fim de tudo.

Letícia Schetino

Bibliografia:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 84. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003.
DENIS, Léon. O Problema do Ser do Destino e da Dor. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. Capítulo XXV.

Considerações gerais sobre espírito e matéria

Dentre os intrigantes temas tratados em O Livro dos Espíritos, as discussões sobre espírito e matéria ocupam lugar de destaque. São questões de alta indagação e abstração, sobre as quais já se debruçaram as mais brilhantes mentes que povoaram (e que povoam) a Terra. De certa forma, tais discussões remontam à origem humana e sinalizam para um caminho que permite pensar o futuro humano, despertando, assim, tanto interesse, ao mesmo tempo em que oferece tantas dificuldades, pois o homem ainda é incapaz de apreender, com a profundidade que a questão requer, todas as suas sutilezas.

Não obstante tais limitações, Allan Kardec, fiel aos seus propósitos de construir uma fé raciocinada, enfrentou essa delicada questão, submetendo aos instrutores espirituais várias perguntas sobre o tema, como se vê em várias passagens de O Livro dos Espíritos. Neste artigo, em particular, concentraremos nossa atenção às perguntas de número 21 a 28, onde o tema é tratado com singular profundidade.

De forma sintética, ensinam os instrutores espirituais que dois são os elementos gerais do universo: a matéria (elemento material) e o espírito (elemento inteligente); e, acima de tudo, está Deus, integrando o que os Espíritos da codificação denominaram de a “trindade universal” (vide pergunta 27 de O Livro dos Espíritos).

Deus, como vimos, não está no plano da matéria e do espírito, pois Ele é o criador. Apesar da dificuldade de entender o Seu conceito, é Ele a inteligência suprema e a causa primeira de todas as coisas, tendo como atributos a eternidade, a imutabilidade, a imaterialidade, a unicidade, a onipotência e bondade e justiça em grau superlativo.

O espírito e a matéria, por sua vez, integram o plano da criação. Enquanto que o espírito é definido, na pergunta 23 de O Livro dos Espíritos, como “o princípio inteligente do Universo”, a matéria é conceituada na letra “a” da pergunta 22 como “[…] o laço que prende o espírito; é o instrumento de que ele se serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce a sua ação”.

Esclareça-se que não podemos tentar entender matéria a partir de uma concepção de senso comum, mediante associação de seu conceito àquilo que impressiona nossos sentidos. Como ensinam os instrutores espirituais na pergunta 22 de O Livro dos Espíritos, “[…] a matéria existe em estados que ignorais. Pode ser, por exemplo, tão etérea e sutil, que nenhuma impressão vos cause aos sentidos. Contudo, é sempre matéria. Para vós, porém não o seria”. A atual ciência vai nessa linha, especialmente a física quântica e a teoria da relatividade, ao propor nova relação entre matéria e energia, sendo ambas, em essência, iguais, diferindo- -se apenas quanto ao grau de condensação.

O mesmo se aplica ao conceito de espírito. Ensinam os instrutores espirituais, nas perguntas 25 e 26 de O Livro dos Espíritos, que espírito e matéria não se confundem, podendo tal distinção ser concebida pelo pensamento. Contudo, ambos se unem para intelectualizar a matéria e para permitir, no atual estágio evolutivo, a manifestação do espírito, pois nossa organização ainda não é apta a perceber espírito sem matéria.

Ocorre que, ao se dizer que espírito e matéria são coisas distintas, intuitivamente – porque somos presos às dimensões do tempo e do espaço – somos tentados a pensar que o espírito seria um nada, pois ainda temos dificuldades em admitir a existência de algo que não é matéria. Para, no entanto, evitar essa má compreensão, os Espíritos ensinam na letra “a” da pergunta 23 de O Livro dos Espíritos que “não é fácil analisar o espírito com vossa linguagem. Para vós, ele nada é, por não ser palpável. Para nós, entretanto, é alguma coisa. Ficai sabendo: coisa nenhuma é o nada e o nada não existe”.

Vale esclarecer, ainda, que é inexato equiparar inteligência com espírito, já que a primeira é um atributo do segundo, conforme pergunta 24 de O Livro dos Espíritos. Da mesma forma, “espírito”, como princípio inteligente, não se confunde com “Espírito”, pois este é a individualização daquele princípio, o mesmo valendo para princípio material e corpo, já que este é a individualização daquele, como se vê da pergunta 79 daquele livro. Não sabemos, no entanto, no nosso atual estágio evolutivo, quando e como ambos os princípios (material e inteligente) e mesmo o corpo e o Espírito são criados.

Como espírito e matéria são distintos, resta saber como o primeiro pode exercer ação sobre o segundo. Para tanto, torna-se indispensável a mediação do fluido universal. Segundo a pergunta 27 de O Livro dos Espíritos, “[…] Embora, de certo ponto de vista, seja lícito classificá-lo como elemento material, ele se distingue deste por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse positivamente matéria, razão não haveria para que também o espírito não o fosse. Está colocado entre o espírito e a matéria; é fluido, como a matéria é matéria, e suscetível, pelas suas inumeráveis combinações com está e sob a ação do espírito, e produzir a infinita variedade de coisas de que apenas conheceis uma parte mínima. Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que o espírito se utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá”.

Como se vê, o estudo do espírito e da matéria é intrincado, complexo e denso, e a ele voltaremos outras vezes, advertindo, apenas, que ainda estamos nos seus primeiros passos. Mesmo assim, tudo isso nos mostra a grandeza da criação e como somos privilegiados por um dia, por decisão de Deus, nosso pai, termos sido criados e inseridos nesse contexto de crescimento e aprendizado, o qual é regado por tanto amor e cuidado.

Frederico Barbosa Gomes

Somos parte da natureza

O rompimento da barragem do Córrego do Feijão no município de Brumadinho-MG nos reuniu em torno de um estado psicológico de perplexidade. Isso mesmo! Estamos perplexos com a indiferença à vida, especialmente à vida humana. Na condição de espécie biológica temos, no mínimo, o dever de preservá-la. É evidente, que este ocorrido destaca-se pela dimensão ambiental, pelo amplo desencarne coletivo e pelo modo como ocorreu. No entanto, temos exemplos deste descuido diariamente e, frequentemente, muito perto de nós. A doutrina espírita nos consola conclamando a confiar nos desígnios de Deus e assim nos oferece um lenitivo. Ela nos exorta à fé! Mas também nos convida a aprender com os erros e agir para que a evolução se processe em nossas vidas como lei divina.

Acreditar simplesmente que “tinha que ser assim”, anula todo o esforço humano de preservação, toda inteligência, criatividade, toda ciência, toda liberdade que Deus, na sua infinita bondade e sabedoria, permitiu que alcançássemos após uma longa jornada pelos reinos da natureza. O espírita necessita humildemente reconhecer que ainda não se encontra nas condições intelectuais e morais ideais para entender definitivamente acontecimentos como esse. E a prova disso é o reduzido número de fontes de informações verdadeiramente confiáveis em nosso meio. Emmanuel, por exemplo, nos diz que “O determinismo e o livre arbítrio coexistem na estrada da vida para ascensão do homem”1. No entanto, como eles se processam na sua vida, na minha vida, enfim, ainda é algo a se estudar. O fato é que o ocorrido provocou dor nos corações humanos e destruição ecossistêmica. Mas porque isso acontece?

O apóstolo Paulo em uma de suas cartas asseverou que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos. ”2 Sabemos que o dinheiro, por si mesmo, não é bom ou ruim. Mas a cobiça faz com que ele seja convertido frequentemente em paixões conflituosas com as reais necessidades do espírito em jornada evolutiva. O resultado é a infelicidade – efeito de uma vida urgente, pautada na necessidade de satisfazer os desejos de agora vivendo a ansiedade da conquista a qualquer preço.

Consequentemente, muitos vivem como se não pertencessem à natureza. Como se não fizessem parte dela. Vivem menosprezando a reencarnação desconsiderando que a alma no corpo, no aprendizado na escola da Terra, depende do ar adequado, da água dos rios em condições de saciar a sede, do equilíbrio das florestas, da harmonia das cadeias alimentares. “Assim, tudo no Universo se liga, tudo se encadeia, tudo se acha submetido à grande e harmoniosa lei de unidade” 3. O teólogo Leonardo Boff chama isso de “Universo autoconsciente e espiritual”. O jornalista André Trigueiro nos recorda que “a afirmação espírita de que todos nós passamos pelos diferentes reinos da Natureza em uma progressão contínua determina o aparecimento de uma nova ética em relação a todas as criaturas existentes”. 4

É isso! Necessitamos de uma nova ética. A ética do cuidado! Um cuidado que transcende o fazer bem apenas àqueles que nos fazem bem, pois dessa forma não haverá recompensa como nos ensina Jesus. O cuidado que desperta a noção clara da fraternidade legítima. E por mais que o evento trágico do desencarne coletivo em Mariana e Brumadinho possa servir individualmente ao progresso do espírito, pois “de todas as calamidades terrestres, o Homem se retira com mais experiência e mais luz no cérebro e no coração, para defender-se e valorizar a vida” 5, é imperioso ampliar a nossa visão de mundo, nossa noção de espírito em evolução. E nesse caso, a mesma lama que no momento simboliza a morte pode se converter em vida. “Dito isso, cuspiu na terra e, tendo feito lama com a saliva, aplicou-a aos olhos do cego, dizendo-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé. Ele foi, lavou-se e voltou vendo”6. É tudo que precisamos no momento. A visão clara que somos parte da natureza para exercermos o verdadeiro amor por tudo e por todos.

Vinícius Moura

1 XAVIER, F. Cândido. O Consolador. Federação Espírita Brasileira. 1940. 15ªed.Brasília.

2 1 Timóteo 6:10

3 KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira. Cap.XIV, item 12.

4 TRIGUEIRO, A. Ecologia e Espiritismo. Federação Espírita Brasileira.2009. 1ªed.Brasília

5 XAVIER, Francisco C. Autores diversos. Chico Xavier pede licença. S.Bernardo do Campo: Ed. GEEM. Cap. 19 6João 9:1-7.

 

Magnetismo nas palavras

O mentor Aniceto conduziu seus pupilos, André Luiz e Vicente, na direção das câmaras que se encontravam separadas no posto de socorro. Chegando lá, o guia espiritual lhes apresentou Paulo, um irmão enfermo bastante irritado, que os recebeu com olhar vago e grito ensurdecedor. Não obstante, Aniceto o cumprimentou de forma atenciosa: “- Como vai, Paulo? ” [1]. Em função do magnetismo que revestia essas palavras, o doente ficou mais calmo, porém se conservando trêmulo e assustado.

Já diziam os mais sábios que “a palavra tem poder”, e completamos dizendo que sim, seja para o bem ou para o mal. Em verdade, tal poder ou força reside nas vibrações e energias com as quais lhe impregnamos, e isso vale tanto para a escrita quanto para a fala. Imaginemos a cena: em uma situação qualquer de desarmonia, alguém que chegue expressando palavras de serenidade e bom senso conseguirá promover uma melhora no ambiente, bem como no ânimo dos presentes. Pode acontecer um cenário inverso, ou seja, estamos em local harmonizado e, de repente, uma pessoa invigilante começa a pronunciar palavras que geram discórdia e desconforto em todos. Em poucos minutos é bem provável que muitos estarão em completo desequilíbrio, perturbando completamente a psicosfera (atmosfera psíquica) do lugar.

É comum em reuniões de intercâmbio mediúnico depararmos com Espíritos infelizes que chegam nestes recintos falando alto e, às vezes, agredindo verbalmente os tarefeiros. Diante do verbo fraterno, porém firme do esclarecedor, tais entidades recuam em função do alto poder do magnetismo envolvido nas expressões utilizadas no diálogo. O encarnado responsável pelo atendimento a esses irmãos profere frases de consolo, esclarecimento e orientação, com brandura e firmeza, apoiado no seu conhecimento e na vivência do Espiritismo, além de ter sempre presente o amparo dos guias espirituais da reunião. A palavra dita com amor e sinceridade, com serenidade e verdade, é luz imperecível no caminho de todos, sejam sofredores ou não, que nos direciona ao Cristo.

“- Tem sentido melhoras, Paulo? ”, perguntou Aniceto enquanto tocava seu ombro com bondade. O doente respondeu custando a raciocinar: “- Vou melhorando, graças…” Diante da vontade enfraquecida, faltava-lhe forças para concluir e foi neste momento que novamente percebemos a força das palavras, pois o mentor espiritual falou de forma imperativa e com a firmeza de quem deseja auxiliar: “-Termine! ”. Com extremo esforço, Paulo conseguiu concluir a afirmativa reticenciosa: “- Graças a Deus. ”

Ao presenciar o sofrimento e a indecisão do infeliz irmão, André Luiz se lembrou dos enfermos que ficavam nas Câmaras de Retificação da colônia Nosso Lar, aos quais a querida enfermeira Narcisa prestava grande e afetuosa colaboração. Buscando esclarecer seus aprendizes, Aniceto explicou: “- Veem a diferença entre os que dormem, os que estão loucos e os que sofrem? Em “Nosso Lar”, não temos dos primeiros, e os que se encontram desequilibrados, nos serviços da Regeneração, sentem, na maioria, angústias cruéis. É necessário reconheçamos que os que gemem e sofrem, em qualquer parte, estão melhorando. Toda lágrima sincera, é bendito sintoma de renovação. Os escarnecedores, os ironistas e os perturbados que não registram a dor são mais dignos de piedade, por permanecerem embotados em estranha rigidez de entendimento. ” [1]

Diante da explicação acima, podemos inferir a lamentável situação de alguns Espíritos no plano espiritual. A pior delas, sem dúvida, é daqueles que não reconhecem seus próprios erros e dificuldades. Os que não admitem suas mazelas, consideram correto tudo de errado que fizeram e que continuam a fazer, não se impondo nenhum limite, disciplina moral ou vigilância. Não enxergam a necessidade de pedir perdão a quem prejudicaram e muito menos se acham necessitados de promover a reparação das faltas cometidas. Esses, por enquanto, não se consideram devedores perante a Lei Divina e, por isso, sofrerão por algum tempo seus efeitos educativos mais rigorosos. Ainda nestes casos, a palavra amiga e abalizada, magnetizada por energias salutares, é capaz de realizar verdadeiros “milagres”, tirando-os da inércia evolutiva e chamando-os para uma maior compreensão de si mesmos.

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 27 (O caluniador).

Força mediúnica

“Porque a mediunidade não constitui privilégio dos homens de bem e por que se veem pessoas indignas que a possuem no mais alto grau e que dela usam mal? ” [1]

 A pergunta acima foi feita por Allan Kardec aos Espíritos superiores, quando da elaboração de O Livro dos Médiuns, e que Emmanuel utiliza como referência para o capítulo que se intitula Força mediúnica no Livro Seara dos Médiuns. Através das informações trazidas por Allan Kardec e por Emmanuel, destacamos alguns pontos essenciais:

1) A mediunidade é uma faculdade orgânica inerente ao homem, tal como a visão, a audição, etc. A mediunidade existe desde o surgimento da raça humana e não é uma criação ou um conceito Espírita. Na verdade, o Espiritismo surge através da mediunidade, quando Allan Kardec inicia o estudo dos fenômenos mediúnicos das “mesas girantes”.

2) A mediunidade não é um privilégio. Qualquer ser humano pode ser médium. O sábio, o ignorante, o homem de bem, o malfeitor, o honesto, o corrupto, o pobre, o rico, o ateu, o religioso, o espírita ou qualquer outra pessoa ligada a outras crenças religiosas.

 3) A mediunidade é neutra em si mesma, não é boa nem má. O bem e o mal, como produto da mediunidade, vão depender exclusivamente da força que a conduz. Ou seja, vai depender muito da condição moral e intelectual do médium.

4) O principal objetivo da mediunidade é a evolução moral da humanidade. Por isso a cada dia vê-se multiplicar o número de criaturas com possibilidades mediúnicas afloradas, em todos os lugares, em todas as classes sociais. Sendo que o progresso da humanidade somente se dará com a melhoria individual do ser humano, neste caso em especial, o médium tem uma atuação essencial, pois são como árvores destinadas a fornecer o fruto do alimento espiritual a seus irmãos.

5) A mediunidade é concedida ao médium para que ele se melhore e contribua para o melhoramento do meio em que convive, tal como outras possibilidades concedidas ao homem como a riqueza, a inteligência, a eloquência, e que invariavelmente deveremos prestar contas do mau uso destas faculdades.

Portanto, nós Espíritas, comprometidos com as diretrizes de nosso Senhor Jesus Cristo e iluminados pelas claridades da Doutrina dos Espíritos, aproveitemos a grande oportunidade desta maravilhosa ferramenta evolutiva que Deus nos concedeu. Orientemos a nossa força medianímica através da bondade, e do serviço constante no bem e do estudo perseverante, visando nosso aprimoramento moral e intelectual. Caridade e educação, sempre!

E como Emmanuel nos orienta em referência a força mediúnica, saibamos que:

“Não valem médiuns que apenas produzam fenômenos. Não valem fenômenos que apenas estabeleçam convicções. Não valem convicções que criem apenas palavras. Não valem palavras que apenas articulem pensamentos vazios. A vida e o tempo exigem trabalho e melhoria, progresso e aprimoramento. ”

 Ladimir Freitas

[1] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns: Segunda Parte – Cap. XX – Da Influência moral dos Médiuns. 62. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1996.

“Segue-me tu” – Jesus.

Com o advento de tecnologias e das redes sociais, possibilitou-se uma maior interação entre pessoas, sejam elas pessoas físicas e/ou jurídicas. E, a cada dia mais, aplicativos são lançados para que se tenha acesso a informação ou ainda a conteúdo que mais agrade ao seu usuário, seja de entretenimento, seja profissional ou ainda de desejos transformados em compras ou sensações. E nessa interação constante temos a possibilidade de reunir, por afinidade de gostos, conteúdos e outros interesses, às pessoas que se relacionam conosco no que se convencionou chamar “amigos”.

E nessa interação temos a oportunidade de gostar (“likes”) ou não (“dislikes”) das variadas informações ou conteúdo.

Porém, algumas características nos chamam a atenção: temos mais amigos e também mais solidão; diversidade e também mais intolerância; informação e também mais desinformação. Perguntar-se-á: estamos perdidos? Não sabemos por onde seguir? Como determinar nossa conduta nesse mundo de DEUS?

Se perguntamos aos mais velhos sobre os tempos atuais um saudosismo aparecerá, de tal forma que escutaremos “no meu tempo era diferente”, “criança não fazia isso ou aquilo”, etc. Então estaremos perdidos?

Diferentemente do que se propaga, o bem é silencioso e age no tempo certo, no que podemos afirmar que caminhamos para a era da imposição pelo AMOR, no qual a importância que damos a nossa conduta não será mais por aquilo que é legal – no sentido de leis postas – mas no sentido daquilo que é moral. Em que faremos a opção por aquilo que é bom em si mesmo, na preocupação constante de que só se é feliz na medida que possibilito o outro ser feliz também.

 E qual o caminho a seguir? Há 2000 anos nos foi apresentado o Evangelho – Boa Nova – como caminho para alcançar a plenitude ou ainda conquistar em nós mesmos o Reino dos Céus. Não se trata somente de tratado escrito, mas de vida. E vida em abundância, pois procedendo como Jesus nos recomenda estamos habilitados para viver em qualquer lugar do Universo, como herdeiros do Pai que está nos Céus.

Mas, há sempre um porém. Quando deixaremos para trás as “coisas” que não me elevam e me puxam para trás? O orgulho, a vaidade e a raiva podem ser suprimidos com a conquista de novos hábitos. Deixar de cuidar da “grama do vizinho” e cuidar do meu terreno e daquilo que semeio em mim mesmo como forma de mudar o comportamento.

Emmanuel no livro Fonte Viva, capítulo 89, nos dá inesquecível advertência, no qual informa que neste mundo encontraremos perseguição, maus tratos, solidão, ignorância, incompreensão e tantas outras dificuldades, mas por outro lado nos diz também que Jesus, nas palavras do evangelho, nos conclama segui-lo: “que te importa a ti, segue-me tu”. (João 21-22)

Sigamos Jesus, não com a paz do mundo, mas com a paz que ele nos concedeu.

João Jacques

Buscar e encontrar o verdadeiro sentido da vida

Refletir sobre a própria vida é uma necessidade que não deve ser deixada para depois. Parar um pouquinho de pensar freneticamente nos afazeres, nas conexões, em várias atividades ao mesmo tempo; sair dos pensamentos superficiais e aprofundar um pouco na nossa consciência, lugar onde mora nosso “eu” verdadeiro, onde estão registradas nossas experiências e tudo o que fazemos, pensamos e sentimos, e que somente Deus conhece na totalidade.

 A ansiedade gerada pela vida moderna, que impõe falsas necessidades de se acompanhar tudo e todos, comparar, ter que fazer isso ou aquilo, parecer, conseguir, adquirir, como condições para alcançarmos a felicidade, acaba asfixiando o verdadeiro propósito da nossa vida, distanciando-nos do significado real de estarmos aqui na terra, deixando nos, na maioria das vezes, vazios, inseguros, sem saber que rumo tomar, como um barco sem vela.

Encontrar o sentido da própria vida é descobrir a nossa singularidade. É encontrar o que nos define, o que define nossa história individual e como isso irá interagir com o coletivo, em termos de contribuição para o bem comum. É identificar o ser único que cada um é e conseguir perceber que a felicidade e a paz de espírito tanto almejadas somente alcançamos quando fazemos o que realmente viemos fazer aqui na terra, ou seja, cumprir o nosso dever, a nossa missão.

 Mas como perceber isso? Quais os caminhos para se alcançar esse sentido, para descobrir o que viemos fazer aqui, o nosso papel, o que planejamos melhorar em nós, o que planejamos fazer e quem planejamos ser enquanto espíritos reencarnados?

Ao pararmos para refletir sobre a própria vida, acessamos nossa consciência e fazemos uma releitura das nossas experiências, dos acontecimentos e suas marcas. Nesse ato, vamos atribuindo significados de acordo com as nossas crenças, valores e de acordo com a pessoa que nos tornamos e construímos para conduzir a própria vida. Isso é muito importante porque muitas vezes nós atribuímos todo o sentido da nossa existência a uma pessoa, ou a um bem material ou estilo de vida, um hobbie, um animalzinho de estimação, um trabalho ou cargo, ou a um fato que a gente quer muito que aconteça; de forma que depositamos e investimos ali todo o potencial da nossa alma. Fazemos projetos de vida nesse sentido e os emolduramos como se fossem definitivos, atrelando a eles a nossa felicidade. Mas chega um dia em que a vida nos afasta da razão que achávamos que era o motivo do nosso viver, e nos pede para aceitar o que é nosso de verdade. Então, apodera- se de nós o sentimento de fragilidade, de estar “sem chão”, sem forças para seguir em frente e sem motivos para viver. Porque, na verdade, é a força e o potencial da alma que nos dão a direção e senso interior. Nosso alicerce, o sentido da nossa vida, nós devemos buscar e encontrar dentro de nós mesmos, no nosso templo interior, conhecendo e explorando nossos potenciais inatos, descobrindo nossos valores e crenças, que irão ressignificar as experiências menos felizes que tivemos que passar, atribuindo um sentido para cada acontecimento, compreendendo, de fato, a importância de cada um para a nossa evolução espiritual.

Para tanto, Deus nos concedeu ferramentas, pois Ele sabe que não é uma tarefa fácil para nós, crianças espirituais que somos. O Evangelho de Cristo à luz da Doutrina Espírita, o recurso da prece e a prática da caridade nos proporcionam lucidez para clarear nossa visão e interpretar a própria vida, extraindo dela um sentido maior, que é a razão do nosso viver e de estarmos de passagem pela terra.

Esse investimento é o que temos que fazer para que a fé inabalável seja uma conquista de cada um, pois, na matéria, tudo muda, tudo se transforma. A dor passa e as alegrias também. Mas a força espiritual é perene e é a única capaz de nos sustentar nos momentos turbulentos. É a única que ninguém e nem nada nos tira, e deve ser construída por nós diariamente, porque cada criatura haverá de passar por testemunhos que poderão levar ao desespero se não houver fé em Deus. Nós sabemos que não podemos controlar, impedir que aconteçam as perdas, as frustrações, os desafios, que muitas vezes chamamos de tragédias da vida, mas podemos dar um novo significado para essas experiências. Antes de tudo, é necessário aceitar o ocorrido, conviver com o que aconteceu, entendendo a importância dessa experiência para o progresso individual do espírito e não apenas da última encarnação. Em seguida, devemos descobrir o que depende de nós fazer a partir daí e o que não depende. Isso permite que retomemos a nossa vida adaptando-a à nova realidade, vislumbrando outras possibilidades que a vida nos trará no momento certo.

 Assim estaremos fortalecendo nosso poder de lidar com os acontecimentos, com as circunstâncias diversas, desafios, dando-nos segurança, serenidade e equilíbrio para fazermos novas escolhas com sabedoria, com discernimento. Escolher também até mesmo os aspectos que vamos valorizar mais em nossas vidas. Por vezes, valorizamos mais o que nos falta, as ausências, as dores, o passado, as dificuldades e não enxergamos nem agradecemos as bênçãos.

Enfim, o principal é ter em mente, e repetir para nunca esquecer, que a nossa vida é maior do que qualquer coisa que nos aconteça; somos maiores que a dor, a tristeza, o desânimo, as perdas. Somos eternos. Somos frutos das nossas escolhas, herdeiros do nosso passado e construtores do nosso amanhã. Lembremos das sábias palavras da nossa querida benfeitora espiritual Joanna de Angelis, em sua maravilhosa obra “Iluminate” psicografada por Divaldo Pereira Franco. “És o que de ti mesmo fazes. Aprende a ser feliz, amando e ajudando, de modo que esse tesouro nunca te seja retirado, antes se te faça multiplicado. Renasceste para conquistar a verdade adormecida no teu íntimo. Confia e ama! Tem paciência e nunca desista da luta! ”.

Adriana Souza

Saudade e entendimento

Me incluo entre aqueles que dizem não ter medo de morrer, mas que sentirão muita saudade das pessoas amadas que permanecerão na Terra. De fato, a dor da separação, principalmente se tratando de quem amamos verdadeiramente, é um dos maiores flagelos da desencarnação. Todavia, é de fundamental importância o entendimento acerca do plano espiritual e das Leis Divinas para superarmos esse doloroso momento, presente tanto no coração de quem vai, quanto no de quem fica.

André Luiz nos informa sobre interessante diálogo travado entre Alfredo, o administrador do posto de socorro filiado à colônia Campo da Paz, e um senhor de expressão humilde e simpática chamado Alonso. O velhinho queria saber se Alfredo havia recebido notícias de seus familiares na crosta. O administrador informou-o que sua viúva permanecia extremamente triste e que seus filhos, não obstante estarem bem de saúde, continuavam muito ansiosos em virtude da ausência do falecido pai.

Creio que todos podemos imaginar o aperto que Alonso sentia no peito. A saudade era imensa, assim como a preocupação com o bem-estar da família terrena. Comovido com a situação do querido colaborador, Alfredo pediu-lhe para que não se angustiasse, pois como pai zeloso mesmo estando distante fisicamente, Alonso trabalhava no plano espiritual buscando concretizar algumas medidas em favor de seus familiares. Lembrou-lhe sobre os cuidados necessários para administrar a saudade, para que ela não fosse um instrumento de desorganização mental, pois “a saudade que fere, impedindo-nos atender à Vontade Divina, não é louvável nem útil. É enfermidade do coração, precipitando-nos em abismos insondáveis do pensamento. ” [1]

O Espiritismo nos ensina que, de acordo com o seu teor, os pensamentos emitidos por encarnados repercutem nos desencarnados de forma positiva ou negativa, causando-lhes sensações de contentamento ou desarmonia. Alonso, embora já demonstrando melhoria significativa em sua vida mental devido aos deveres assumidos no posto de socorro, sentia-se de fato renovado em termos espirituais. No entanto, quando se concentrava nas habituais preces noturnas, sentia pensamentos dolorosos da esposa e dos filhos chamando por ele, penetrando profundamente em sua mente. Isto o perturbava e lhe prejudicava no trabalho diário. Dizia ele: “Que chefe de família não se sentiria atormentado, ouvindo angustiosos apelos do lar, sem meios de atender, como se faz indispensável? (…) quisera rogar aos meus calma e coragem, esclarecendo que meu coração ainda é frágil e necessita do amparo deles; estimaria pedir-lhes esse auxílio para que eu possa atender às atuais obrigações, sem desfalecimentos. ” [1]

Convidando o servidor à reflexão minuciosa sobre o assunto, Alfredo ponderou que seria até possível estabelecer comunicação entre Alonso e sua família, embora com prejuízos à manutenção da própria paz. O administrador salientou a importância da resignação diante dos desígnios de Deus. Se Alonso e a esposa estavam separados é porque ambos necessitavam de novas experiências no campo evolutivo. Tanto ele quanto ela sofriam as dificuldades causadas pela separação, as quais deveriam ser convertidas em oportunidades de aperfeiçoamento espiritual. Os filhos estavam chorosos, desalentados e revoltados diante da desordem doméstica que se estabeleceu após o desencarne do pai. Entretanto, antes de tudo, eram filhos de Deus e, sob o amparo do Mais Alto, precisavam definir responsabilidades e assumir as rédeas das respectivas realizações. Enquanto no mundo físico, Alonso já havia feito tudo o que podia por eles. Estava na hora de se conformarem com a realidade e se tornarem protagonistas de suas existências. O velhinho, tão sincero em seus sentimentos e tão dedicado aos seus familiares consanguíneos, não possuía naquele momento preparo suficiente para tudo ver no antigo lar sem sofrer desastrosamente. Era imperioso deixar o tempo passar. Agradecido, ele compreendeu as justas ponderações de Alfredo, que rogou a Deus que lhe abençoasse o entendimento.

Realmente não é fácil nos desapegar das pessoas que amamos. É claro que podemos sentir saudade e até chorar pelos nossos entes queridos que já partiram para a Pátria verdadeira. Porém, a grande diferença está na forma pela qual extravasamos sentimentos e emoções. Se o choro for de gratidão e reconhecimento, se for uma saudade permeada pela certeza do reencontro, podemos ter a certeza de que tais energias farão muito bem àquele no qual pensamos. Contudo, se dermos vazão ao desequilíbrio, à incompreensão, à lamentação e à revolta, não há a menor dúvida de que nossas vibrações atingirão o desencarnado como um projétil repleto de veneno fatal.

Como no caso de Alonso, existem várias situações em que a dor não é opcional, mas o sofrimento sim. A separação causada pela morte do corpo carnal desencadeia um processo doloroso para os envolvidos. Não há como fugir disso. Para pelo menos amenizar o sofrimento, é imperioso a compreensão das Leis Divinas e dos mecanismos que regem o mundo espiritual e suas relações com o mundo físico. Por isso encerramos com uma pérola da sabedoria de Alfredo: “Tenho a impressão, Alonso, de que Deus nos deixa sozinhos, por vezes, a fim de refazermos o aprendizado, melhorando o coração. A soledade, porém, quando aproveitada pela alma, precede o sublime reencontro. ” [2]

 

Valdir Pedrosa

 [1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 26 (Ouvindo servidores).

[2] Pão Nosso – Pelo Espírito Emmanuel, psicografado por Francisco Cândido X   

Sono e sonhos

 Na Parte Segunda do “Livro dos Espíritos” (LE), no capítulo VIII, questões 400 a 455, temos importantes informações da Espiritualidade sobre a “Emancipação do Espírito”, fenômeno que permite o intercâmbio entre o plano físico e o plano espiritual. Vamos comentar algumas delas a seguir.

Em termos biológicos o sono é um estado de inconsciência e de relativa inatividade, comum a todos os animais vertebrados, no qual ocorrem mudanças fisiológicas significativas que garantem a manutenção do desempenho físico, mental e energético do ser. Por essa razão, ter um sono regular e com qualidade fortalece nosso sistema imunológico e evita muitas doenças.

Registra-se na questão 401 do LE que “[…] o Espírito jamais está inativo” e esclarecem-nos os Espíritos Superiores, na questão 412 desta Obra, que a alma se afasta do seu corpo físico durante o sono, mas a ele permanece conectada por meio do perispírito, o qual, por sua vez, transmite ao corpo de carne as impressões, boas ou más, vindas do Espírito, conforme a natureza das atividades que ele desenvolve na outra dimensão.

Assim, há real necessidade de cuidarmos da higiene do nosso sono, buscando os bons hábitos para saúde de nosso corpo físico, mas, fundamentalmente, do nosso Espírito, por meio das boas leituras, das preces e meditações, que nos permitirão conexões com bons parceiros e instrutores durante o repouso do corpo, lembrando que o sono é forma de reparação das forças orgânicas e também morais.

Quanto aos sonhos, em resposta a questão 402 do LE, dizem os Orientadores Espirituais que “[…]O sonho é a lembrança do que o Espírito viu durante o sono”. Liberto, o Espírito adquire maior potencialidade, comunica-se com outros Espíritos, encarnados e desencarnados, se lembra de acontecimentos do passado, “algumas vezes prevê o futuro”, vai a lugares distantes que jamais viu, e “até a outros mundos”.

Nos chamados “sonhos comuns” o espírito flutua na atmosfera sem se afastar muito do corpo e fica afeto as sensações e preocupações do seu dia. Nos “sonhos espirituais” o Espírito, desprendido do corpo, exerce atividade real e efetiva no plano espiritual, encontra com parentes, amigos, instrutores espirituais, inimigos ou desafetos, desta e de outras vidas. Portanto, se ao despertarmos nos sentirmos envolvidos por emoções agradáveis, vivenciamos a noite uma experiência positiva, ao contrário, se as emoções são negativas, certamente nos vinculamos a situações e espíritos desequilibrados, necessitando reformar nossas condutas, pensamentos e sentimentos.

Ressaltamos que a análise dos sonhos pode nos trazer informações valiosas para nosso autodescobrimento, mas é importante nos precavermos contra as adivinhações, com base nas imagens e lembranças esparsas de sonhos, que só trazem conflitos na caminhada.

Letícia Schetino

Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos.

Tradução de Guillon Ribeiro. ed. Rio de janeiro: FEB, 2007, questões: 401; 412; 402.

Ninguém dá o que não tem

Ismália deu por encerrada a tarefa da oração no posto de socorro vinculado à colônia Campo da Paz, mais especificadamente no pavilhão dos Espíritos que dormiam. Ao perceber a perplexidade   de André Luiz e Vicente, seus tutelados, o instrutor espiritual Aniceto esclareceu, com sua proverbial sabedoria, os pormenores do ocorrido durante a prece proferida pela esposa de Alfredo: “(…)toda prece impessoal dirigida às forças Supremas do bem, delas recebe resposta imediata, em nome Deus. Sobre os que oram nessas tarefas benditas, fluem, das esferas mais altas, os elementos-força que vitalizam nosso mundo interior, edificando-nos as esperanças divinas, e se exteriorizam, em seguida, contagiados de nosso magnetismo pessoal, no intenso desejo de servir com o Senhor. (…) viram, vocês, cair sobre nós os elementos a que me refiro, e observaram a sua exteriorização com as luzes de cada um de nós, em benefício dos irmãos que dormem e sofrem. Concedeu-nos o Altíssimo a força de auxiliar, em porções iguais para todos, mas nós a espalhamos de acordo com a nossa possibilidade e coloração individuais. Ismália, cujos sentimentos são mais amplos e universalistas que os nossos, pode receber comais clareza o auxílio divino e distribuí-lo com mais abundância e eficiência. Temos, aqui, uma profunda lição. Como já disse, o Pai visita os filhos necessitados, através dos filhos que procuram compreende-lo. Não poderíamos abusar do senhor, como abusamos no círculo terrestre dos nossos pais humanos. Não vive Ele ao sabor de nossos caprichos pessoais. Nunca poderia vir, em pessoa, enxugar o pranto do necessitado que chora, em consequência, aliás, do olvido das Divinas Leis. Compete ao necessitado caminha ao reencontro dEle. O senhor, todavia, atende sempre a todos os homens de boa vontade, por intermédio dos homens bons, que se edificam na casa divina. Todos os nossos desejos e impulsos razoáveis são atendidos pelas bênçãos paternais do Eterno. Ainda que nos demoremos nas lágrimas e nas aflições, jamais permanecemos ao desamparo. Apenas devemos salientar que as respostas de Deus vão sendo maiores e mais diretas, à medida que se intensifique o nosso merecimento, competindo-nos reconhecer que, para semelhantes respostas, são utilizados todos quantos trazem consigo a luz da bondade, ou já possuem mérito e confiança para auxiliar em nome de Deus. (…) reparem que, nestes pavilhões, temos mil e novecentos e oitenta abrigados que dormem. Todos recebem diariamente alimento e medicação comuns, mas só quatrocentos são atendidos com alimento e medicação especializados, por se mostrarem mais susceptíveis de justa melhora. Desses quatrocentos, apenas dois terços se revelam aptos à recepção de passes magnéticos. Muitos não podem receber, por enquanto, água efluviada. Poucos foram contemplados com soro curativo e somente dois se levantaram, ainda assim, profundamente perturbados. Já que iniciam um trabalho de cooperação fraternal, não esqueçam esta lição. Façamos todos o bem, sem qualquer ansiedade. Semeemo-lo sempre e em toda a parte, mas não estacionemos na exigência de resultados. O lavrador pode espalhar as sementes à vontade e onde quer que esteja, mas precisa reconhecer que a geminação, o crescimento e o resultado pertencem a Deus. ” [¹]

O ensinamento é cristalino: ninguém pode dar o que não possuiu. No relato acima verificamos que os elementos-força verteram do mais alto em direção aos espíritos tarefeiros, irmãos já conscientes de suas responsabilidades para com o próximo. Como todos ali se encontravam em atitude de oração sincera e prontos para auxiliar, receberam as energias dos planos superiores de acordo com suas possibilidades ou, se preferir, em conformidade com suas condições evolutivas. Algo semelhante ao que Jesus relatou na parábola dos talentos. [²] Após serem absorvidos, esses elementos-força foram exteriorizados impregnados pelos fluidos dos próprios trabalhadores espirituais, manifestando assim o potencial e a luminosidade pertinentes à capacidade de cada Espírito. Pelo texto depreende-se que Ismália era a entidade mais evoluída presente naquele recinto.

Isso nos leva a pensar no quanto podemos contribuir com nossos irmãos, seja em tarefas assistenciais ou até mesmo nos diversos relacionamentos que mantemos. Quando nos conectamos às forças superiores da vida através da oração sincera, recebemos esses fluidos poderosos que somados às energias que nos são próprias, exteriorizam-se em benefício de quantos nos propormos a auxiliar em nome do Cristo. Todavia, para melhorar servir à espiritualidade amiga. É preciso produzirmos e cultivarmos energias positivas. Para isso é essencial mantermos desejos, sentimentos e pensamentos sempre elevados. Se quisermos fazer o bem, precisamos do bem dentro de nós. Se pretendemos espalhar o amor, é necessário cultivarmos o amor em nosso íntimo. Se ansiamos estender a paz por onde passamos, é indispensável respirarmos a paz em nosso mundo interior. Em suma, refletimos o que somos, damos o que temos. Quando entendemos isso e colocamos em prática os ensinamentos dos Espíritos superiores, criamos um círculo virtuoso, no qual nos alimentamos do bem em todos os sentidos, pois sempre podemos exercitá-lo e absorvê-lo, independentemente de qualquer coisa. E o Pai Celestial é tão magnânimo que estabeleceu em Suas leis que é dando que se recebe, como ensinou Francisco de Assis em sua famosa prece.

Deste modo, quanto mais amor oferecemos ao Universo, mais amor o Universo nos oferece. Quanto mais paz e luz espalhamos, mais luz e paz receberemos. Assim, nosso reservatório individual estará sempre transbordando de boas energias e caberá a cada qual espalhar os elementos-força que vêm do Mais alto, acrescidos de seus recursos morais e espirituais. “ O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, do seu mau tesouro tira o mal; pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca”, ensinou o Mestre Jesus. [³]

Valdir Pedrosa

[¹] Os mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capitulo 25 (Efeitos da oração).

[²] Evangelho Segundo Mateus 25:14-30.

[³]Evangelho Segundo Lucas 6:45.