Espaço Universal

Os espíritos nos ensinam que o egoísmo e o orgulho são enormes obstáculos à nossa evolução, pois, ao analisarmos, em essência, os vícios que tingem a nossa trajetória, veremos que eles decorrem de um ou de outro, isto é, ou do orgulho e/ou do egoísmo. Pelo orgulho, atribuímo-nos qualidades que não possuímos e exaltamos desproporcionalmente a nossa personalidade, criando de nós mesmos uma imagem que não corresponde à realidade, beirando, em muitos casos, à soberba e à arrogância, o que nos leva a acreditar que somos melhores, mais capazes e mais sábios do que somos.

Por isso, o nosso grande desafio, além de aprender a verdadeiramente amar, é sermos humildes. Isso, ao contrário do que se supõe, não se confunde com baixa autoestima, com subserviência e/ou com falsa modéstia que, muitas vezes, não passa de orgulho dissimulado -, mas sim com a capacidade de reconhecer o nosso verdadeiro valor, nossas capacidades, nossas limitações e os nossos pontos de melhoria. Isto nos permitirá assumir as responsabilidades de que já somos capazes de nos desincumbir, bem como identificar e nos empenhar em melhorar aquilo que sabemos que ainda somos falhos, certos de que a luta é contínua e a evolução é uma lei da qual não podemos fugir.

Infelizmente, o orgulho ainda fala muito malto em nós, especialmente quando tratamos de assuntos que escapam dos nossos sentidos e para os quais os nossos limitados conhecimentos são incapazes de dar as respostas de que gostaríamos de ter. Por isso, é importante ter em mente que o fato de não termos a resposta não significa que ela não exista, pois, às vezes, sequer temos o desenvolvimento necessário para sua compreensão. 

Admitir isso é um exercício de humildade, o que nos leva a reconhecer que a nossa razão tem limites decorrentes da nossa própria condição evolutiva, mas que, nem por isso, devemos renunciar ao esforço por uma compreensão contínua de nossa realidade e por saber lidar com as restrições próprias do nosso potencial cognitivo.

A proposta espírita de construir uma fé raciocinada rompe com a ideia de que a fé se limitaria à esfera do acreditar – e não do compreender -, estando restrita ao campo do sobrenatural, onde a razão não trafegaria. Na realidade, a união de ambas (fé e razão) permite descortinar um caminho para a construção do homem integral, por meio do qual crer e compreender são faces de uma mesma moeda. E isso nos permite construir, do ponto de vista intelectual, uma perspectiva mais humilde, por meio da qual o fato de não conhecermos não significa dizer de que não existe, mas pode sinalizar algo que ainda aprenderemos no nosso processo evolutivo. 

De certa forma, é isso que os espíritos da codificação nos ensinam, especialmente quando tratam de temas de alta complexidade e de profunda indagação, como é a questão do espaço universal, objeto deste artigo, e que é tratado nas perguntas de número 35 e 36 de O Livro dos Espíritos.

Em busca de maiores esclarecimentos sobre o tema, Kardec questionou aos espíritos da codificação na pergunta 34 daquela obra se o espaço universal seria infinito ou limitado, ao que responderam os orientadores espirituais: “Infinito. Supõe-no limitado: que haverá para lá de seus limites? Isto te confunde a razão, bem o sei: no entanto, a razão te diz que não pode ser de outro modo. O mesmo se dá com o infinito em todas as coisas. Não é na pequenina esfera em que vos achais que podereis compreendê-lo”. 

Tentando ser ainda mais didático, Kardec acrescentou à resposta dos espíritos que: “Supondo-se um limite ao Espaço, por mais distante que a imaginação o coloque, a razão diz que além desse limite alguma coisa há e assim, gradativamente, até ao infinito, porquanto, embora essa alguma coisa fosse o vazio absoluto, ainda seria Espaço”. 

E, para deixar claro que o universo é um todo ocupado, cuja extensão não temos condições de apreender, esclarecem os espíritos da codificação na resposta da pergunta de número 35 que não há vácuo, pois, o que parece ser vazio, na realidade, está ocupado por matéria cuja percepção escapa aos nossos sentidos e aos equipamentos que temos. Do exposto, temos que a busca pela compreensão de temas de alta complexidade, como o presente, é de fundamental importância para o nosso crescimento e para a nossa evolução. Entretanto, devemos estar atentos para que essa busca não se torne um fim em si mesmo, quando apenas alimentaremos o nosso orgulho. 

Por isso, mais do que entender a grandiosidade da revelação sobre a infinitude do universo e sobre a sua taxa de ocupação – o que agrada a nossa razão -, valeria a pena refletir sobre essa lição com os olhos do espírito. E, uma das interpretações que nos parece plausível – interpretação esta que não tem a pretensão de ser a única e nem a de ser a delas – é a de que, de fato, há muitas moradas na casa do Pai. E se, de um lado, a compreensão do universo ainda transcende – e muito – a nossa razão, essa mesma razão é capaz de fortalecer a nossa fé, ao nos permitir perceber que, apesar do nosso minúsculo tamanho diante da infinitude universal e da sua enorme taxa de ocupação, ainda assim, o amor de Deus por nós é infinito, conhecendo-nos a todos pelo nosso próprio nome.

Frederico Barbosa Gomes

Renovando a esperança

Estamos vivenciando um momento conturbado em nosso orbe terrestre. Diríamos que estamos atravessando a noite escura dos valores morais. Há tempos não precisamos mais abrir um jornal ou ligar a TV para vislumbrarmos cenas de violência, conflitos de toda ordem, contendas inúteis que refletem o egoísmo, o orgulho, a indiferença e o desamor. Esse cenário no qual estamos imersos tem nos causado, muitas vezes, uma sensação de profunda exaustão energética. Sintomas como cansaço, indisposição, desânimo, incredibilidade no ser humano, visão pessimista do mundo e da existência como se a esperança “a última que morre” tivesse realmente ido embora definitivamente…

Joanna de Ângelis, no livro “Encontro com a paz e a saúde”, psicografado por Divaldo Franco faz toda uma análise do comportamento humano nos dias atuais e chega à conclusão de que as criaturas parecem anestesiadas pelo sofrimento, havendo perdido o rumo e a confiança num futuro melhor. De acordo com a benfeitora “como a sociedade está enferma e por sua vez influi no comportamento individual este por sua vez é aglutinador do grupo social interdependendo-se mutuamente em incessante fluxo de energias. Embora as soluções devam ser propostas pelos grupamentos, será no indivíduo que se devem trabalhar as bases do ajustamento, das diretrizes do reequilíbrio, os valores éticos em benefício da sua saúde emocional, psíquica e moral(…) de modo a recuperar a saúde geral e salvar o planeta que padece a alucinação de seus habitantes”.

Embora a paisagem seja sombria e desconsertante, com as trocas fluídicas nos influenciando de forma integral, temos urgência em melhorar nossas emanações individuais para influenciarmos o meio em que vivemos com um facho de luz da esperança de modo a torná-lo mais ameno, mais dignificante. Primeiramente é necessário compreender que a terra está passando por esses reajustes para se chegar à regeneração. Os desastres, infortúnios, calamidades diversas fazem parte da transição e nos trazem a oportunidade de servir mais, tornando-nos mais fortes, optando por viver de forma mais cooperativa ajustando também dentro de cada um de nós os valores morais necessários para ter equilíbrio suficiente para superação dos desafios e sabedoria para viver neste contexto.

Nossa querida mentora Meimei, através da mensagem psicofônica na Reunião de Convívio Espiritual do dia 16/06/2019, nos presenteia com algumas diretrizes importantes para mudarmos o nosso comportamento quando as dificuldades surgirem. Orienta-nos a manter a calma, a paciência em Jesus por meio da prece, do esforço para se tornar uma pessoa melhor a cada dia. Convida-nos a desenvolver mais tolerância com o nosso próximo principalmente quando não concordamos com a opinião dele silenciando para evitar conflitos e respeitando sempre. Ressalta ainda que não nos preocupemos tanto com os erros alheios e sim com os próprios erros refletindo sempre ao final de cada dia como nos ensinou Santo Agostinho avaliando nossas ações acerca do que fizemos e o que poderíamos ter feito de maneira diferente.

A espiritualidade sempre tão cuidadosa com todos nós tem pedido muito para renovarmos a esperança em nossos corações. Não uma esperança passiva, apenas acreditando que dias melhores virão e que a paz e o amor irão reinar, mas esperar servindo, orando, amando e instruindo. Esperar servindo é esperar com as mãos ocupadas no trabalho ajudando o nosso próximo na escola da caridade, porque as boas ações fortalecem nosso espírito e transformam a realidade. Devemos também esperar orando. Muitas vezes nos desequilibramos e não conseguimos tampouco fazer uma prece. Daí a necessidade de vigilância constante. Perceber a importância de se realizar o culto cristão no lar para renovar a esperança na vida, na família, no ser humano, para melhorar a convivência, para harmonizar o ambiente. Esperar orando é também colocar o coração em oração em qualquer tempo e lugar para sentirmos amparados e confortados com o amor de Jesus. É elevar nosso pensamento seja para agradecer ou rogar força e sabedoria para vencer os momentos difíceis do caminho. É convidar Jesus para fazer parte da nossa rotina.

“Amai-vos e instruí-vos” eis a essência da Doutrina Espírita, frase encontrada no Capítulo VI (O Cristo Consolador) de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Esperar amando e instruindo é estudar e vivenciar o evangelho fazendo-nos solidários e misericordiosos com o nosso semelhante e também conosco. Esperar amando diz respeito a um amor incondicional. Esperar instruindo é não perder de vista o estudo das obras básicas do Espiritismo que estão consubstanciadas em: O livro dos Espíritos, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese, assim como a vasta literatura espírita que descortina um universo de possibilidades de novos conhecimentos auxiliando-nos na compreensão da vida permitindo que aprofundemos em diversos temas propiciando o autoconhecimento necessário para avaliarmos se nossas ações estão realmente condizentes com os ensinamentos do Cristo permitindo os reajustes necessários para aperfeiçoarmos sempre, objetivo maior de estarmos reencarnados.

Enfim, o convite é para hoje. Renovemos a esperança em nossos corações. Esperança de dias melhores, de sermos melhores “melhores no amor, melhores na dor, melhores em tudo”, como diz uma canção… E se por ventura o sentimento de medo, tristeza ou desânimo chegar e nos convidar ao repouso ou à imobilização não deixemos que a esperança esmoreça em nós. Continuemos esperando servindo, orando, amando e instruindo com perseverança apesar de tudo. Nunca parar, pois Cristo segue à nossa frente.

Adriana Souza

O Desculpismo Indesculpável

O assunto sobre a assistência aos encarnados, apresentado pelo Sr. Bacelar, despertou o interesse dos presentes na residência de Alfredo e Ismália, no Posto de Socorro. Após breve explanação sobre os desafios de tão nobre atividade, André Luiz ponderou: “Tem razão; entretanto, vale por conforto a certeza de que há muitos cooperadores encarnados no mundo prontos a colaborar na tarefa.” [1] Ledo engano! No final da década de 1990, quando descobri a maravilha que é o Espiritismo, eu também pensava como André. Diante de todo o conhecimento e trabalho que a Doutrina Espírita nos proporciona, imaginei que havia inúmeros tarefeiros de boa vontade que, em uníssono com os pensamentos do Cristo, levavam a caridade a todos os cantos.  Algum tempo depois, já estudando um pouco mais os postulados evangélicos, me deparei com a seguinte fala de Jesus aos seus discípulos: “Na verdade, a seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara.”[2] Posteriormente, abracei com intenso amor a função de expositor espírita e, aos poucos, fui percebendo a veracidade do comentário do Mestre. Depois de mais de vinte anos percorrendo inúmeras instituições de nossa cidade e de sua região metropolitana, observei que na maioria delas há uma quantidade considerável de frequentadores, pessoas que buscam na Doutrina o consolo, a orientação e o esclarecimento para as mais diversas situações de suas vidas. Todavia, infelizmente, o número de tarefeiros quase sempre é muito pequeno. Faltam dirigentes, expositores e médiuns, dentre outros. Sobretudo, há uma grande carência de lidadores espíritas devidamente qualificados e comprometidos com a pureza doutrinária do Espiritismo.

Em resposta à colocação feita por André Luiz, o Sr. Bacelar comentou: “Nem sempre. A cooperação é outro problema. A maioria dos irmãos que se propõem ao serviço, partem daqui prometendo, mas gostam de viver descansados, no planeta. (…) Raramente encontramos companheiros encarnados com bastante disposição para amar o trabalho pelo trabalho, sem ideia de recompensa. A maioria está procurando remuneração imediata. Nessas condições, não percebem que a mente lhes fica como aposento escuro, atulhado de elementos inúteis. (…) Enxergam tormentas onde há paisagens celestes, montanhas de pedra onde o caminho é gloriosa elevação. De pequenos enganos a pequenos enganos, formam o continente das grandes fantasias.” [1] Essa é outra visão do mesmo problema: Espíritos que reencarnam trazendo sua programação de trabalhos edificantes, porém ao chegarem à Terra, se imaginam em uma verdadeira colônia de férias. Quando se dignam ao serviço benfazejo, exigem retribuição quase instantânea. Como se não bastasse, são incapazes de avistar o lado positivo das situações, pois só conseguem enxergar dificuldades e obstáculos, sem atinar que  se tratam de recursos oportunos utilizados pela Providência Divina em nosso próprio benefício.

Ao citar enganos e fantasias que se tornam constantes na vida dessas pessoas, o Sr. Bacelar me fez recordar da preleção do instrutor Eusébio: “As facilidades concedidas aos espíritos santificados, que admiramos, são prodigalizadas a nós, por Deus, em todos os lugares. O aproveitamento, porém, é obra nossa. As máquinas terrestres podem alçar-vos o corpo físico a consideráveis alturas, mas o voo espiritual, com que vos libertareis da animalidade, jamais o desferireis sem asas próprias. (…) Não cobiceis o repouso das mãos e dos pés; antes de abrigar semelhante propósito, procurai a paz interior na suprema tranquilidade da consciência. Abandonai a ilusão, antes que a ilusão vos abandone.”[3]

E quanto ao desculpismo? O distinto Sr. Bacelar também nos chama a atenção para isso. Quantas pessoas alegam falta de tempo ou de condições, sejam lá quais forem, para abraçar uma atividade na seara
do Cristo? Quantas ponderam em relação a inadiáveis compromissos familiares ou profissionais, nem sempre verídicos, para fugirem do trabalho no bem? Quantas até inventam enfermidades para se verem livres das tarefas de luz? O contingente não é pequeno, lamentavelmente. O que precisamos fazer é nos organizarmos, sermos disciplinados e definirmos as prioridades de nossas vidas. Esse trio, organização + disciplina + prioridades, nos colocará no caminho que conduz à seara de Jesus. Para finalizar, devolvo a palavra ao Sr. Bacelar: “Nesse terreno de assistência espiritual, verão, um dia, quantos pretextos são inventados pelas criaturas terrestres para fugir ao testemunho da verdade divina, nas tarefas que lhes são próprias. Os mordomos da responsabilidade alegam excesso de deveres, os servidores da obediência afirmam ausência de ensejo. Os que guardam possibilidades financeiras montam guarda ao patrimônio amoedado, os que receberam a bênção da pobreza de recursos monetários aconselham-se com a revolta. Os moços declaram-se muito jovens para cultivar as realidades sublimes, os mais idosos afirmam-se inúteis para servi-las. Os casados reclamam quanto à família, os solteiros queixam-se da ausência dela. Dizem os doentes que não podem, comentam os sãos que não precisam. Raros companheiros encarnados conseguem viver sem a contradição.”[1] Em outras palavras, o desculpismo é indesculpável! Avaliemos nossa conduta perante os convites que o Mestre nos envia.

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 28 (Vida social).
[2] Evangelho Segundo Mateus 9:37-38.
[3] No Mundo Maior – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por
Francisco Cândido Xavier – capítulo 2 (A preleção de Eusébio).

Sobre o falar

[…] Pois a boca fala do que está cheio o coração. Jesus em Mateus 12:34.

A linguagem humana é singular, posto que nos permite consumir, armazenar e comunicar uma quantidade extraordinária de informação sobre o mundo à nossa volta. Estas características foram fundamentais para o avançar do Homem ao longo da história. A voz é um dos meios de comunicação do indivíduo com o exterior, forma importante de contato com seus semelhantes, estando diretamente influenciada pelo estado emocional do indivíduo, ou seja, quando estamos contentes e seguros temos um tom de voz diferente de quando estamos tristes, ansiosos ou nervosos.

Como espíritos em caminho evolutivo, sob o roteiro do Mestre Jesus, é fundamental observarmos como falamos, do que falamos e em que tom nos expressamos, pois, a palavra, em si, é neutra, mas está sempre sujeita à intenção de quem a pronuncia: harmonizar ou degradar. É força poderosa porque plasma as ideias transmitidas pelo pensamento. Falando sobre a saúde física e mental, em página ditada ao Chico Xavier, o espírito Joaquim Murtinho, ex-senador do Brasil, diz: “Se o homem compreendesse que a saúde do corpo é o reflexo da harmonia espiritual…

A palavra agradável que proferimos ou recebemos, as manifestações de simpatia, as atitudes fraternais e a compreensão sempre disposta a auxiliar, constituem recursos medicamentosos dos mais eficientes, porque a saúde, na essência, é harmonia de vibrações.” Lembremo-nos irmãos que a pedagogia espírita é baseada no amor e devemos estar atentos ao nosso falar, pois a palavra pode ser arma de destruição, de desalento ou bálsamo para dores e estímulo para vidas. Nesse sentido, Emmanuel nos esclarece na obra Agora é o Tempo, psicografia de Chico Xavier: “Decerto, tens o direito de discordar, de repelir cortesmente essa ou aquela opinião, de divergir de alheios pontos de vista, de seguir em caminhos diferentes daqueles que se te proponha. Em qualquer circunstância, porém, não te esqueças de que os opositores são filhos de Deus tanto quanto nós, sempre credores de nosso respeito e consideração.”

No caminho de nossa evolução, passando pela esquina do autoconhecimento, uma boa sugestão é cuidar da forma como ouvimos o próximo, aquele que pensa igual, mas também o que pensa diferente, respondendo a todos com respeito, sem semear discórdias, calando, se necessário, para não ferir ou ofender. Desta maneira, vigiando, orando e trabalhando na doma do orgulho e da vaidade estaremos no caminho da paz interior.

Letícia Schettino

Perdoar sempre

Escrever sobre o perdão é sempre um desafio a mais. Talvez porque perdoar não seja tão fácil quanto parece, mas é ao mesmo tempo, uma das ações mais meritórias e enobrecedoras para nosso espírito imortal. Sim, perdoar é o remédio santo. Perdoar àqueles que Deus colocou em nosso caminho e se tornaram instrumento de sofrimento em nossas vidas requer esforço individual. Temos duas opções: perdoar agora, enquanto estamos a caminho com o ofensor e darmos um passo importante rumo à nossa evolução; ou esperar que o tempo passe… adiando o trabalho que nos cabe, aguardando uma nova oportunidade que pode nos custar uma longa espera em séculos de dores prolongadas sem necessidade.

Muitas pessoas já reconheceram em suas mentes inteligentes a necessidade de se perdoarem umas às outras. Concordam plenamente que o perdão traz benefícios para quem o pratica, e algumas até se sentem incomodadas pelo fato de ainda não conseguirem realmente perdoar. Porque lá no “ fundinho” do coração, elas guardam suas mágoas, rancores, amarguras e ressentimentos. A razão não conseguiu convencer o coração a perdoar. E ele continua pesado, oprimido. O que fazer então? Não desanimemos! Quem já entende que deve perdoar já deu o primeiro passo para conseguir. O próximo passo é começar a transformar o sentimento que nos algema à pessoa, que tira nossa vitalidade, nossa alegria de viver, e inclusive, pode até nos adoecer. É uma atitude de auto-enfrentamento na arena do nosso íntimo, onde as feras são o egoísmo, o orgulho e a vaidade que ainda habitam em nós. Na verdade, não queremos olhar para esses sentimentos porque pensamos que eles nos protegem, mas são eles que alimentam a mágoa e o rancor. Quando remoemos constantemente o mal que nos fizeram e guardamos ressentimentos é porque nossa afetividade está egoísta. Demonstra que estamos tendo tanto zelo por nós mesmos que nos apegamos a esse sentimento exacerbado de bem próprio de tal forma que temos que ressentir indefinidamente o momento em que ele foi abalado. Isso não é amor próprio. Olhamos o tempo todo prá nós mesmos, concentrando a energia que nos sobrou para rememorar o passado, os acontecimentos infelizes e a pessoa que nos prejudicou de alguma forma. Enquanto isso nossa vida está passando e não realizamos aquilo que viemos realizar em nossa trajetória evolutiva.

Perdoar não significa concordar com a atitude errada do ofensor. E nem significa que o nosso perdão vai corrigir quem nos prejudicou, porque quem corrige são as leis divinas. O perdão vai nos libertar, vai regenerar a parte “ferida” que sobrou de nós e vai nos dar força para reconstruir e seguir em frente, não permitindo que ninguém nos tire o dom de renovar a própria vida.

Não podemos esperar que de repente iremos perdoar. O perdão não acontece como num passe de mágica. Precisamos começar a abrir o coração e teremos que fazer força porque ele vai estar fechado, talvez endurecido , traumatizado ou ferido. No início, comecemos por obrigação, porque somos cristãos e é incoerente ser cristão e não perdoar. Até que um dia isso se torne um ato espontâneo, como um hábito mesmo e assim seremos capazes de perdoar sem fazermos esforços.

Lembremos dos ensinamentos de Cristo em Mateus 5:38-42, no ESE, Cap.XII “Amai os vossos inimigos” – “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal que vos querem fazer; que se alguém vos bater na face direita, lhe apresente também a outra, e que se alguém quiser pleitear contra vós, para vos tomar a túnica, também lhes entregueis o manto; e que se alguém vos obrigar a caminhar mil passos com ele, caminheis mais dois mil.”

Comecemos agora a tolerar mais, a suportar mais um pouco. Jesus nos fez a proposta de doar sempre um pouco mais. Quando perdoamos, nós, de fato, doamos mais além, doamos uma parte de nós a quem nos ofendeu. Doamos o que há de melhor em nós, e até então, não sabíamos, pois essa virtude só se desabrocha no ato de perdoar. E nós, realmente, só possuímos o que doamos. Portanto, aceitemos o convite do Cristo para “caminhar” mais, “apresentar” mais e “entregar” mais.

Ainda em Mateus, Cap.198, v.21 a 22 – “Então, aproximando-se Pedro, disse-lhe: Senhor, quantas vezes meu irmão pecará contra mim e o perdoarei? Até sete vezes? Jesus lhes diz: não te digo que até sete vezes, mas até setenta (vezes) sete”.

Quantas vezes já perdoamos o nosso próximo? Quantas ainda faltam para perdoar? Pense agora em alguém que você já entendeu que precisa perdoar. Visualize seu rosto. Olhe nos seus olhos. Só de pensar seu coração bate diferente. Uma dor pungente te visita como se espinhos cravassem nas fibras mais íntimas do seu coração? Então, é hora de buscar Jesus para te socorrer. Nesse momento, uma luz resplandecente ilumina todo o ambiente e você sente as vibrações de amor vindo em sua direção. Um bem estar, uma plenitude toma conta do seu ser ao fitar o mestre. Aqueles olhos mansos e misericordiosos de Jesus te transmitem tudo o que você precisa para começar a perdoar. Sua respiração agora está calma e seu coração leve e sereno. Cristo se aproxima e ergue suas mãos em sua direção. As chagas te fazem lembrar da cruz. Nesse momento, você recorda que Ele foi traído por um amigo e negado por outro. Você vai se aproximando e estende sua mão direita a Ele. De mãos dadas a Cristo, uma força incrível se apodera de você. Você percebe que Cristo convida a pessoa que você precisa perdoar para se aproximar . Você oferece sua mão esquerda a essa pessoa e juntos, vocês três formam uma roda Crística. É um momento de entrega. Entregue suas dores, mágoas, angústias, desilusões, ressentimentos, ao médico das almas. É um momento de revitalização. Ele veio para curar suas feridas.

Lembremos agora de como a literatura espírita pode nos ajudar nesse sentido. No maravilhoso livro Renúncia, de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier, Alcione, um espírito da mais alta envergadura, ensina-nos a enfrentar todas as dificuldades e dores da vida, amando, perdoando, tolerando e compreendendo sempre, com o coração entregue a Jesus. Que possamos guardar pra sempre suas sábias recomendações: “Deixe que as mãos de Cristo tracem o roteiro para seguirmos em frente. Não podemos enfrentar as penas do mundo sem o Cristo. Viemos para a terra para adquirir ou provar alguma virtude. É imprescindível buscar a companhia do Divino amigo para sermos socorridos a tempo. Jesus tem sempre uma palavra luminosa para cada situação, uma energia inspiradora a cada momento mais amargo, desde que lhe busquemos o socorro divino.”

Adriana Souza

Assistência espiritual aos encarnados

Conforme informou Aniceto, o senhor Bacelar era o chefe de turmas de assistência aos encarnados. Como possuía vasta experiência no assunto, se dispôs, gentilmente, a dividir seus conhecimentos com André Luiz e Vicente, utilizando símbolos pertinentes à medicina, já que ambos foram médicos na Terra. Disse ele: “(…) Recorde os seus doentes comuns. Muito raramente lembram a medicina preventiva. De modo quase invariável, esperam a positivação das moléstias para buscarem o recurso preciso. Necessitam de anestésicos para o socorro do bisturi. Fogem ao regime tão logo surja a primeira melhora. Confundem o método de tratamento, apenas se registre o primeiro sinal de cura. Detestam a dor que restabelece o equilíbrio. Descontentam-se com a indicação de purgativos. Preferem a medicação de sabor agradável. E, sobretudo, quase sempre querem saber muito mais que os médicos. Esta síntese aplicável a corpos doentes representa, em nosso campo de serviço, o resumo do programa de assistência aos Espíritos enfermos, encarnados na Terra, e com agravantes de vulto, porque, em nosso setor, não podemos manipular a alma, à maneira do cirurgião que opera as amídalas. Somos forçados à preparação do campo mental conveniente, a proceder à semeadura de pensamentos novos, velar pela germinação, ajudar os rebentos minúsculos e aguardar a obra do tempo. Nossa luta não é simples, porque, se o clínico do mundo encontra sempre familiares amorosos, dispostos a cooperar com ele em benefício do doente, o que encontramos, por nossa vez, são enormes legiões de elementos adversos à nossa atividade restauradora e curativa. Em geral, o médico do mundo presta socorro a quem deseja recebê-lo, pelo menos nas ocasiões de graves perigos; nós, porém, meus amigos, muitas vezes temos de prestar assistência aos que não a desejam, por viverem sob véus de profunda ignorância”. [1]

Diante desse relato podemos ter uma pálida ideia do trabalho que damos aos Espíritos amigos. É excelente a comparação das dificuldades encontradas nas atividades de auxílio ao homem terrestre com o desleixo que a maioria dos encarnados tem em relação à medicina preventiva. Infelizmente, uma parte imensa da humanidade se comporta realmente dessa forma. Enquanto não apresentamos problemas de saúde, menosprezamos tudo que diz respeito aos cuidados que devemos ter para com nosso corpo físico. E mesmo quando estamos doentes, abandonamos o tratamento salutar tão logo se manifestem quaisquer sinais iniciais de melhora. Fatalmente, a moléstia retornará depois, com maior gravidade.

Do ponto de vista da assistência dos Espíritos aos encarnados a situação é deveras semelhante. Quase sempre não nos dispomos aos estudos e trabalhos renovadores e edificantes na seara do amor. Se estamos bem, para que se importar com assuntos de ordem espiritual? Se temos saúde, uma boa condição econômica e financeira e um emprego estável, por que nos importarmos com as questões da alma? Entretanto, esses pensamentos costumam passar por profundas modificações quando as dificuldades batem à nossa porta: uma enfermidade grave, um revés financeiro, a perda do trabalho, etc. Em verdade, essas dificuldades são oportunidades que o Pai Celestial nos concede para evoluirmos e faz com que nos voltemos para questões que transcendem o mundo carnal. Via de regra, quando o material vai mal, o homem busca o espiritual. A grande pergunta é: precisa ser assim? E a resposta é por demais óbvia: é claro que não. Ninguém precisa sofrer para se dedicar a mitigar o sofrimento alheio. Ninguém precisa se debater na incompreensão para buscar as luzes do conhecimento espírita-cristão. Ninguém precisa amargar uma existência de dor para perceber que outras pessoas vivem com dores assaz maiores e que, ainda assim, muitos destes levam a vida de forma mais leve, exalando fé e paz, luz e discernimento. Os homens parecem preferir o sofrimento para crescer, olvidando os abundantes convites do Criador para que progridam por amor.

No entanto, a Providência Divina é tão maravilhosa e exultante, que mesmo quando optamos pela ignorância, pela inércia e por tudo que lhes são consequentes, Deus permite à Espiritualidade Amiga vir ao nosso socorro. Esses abnegados companheiros espirituais fazem de tudo para nos tirar do lamaçal em que nos chafurdamos por escolha própria. Porém, para que a empreitada alcance o sucesso esperado é imprescindível que façamos a nossa parte e que queiramos, de fato, sermos auxiliados, reconhecendo e lutando para vencer nossas mazelas. A vida na Terra é feita de escolhas e consequências, e a quantidade dos que sofrem é imensa, mas ainda são poucos os que se dedicam ao amparo fraterno. Por isso, quando perguntado por Aniceto sobre como estava o serviço, o senhor Bacelar respondeu: “Bem, sempre bem. Apenas não podemos fixar demasiada atenção nos companheiros encarnados. (…) É indispensável aprender a servir e passar”.[1] Os Espíritos não fazem o trabalho que nos compete. Eles amparam e orientam, servem e passam, pois o labor com o Cristo é ininterrupto, dinâmico e intenso.

Valdir Pedrosa
[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por
Francisco Cândido Xavier – capítulo 28 (Vida social).

Amar os diferentes

O amor a Deus pressupõe respeitar o mundo e os diferentes seres que Ele criou. O Espírito Emmanuel nos esclarece que é necessário “trazer o coração sob a luz da verdadeira fraternidade, para reconhecer que somos irmãos uns dos outros, filhos de um só Pai”. Repensemos, à luz da abençoada Reencarnação, a nossa postura com relação à família e aos com quem convivemos.

O Evangelho segundo o Espiritismo trata, no Capítulo XIV, sobre a parentela corporal e a parentela espiritual. Somos filhos de um grupo consanguíneo, de um grupo genético, nossa parentela corporal, biológica. Nos reencontramos para experiências. Pode ou não haver afinidades entre os membros desta família, mas sempre há a necessidade de ajustes dos desacertos de outras vidas, para que possamos todos progredir.

Entretanto, existe uma família muito maior do que a corporal, ao nosso redor ou distante de nós, que é a nossa família espiritual. Nessa estão as criaturas próximas da nossa frequência interior, são almas a que nos ligamos por afinidades, não obrigatoriamente porque tenhamos vivido no passado, mas porque temos ideais semelhantes, porque temos os mesmos gostos para as coisas.

Certo é que, sob a luz do Evangelho do Cristo, podemos rever crenças e valores, desenvolver talentos adormecidos, nos dedicando com esforço e disciplina aos desafios no lar, no trabalho e em qualquer parte onde haja oportunidade de servir nossos parentes da carne ou do espírito.

É tempo de intensificar o afeto aos antipáticos, aos que nos são indiferentes e de tolerar os que nos causam aversão. Como? Jamais emitindo pensamentos ruins e muito menos tendo atitudes negativas para com eles. Procuremos de início estabelecer a simpatia para, logo mais, amá-los efetivamente, conforme a recomendação do Cristo. Para quem busca amar verdadeiramente ao próximo, nos termos da proposta de Jesus, cabe ainda refletir sobre o trabalho interior de recuperação. Segundo o Espírito Ermance esse trabalho íntimo é um resultado de três ciclos que amadurecem a nossa experiência emocional e psíquica. O 1º: o autoconhecimento; o 2º: a autotransformação; o 3º: o autoamor.

A sugestão é começar, o quanto antes, a cuidar do enfermo que está dentro de cada um de nós, promovendo-nos à condição de saudáveis filhos de Deus. Buscar na reflexão conhecer e enfrentar o nosso sombrio, orar pedindo coragem para nos desfazer de velhas ilusões, nos afastar das mágoas, das culpas e dos medos paralisantes, abrindo portas para o novo, para a fraternidade, para a compaixão e a caridade.

Letícia Schettino

Alan Kardec: Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XIV, item 8. Espírito Emmanuel: Fonte viva, Cap. 159/ Vida e Sexo, Cap. 2. Psicografia de Francisco C. Xavier. Espírito Ermance Dufaux: Emoções que Curam. Psicografia de Wanderley Oliveira.

Vida social no Posto de Socorro

A vida no Posto de Socorro não se resume apenas às atividades socorristas. Conta-nos André Luiz que, certa noite, Ismália e Alfredo receberam visitantes oriundos da colônia “Campo da Paz”, a qual o Posto era vinculado. “Temos, também, aqui, a nossa vida social. Como não? É preciso saber viver”[1], disse Alfredo. Naquele instante, chegava o casal Bacelar e suas duas filhas em uma carruagem confortável, semelhante as utilizadas no tempo de Luís XV, puxada por dois belos cavalos brancos. Ismália estava contentíssima com a visita e expediu convites afetuosos para que algumas famílias do Posto comparecessem ao castelo, a fim de participarem da seleta reunião.

Ao contrário do que se pode pensar, existe vida social no plano espiritual e, em muitos casos, é intensa. No livro Nosso Lar temos informações sobre eventos que ocorrem no Bosque das Águas e no Campo da Música, por exemplo. Os Espíritos superiores nos ensinam que “Deus fez o homem para viver em sociedade. Não lhe deu inutilmente a palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida de relação”. Aprendemos que o insulamento absoluto é contrário à lei da Natureza, “pois que por instinto os homens buscam a sociedade e todos devem concorrer para o progresso, auxiliando-se mutuamente”. E concluem dizendo que “o homem tem que progredir. Insulado, não lhe é isso possível, por não dispor de todas as faculdades. Falta-lhe o contato com os outros homens. No insulamento, ele se embrutece e estiola”. [2] Não importa onde estejamos, seja no plano físico ou no plano espiritual, sempre precisaremos uns dos outros. A evolução, em si, é individual, entretanto, por mais paradoxal que possa parecer, ninguém evolui sozinho. A troca de conhecimentos e experiências, bem como a permuta de sentimentos e pensamentos, não poderiam ocorrer se vivêssemos de forma isolada.

Outro ponto que nos chama atenção é quanto à aparência dos visitantes. “O chefe do grupo mostrava idade avançada, revelando, porém, excelentes disposições. A senhora dava impressão de madureza, aparentando, contudo, maravilhosa vivacidade, assim como as duas moças”. [1] Temos aí mais uma confirmação dos ensinamentos da Doutrina Espírita, que nos esclarece que, dependendo da vontade e da condição evolutiva do Espírito, ele mantém na dimensão extrafísica a aparência que melhor lhe convém. Por isso nos deparamos com relatos a respeito de entidades que se apresentam com o visual de veneráveis anciões, como também de outras que preferem se mostrar com feições mais jovens. Há igualmente aqueles que exibem aparências que tiveram em reencarnações passadas, além daqueles outros que preferem manter o visual de sua última passagem no orbe terrestre.

Por fim, e não menos importante, destacamos a seguinte passagem: “A alegria era enorme. Não se observava qualquer nota de convencionalismo menos digno, como na Terra. Os gestos de cada um, a simplicidade, a despreocupação e as frases afetuosas demonstravam sinceridade pura. Permanecíamos num quadro social inacessível ao fingimento”. [1] Infelizmente são comuns no mundo carnal relacionamentos que não são baseados na sinceridade e afeição recíprocas. Em vários nota-se a presença de venenos morais como a mentira e a falsidade, acrescentando o que chamamos de convencionalismo social, que nada mais é do que padrões comportamentais normalmente aceitos pelo senso comum, mas que, dependendo do caso, tornam a relação fria e desprovida de naturalidade.

Aqui na Terra, em função do grosseiro corpo físico de que dispomos, conseguimos sem muito esforço esconder nossas reais intenções no convívio com as pessoas que nos cercam. Todavia, o mesmo não ocorre na dimensão espiritual. Lá, desprovidos da vestimenta carnal, utilizamos o perispírito, um corpo de energia mais sutil, diáfano, no qual se reflete a intimidade de cada um. Além disso, existem Espíritos com capacidade de ler os pensamentos facilmente. Percebe-se, assim, que nestes ambientes é impossível disfarçar o que sentimos. Não há espaço para falsidade no trato com os outros. A mentira é algo em extinção. André vivenciou momentos felizes ao presenciar cenas sem fingimento de qualquer natureza, onde reinavam a simplicidade, a afeição e a sinceridade.

Aliás, me lembrei de um comentário do nosso amigo espiritual, quando acompanhava o velório de um homem chamado Dimas. Em meio ao falatório desenfreado dos presentes, André disse que “(…) no estado atual da educação humana é muito difícil alimentar, por mais de cinco minutos, conversação digna e cristalina, numa assembleia superior a três criaturas encarnadas”. [3] Destarte, torna-se urgente nossa reforma moral, nos educando de modo a adequar o discurso à ação, saindo do campo teórico para a vivência prática. Já sabemos o que precisamos fazer. O que falta é fazer.

 

Valdir Pedrosa
[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 28 (Vida social).
[2] O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – 3ª parte – capítulo VII (Da lei de sociedade) – questões 766 a 768.
[3] Obreiros da Vida Eterna – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 14 (Prestando assistência).

 

O egoísmo, o orgulho e o bem

Em o livro dos Médiuns, Kardec pergunta aos espíritos orientadores quais as condições para que as comunicações mediúnicas cheguem puras, sem alterações, e recebe como resposta que os médiuns devem superar o egoísmo e o orgulho. Devem acima de tudo desejar e praticar o bem. Reflitamos: Ao egoísmo, se opõem as virtudes da justiça e da generosidade. Praticar a justiça, segundo o Evangelho, requer a compreensão da lei de igualdade: somos diferentes, singulares e devemos tratar cada irmão nos lembrando dessa realidade. Somos irmãos e a fraternidade é o amor que considera a lei da igualdade que respeita as diferenças. As diferentes formas de preconceito são expressões do egoísmo.

O orgulho decorre da ilusão provocada pelo egoísmo que nos leva a acreditar que essa nossa personalidade temporária é muito importante, especial e superior aos demais com quem convivemos e interagimos. Como seres em evolução essa é apenas mais uma encarnação para vencermos nossas imperfeições. Ao orgulho se contrapõe a humildade. Emmanuel nos ensina que ser humilde é reconhecer seu lugar na criação e agir colaborando para a realização da obra maior de Deus. Somos parte de uma engrenagem e cada peça tem seu valor específico. Quando aceitamos essa realidade praticamos a humildade agindo com consciência.

O amor, segundo Joanna de Ângelis, se multiplica quanto mais se divide quanto mais se doa. Fazer o bem é exercitar esse amor, doando do que somos, do que temos e do que detemos temporariamente. Esse é o caminho para superar o egoísmo e o orgulho.

Ao médium, sobretudo, cabe elaborar uma nova consciência de si mesmo como ser em evolução ainda imperfeito, mas se usar a sua vontade com método e disciplina será a cada dia um instrumento melhor para servir ao Cristo.

Lúcia Elena

Um monstro chamado calúnia

Por definição, calúnia é a afirmação falsa e desonrosa a respeito de alguém. Este foi o grande mal praticado por Paulo em sua última encarnação. Ele se encontrava enfermo nas câmaras do posto de socorro da colônia espiritual “Campo da Paz”. Concentrando a capacidade ampliada de visão no doente, André Luiz e Vicente tiveram mais uma importante experiência de aprendizado, supervisionados pelo distinto Aniceto.[1]

Penetrando a tela mental de Paulo, observaram quadros sombrios com diversos vultos se movimentando, principalmente de mulheres. Dentre eles, chamava atenção o de Ismália aparentando estar ansiosa e com a saúde debilitada. Perceberam alguns vultos masculinos evidenciando desespero. No meio deles, identificaram o de Alfredo, marido de Ismália e administrador do posto de socorro, demonstrando cansaço e prematura velhice. Foi possível ouvir maldições e blasfêmias proferidas por vozes misteriosas contra Paulo. Enquanto as mulheres lhe acusavam, os homens agiam como algozes implacáveis dentro da intimidade do enfermo.

André e Vicente se mostraram surpresos pela presença de Ismália e Alfredo naquelas imagens mentais. Foi então que Aniceto explicou que Paulo era o falso amigo que havia lhes arruinado o lar.[2] Além disso, o infeliz companheiro, ali diante deles, cometeu não só a ingratidão, mas também instilou o veneno da calúnia no espírito de várias senhoras, bem como traiu a confiança de outros amigos e arrasou a paz de diversos lares. Segundo o mentor espiritual “o criminoso nunca consegue fugir da verdadeira justiça universal, porque carrega o crime cometido, em qualquer parte. Tanto nos círculos carnais, como aqui, a paisagem real do Espírito é a do campo interior. Viveremos, de fato, com as criações mais íntimas de nossa alma.”[1]

Nas recordações de Paulo, as imagens de Alfredo em pleno desespero e de Ismália aflita, criadas pelo próprio caluniador, constituíam-lhe uma verdadeira punição, pois embora o casal já houvesse superado o lamentável episódio, ele ainda se consumia nas labaredas da consciência culpada. Mais uma vez, Aniceto esclarece: “Para melhor elucidação, recordemos a crucificação do Mestre Divino. Sabemos que Jesus penetrou na glória sublime logo após a suprema dor do Calvário; entretanto, estamos ainda a vê-lo frequentemente pendurado na cruz, martirizado pelos nossos erros, flagelado pelos nossos açoites, porque a visão interior a isso nos compele. A condenação do Mestre foi um crime coletivo e esse crime estará conosco até ao dia em que nos vestirmos na divina luz da redenção. (…) O dever possui as bênçãos da confiança, mas a dívida tem os fantasmas da cobrança.” [1]

É importante frisar que Alfredo, sentindo a necessidade de disciplinar o campo do sentimento, levou Paulo ao posto de socorro para ser amparado. Desencarnado com muito ódio, o marido de Ismália muito sofreu em seus primeiros tempos no Além, não obstante a dedicação da esposa. Posteriormente, desvencilhado das vibrações de rancor e já amparado em “Campo da Paz”, caiu em si e compreendeu suas necessidades de aperfeiçoamento moral. Conquistando méritos aos poucos, logo intercedeu por Paulo, buscando-o nos abismos do umbral. Hoje, trata-o como irmão. Aniceto destaca, porém, que a vitória espiritual de Alfredo foi conquistada à custa de muito trabalho e renúncia. “Nos primeiros tempos, aproximava-se do enfermo como necessitado de reconciliação; depois, como pessoa caridosa; mais tarde adquiriu entendimento, comparando situações; em seguida, sentiu piedade; logo após, experimentou simpatia e, presentemente, conquistou a verdadeira fraternidade, o amor sublime de irmão pelo ex-inimigo.”[1]

Por fim, Vicente perguntou se Paulo ficaria no posto indefinidamente. Aniceto disse que o caluniador voltaria em breve ao planeta pela reencarnação. “Ismália tem feito a seu favor inúmeras intercessões e não deseja que ele, ao retomar a razão plena, se sinta humilhado, com o beneficio das próprias vítimas. Uma das irmãs, por ele caluniada no mundo, já voltou ao círculo carnal, e a abnegada esposa de Alfredo pediu-lhe que recebesse Paulo como filho, tão logo seja oportuno.”[1] No caso em tela, percebemos o quanto a calúnia é prejudicial à nossa evolução. Seus efeitos repercutem mesmo depois do desencarne e, em muitas situações, após grande período de perturbação, apenas a benção da reencarnação é capaz de devolver o equilíbrio e a harmonia a quem caluniou.

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 27 (O caluniador).
[2] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 17 (O romance de Alfredo).