Visão e julgamento

Dentro do pavilhão onde se localizavam os Espíritos que dormiam, Aniceto convocou André Luiz ao trabalho: “Você, André, examine detidamente essa irmã. Abstenha-se de todas as considerações do plano exterior. Observe-a com todas as possibilidades e percepções ao seu alcance. ” [1] A pobre alma a sua frente se chamava Ana e, ao perscrutar – lhe a casa mental, descobriu que ela foi a autora de um crime brutal, com requintes de crueldade.

Diante de sua visão espiritual desfilavam cenas horríveis e angustiantes ocorridas em modesta residência localizada em humilde cidade. Dentro da casa, aquela mulher de idade madura e com maldade impassível estampada no rosto, lutava contra um homem bêbado. Ciente de que tinha sido envenenado por meio de bebida mortal, o ébrio chorava copiosamente e pedia perdão. Por piedade, solicitava que não fosse morto, evocando a necessidade de cuidar dos filhos. Ana, completamente transtornada, respondeu com frieza inabalável: “Morrerás mesmo assim. Tenho a infelicidade de amar-te, a ti que pertences a outra mulher! Não quiseste seguir-me e preciso vingar-me! ” [1] subitamente, ela assassinou o companheiro com marteladas no crânio. Não satisfeita, transportou o corpo em um carrinho de mão e o colocou na via férrea. Depositou o cadáver sobre os trilhos, cuidando para que a cabeça fosse decepada quando o trem passasse. Era noite muito escura e não houve testemunhas. A seguir, o amigo espiritual testemunhou a assassina ser cercada por seres que se assemelhavam a verdadeiros bandidos de vestes negras. Agora era a desventurada irmã quem gritava, parecendo estar embriagada de pavor. Acabou vencida por Espíritos tão perversos quanto si mesma, completamente abatida pela loucura incontrolável.

André Luiz teve um primeiro impulso de revolta em razão do crime cometido. Porém, recordou as lições que já havia recebido na colônia “Nosso Lar” e dedicou à desventurada irmã toda a sua compaixão. Aniceto externou sua satisfação com a postura do discípulo: “Estou satisfeito. Seus pensamentos de fraternidade e paz muito auxiliaram essa irmã infeliz. Guarde a certeza disso e continue buscando a compreensão para socorrer e ajudar com êxito. (…) não precisamos comentar qualquer episódio dessas existências vividas em oposição à Vontade Divina. Bastará lembrar sempre que a dívida, em toda parte, anda com os devedores. ” [1]

E se fôssemos nós no lugar de André? Será que a nossa visão do ocorrido guiar-nos-iam na avaliação do fato? E quanto ao que temos aprendido com o Espiritismo? Como conciliar o que vemos, o que sentimos, o que pensamos e o que devemos fazer? Ante uma atrocidade tão monstruosa como essa, emitiríamos bons pensamentos e sentimentos em favor da irmã desequilibrada ou será que partiríamos imediatamente para o julgamento, condenação e execução? Se aquela mulher fosse nossa mãe, esposa ou irmã, não faríamos tudo ao nosso alcance para ajudá-la? Como poderíamos assumir as funções de juiz e executor se não estávamos a par de seu histórico ou ficha espiritual? Não saberíamos sequer dizer se ela recebeu educação conveniente, se teve um lar digno ou afeições sinceras. Como julgar sem estar de posse do processo completo, sem conhecer toda a história, sem levar em conta as atenuantes e agravantes do caso? O que vítima e verdugo tinham em comum? Onde, como e porque teria começado aquele drama tão doloroso para ambos? Como avaliar o quadro obsessivo em que se encontravam? Jesus ensinou: “A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo teu corpo terá luz; se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes são tais trevas! [2] (…) não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgais, sereis julgados; e com a medida com que medis vos medirão a vós. ” [3]

Hoje, perante a imagem de um irmão precisando de auxílio, seja ele criminoso ou vítima, como temos nos portado? Que tal relermos a parábola do bom samaritano [4] e meditarmos nos ensinamentos nela contidos? O Cristo, assim como o Espiritismo, não quer que sejamos exímios observadores da vida alheia e nem juízes implacáveis, mas sim pessoas que praticam a verdadeira caridade – “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas. ” [5]… Desta forma, façamos o bem sem olhar a quem, despidos de qualquer sentimento de preconceito e sem nos arvorarmos em paladinos da justiça.

Valdir Pedrosa

[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 23 (Pesadelos).

 [2] Evangelho Segundo Mateus 6:22-23.

 [3] Evangelho Segundo Mateus 7:1-2.

[4] Evangelho Segundo Lucas 10:25-37.

[5] O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – 3ª parte – cap. XI (Da Lei de Justiça, de Amor e de Caridade) – questão 886.

Mediunidade de efeitos físicos e cura espiritual

A mediunidade de efeitos físicos é definida por Kardec como uma mediunidade que se manifesta por efeitos sensíveis, tais como ruídos, movimentos e deslocamento de corpos sólidos. Umas são espontâneas, isto é, independem da vontade de quem quer que seja; outras podem ser provocadas. O efeito mais simples, e um dos primeiros que foram observados, foi o movimento das mesas chamadas posteriormente de “mesas girantes”. De uma ou outra forma, para que o fenômeno se produza, é necessária a intervenção de um ou mais pessoas dotadas de especial aptidão denominadas médiuns de efeito físicos.

Mas como pode um Espirito produzir o movimento de um corpo solido?

Essa foi exatamente a pergunta formulada por Kardec aos Espíritos que assim a responderam: “Combinando uma parte do fluido uni- versal com o fluido, próprio àquele efeito, que o médium emite”¹. A análise da resposta nos permite compreender que médiuns de efeitos físicos são os médiuns que possuem facilidade de desprender o fluido animalizado o qual o fenômeno requer. Para distinguir a ação puramente magnética da mediunidade de cura, Kardec explica que todo médium curador é um emissor de fluido magnético, mas o que o torna médium é a sensibilidade para ser circundado por Espíritos que aumentarão a força magnética e a vontade de fazer o bem, dirigindo e modificando a propriedade do flui- do, o que o tornará capaz de trazer alivio ao doente ou até a cura.

E por falar em ampliação da força magnética, vale a pena refletir o papel dos Centros Espiritas no tratamento dos enfermos. O estudo sistemático das obras básicas e do evangelho, oferecido pelas casas espiritas bem orientadas, oferece recursos para que o trabalhador não apenas compreenda o mecanismo da mediunidade, como também imprima uma reforma moral capaz de lhe tornar apto à influencia de Espíritos superiores. Quando Kardec perguntou se “agiria com maior eficácia aquele que, tendo a força magnética, acre- ditasse na intervenção dos Espíritos?”², recebeu a surpreendente e inquietante resposta: “Faria coisas que consideraríeis milagre”.

É, parece que o tão desejado “milagre” mora bem próximo de nós, aguardando es- tudo, desprendimento material e amor incondicional ao próximo. Todos os dias estamos correndo o bendito risco de presenciar o milagre em nossas cabines de passe, nas visitas aos enfermos, nas salas de evangelização, nas palestras e até mesmo no culto cristão no lar. Pelo menos, do que depende do médium de efeitos físicos. Por que do outro lado, do ponto de vista do doente, existe uma outra condição tão necessária quanto a assistência dos bons Espíritos e a doação do fluido do médium. Essa condição é a transformação dos sentimentos do enfermo por meio de uma revolução na estrutura mental geradora dos pensamentos capaz de estabelecer um proposito real de vivenciar os ensinamentos do Cristo. E para isso, é bom recordá-Lo nos aconselhando: “A sua fé́ te curou. Vai e não peques mais”³.

Vinicius Moura

[1] KARDEC, A.O Livro dos Médiuns. 59a ed. Brasília: FEB, 1944,p.93.

[2] KARDEC, A.O Livro dos Médiuns. 59a ed. Brasília: FEB, 1944,p.218.

[3] Joao. 08:11.

Que despertas?

 “De sorte que transportavam os enfermos para as ruas e os punham em leitos e em camilhas para que ao menos a sombra de Pedro, quando este passasse, cobrisse alguns deles. ” – (Atos, 5:15.)

Ao comentar a passagem citada, o Espírito Emmanuel, por meio da mediunidade de Francisco Cândido Xavier, na lição nº 172, do livro “Pão Nosso”, intitulada “Que despertas? ”, nos convida a refletir no que estamos despertando no outro com a nossa presença.

O benfeitor espiritual Emmanuel nos afirma que “todos nós, através dos pensamentos, das palavras e dos atos, criamos atmosfera particular, que nos identifica aos olhos alheios”.

Quando o outro pensa em mim, o que será que lhe vem logo à mente?

Considerando nossos pensamentos, palavras, comportamentos e hábitos diários, como será que o outro nos vê? Quais seriam os sentimentos que eu tenho despertado naqueles que convivem comigo, seja no ambiente familiar, seja no local de trabalho, e até mesmo na casa espírita?

Segundo Emmanuel, o “conquistador de glórias sanguinolentas espalha terror e ruínas por onde passa. O político astucioso semeia a desconfiança e a dúvida. O juiz parcial acorda o medo destrutivo. O revoltado espalha nuvens de veneno sutil. O maledicente injeta disposições malignas nos ouvintes, provocando o verbo desvairado. O caluniador estende fios de treva na senda que trilha. O preguiçoso adormece as energias daqueles que encontra, inoculando-lhes fluidos entorpecentes. O mentiroso deixa perturbação e insegurança, ao redor dos próprios passos. O galhofeiro, com a simples presença, inspira e encoraja histórias hilariantes”.

O que semeamos e o que espalhamos diariamente em nossa vida e na vida do outro que convive conosco? Quais sentimentos eu tenho demonstrado no meu dia a dia? Otimismo? Paciência? Respeito? Compreensão? Afetividade? Tolerância? Gratidão?

Será que pelos nossos pensamentos, palavras e atitudes já somos identificados por aqueles que nos conhecem como seguidores e multiplicadores dos ensinamentos de Jesus?

Emmanuel esclarece que “a sombra de Simão Pedro, que aceitara o Cristo e a Ele se consagrara, era disputada pelos sofredores e doentes que encontravam nela esperança e alívio, reconforto e alegria”.

É interessante identificar na passagem a palavra “sombra”, que muitas vezes pode nos sugerir a ideia de escuridão, noite ou trevas, definições estas que, com toda certeza, não cabem na presente reflexão.

Podemos sim pensar no significado da palavra citada como projeção: a projeção do Apóstolo Pedro nas pessoas despertava esperança e alívio, reconforto e alegria. Pedro vivenciava verdadeiramente o Evangelho de Jesus e irradiava aos corações que dele se aproximavam vibrações de amor e compaixão, cuidado e entendimento.

Qual é a projeção da minha “sombra” no outro? Quantas pessoas tem buscado, na minha presença, uma palavra de alívio ou de consolo, um gesto de carinho, de compreensão, de cuidado? Conseguimos identificar nas outras estas necessidades? E se identificamos, nos esforçamos de alguma maneira, em oferecer aquilo que o outro precisa, sem críticas e julgamentos, segundo o que nos ensina o divino Mestre Jesus?

E Emmanuel nos recomenda, “examina os assuntos e as atitudes que a tua presença desperta nos outros. Com atenção, descobrirás a qualidade de tua sombra e, se te encontras interessado em aquisição de valores iluminativos com Jesus, será fácil descobrires as próprias deficiências e corrigi-las”.

Como é importante procurar nos examinarmos intimamente…examinar os nossos pensamentos, palavras e atos…. E não nos esquecer da vigilância e oração tanto recomendada por Jesus, em seu Evangelho de amor e redenção.

Como nos diz o Espírito Santo Agostinho, na questão 919 a, de O Livro dos Espíritos, “o conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do melhoramento individual. (…)

Quando estiverdes indecisos sobre o valor de uma de vossas ações, perguntais-vos como a qualificaríeis se fosse feita por outra pessoa. Se a censurais nos outros, não poderás ser mais legítima em vós… ”

Pode ser que aquele que está do nosso lado nesse momento esteja precisando de uma palavra amiga e consoladora, de uma melhor atenção, de um cuidado com mais carinho e respeito, de um abraço reconfortante, de um sorriso otimista e não estejamos vendo.

 Robert Gallas

Com o que você tem sonhado?

Ao adentrarem o local onde se encontravam quase dois mil Espíritos que dormiam com expressões dolorosas e terríveis, Aniceto esclareceu: “- Todos os que dormem nestes pavilhões permanecem dentro do mau sono. – Mas teremos, porventura, nas zonas espirituais, os que estejam em bom sono?- interrogou Vicente, de modo brusco. – Sem dúvida – respondeu Aniceto, solícito-, temos na esfera de nossas atividades os que repousam períodos curtos, quais trabalhadores retos que esperam o repouso noturno, com a tranquilidade dos que sabem trabalhar e descansar, de consciência aliviada. (…) Mas esses não precisam estacionar, como filhos da sombra, nas construções de emergência de um Posto de Socorro. (…) Quem dorme em desequilíbrio, entrega-se a pesadelos. Todos estes irmãos desventurados que nos cercam, aparentemente mortos, são presas de horríveis visões íntimas.”[1]

Sono é o estado em que cessam as atividades motoras e sensoriais e o corpo físico entra em repouso, ocorrendo desta forma o refazimento de suas forças. Nesse momento a presença do Espírito não é necessária e, em várias ocasiões, ele se afasta e age a distância do instrumento carnal, entrando em conexão com a dimensão espiritual. De acordo com o Espiritismo, enquanto dormimos a alma não repousa com o invólucro corporal e “o Espírito jamais está inativo. Durante o sono, afrouxam-se os laços que o prendem ao corpo e, não precisando este então da sua presença, ele se lança pelo espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos.”[2]

Martins Peralva[3] propõe a divisão dos sonhos em três tipos: os comuns são aqueles povoados de reminiscências dos fatos cotidianos que se fixam na mente. Às vezes são imagens caóticas e confusas que refletem a preocupação do indivíduo com o mundo material. Reflexivos são os sonhos nos quais mergulhamos mais profundamente em nossos registros de vidas passadas, revendo imagens ou situações que vivenciamos em outras reencarnações. Já os chamados sonhos espíritas são as lembranças de nossa vivência real no mundo dos Espíritos, o que ocorre devido ao desprendimento parcial que experimentamos durante o sono. São recordações de encontros, estudos e tarefas que participamos na esfera espiritual.[3]

É importante destacar que quando há condições do Espírito se libertar parcialmente do corpo físico pelo fenômeno do sono, ele entra em contato com regiões do plano extrafísico assim como com entidades com as quais se sintonize ou se afinize. Por causa disso destacamos a orientação de Aniceto, ao afirmar sabiamente que quem vive no desequilíbrio, entrega-se a pesadelos. Praticar e se comprazer no mal, alimentar maus hábitos e não se esforçar para melhorar espiritualmente, conduz o homem a uma existência que o distancia do bem, da luz, da paz e da verdade. Como consequência direta de seus atos e pensamentos, sua vida em estado de vigília estará sempre em desarmonia e, consequentemente, seus sonhos se transformarão em constantes pesadelos.

Enquanto o corpo físico dorme, nós, enquanto Espíritos imortais e temporariamente livres da matéria densa, podemos nos encontrar com entes queridos que já partiram para o Mais Alto, bem como receber consolo, esclarecimentos e orientações por parte dos mentores, guias e protetores espirituais. Havendo necessidade e merecimento recebemos tratamento para alguma enfermidade. Dependendo de nossa condição evolutiva é possível participarmos de estudos em colônias no Além e até mesmo de trabalhos em benefício de encarnados e desencarnados, seja no plano físico ou no espiritual.

Contudo, se permanecermos distanciados da prática dos ensinamentos do Cristo, não teremos essas oportunidades. Quando, e se conseguirmos nos desvincular do corpo de carne, seremos levados automaticamente a lugares tenebrosos do plano astral com os quais sintonizamos, em companhia de entidades infelizes que se afinizam com gostos e tendências que cultivamos. Podemos, inclusive, ter o convívio noturno com Espíritos sombrios que nos desejam o mal. Portanto, é preciso sublimar sentimentos, desejos, pensamentos e atitudes de acordo com os postulados do Espiritismo. Outrossim, alguns hábitos salutares auxiliam a termos bons sonhos, como por exemplo a prece e a leitura edificante. Deste modo, estaremos no céu durante o dia e alcançaremos o paraíso à noite; ou viveremos em trevas diariamente e teremos o inferno como companheiro noturno.
A escolha é de cada um.

Valdir Pedrosa
[1] Os Mensageiros – Pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier – capítulo 23 (Pesadelos).
[2] O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – 2ª parte – capítulo 8 – questão 401.
[3] Estudando a Mediunidade – Martins Peralva – capítulo 17 (Sonhos).

Convertido ao Cristo

Conversão. Eu não me recordo quando ouvi esse termo pela primeira vez. Creio que isso tenha ocorrido muito cedo, em um ambiente escolar, em uma aula de Língua portuguesa ou de Matemática. Mas também pode ter sido na aula de História ou até mesmo na de Química. O fato é que converter, e o substantivo conversão, estão muito presentes em nossas existências. Mais adiante, vim encontrá-los na Psicologia, nas bases do Direito e na Legislação de trânsito. De tão frequente, é possível traduzir a vida como uma sequência de conversões. Mas é no campo da religiosidade que esse tema se torna mais significativo. Nas igrejas, nos templos e nas casas espíritas muito se fala sobre “Reforma íntima”. No entanto, não é pela frequência que se lê, que se escreve e que se fala que a alcançaremos. A reforma íntima se conquista pela legítima conversão do espírito.

Do latim, convertere. Conduzir à religião que se julga ser a verdadeira. Fazer mudar de parecer, de modo de vida. Mudar uma coisa em outra de forma e/ou propriedade diferente; transformar, transmutar¹. A vida do personagem evangélico Saulo de Tarso foi um dos exemplos mais marcantes de conversão espiritual. Saulo nasceu em Tarso, na atual Turquia e foi educado no Judaísmo. Ele começou a receber formação rabínica aos quatorze anos como preparação para se tornar Sumo Sacerdote em função de suas qualidades intelectuais e dotes familiares. Saulo era cidadão romano. O que chama atenção no primeiro período de sua vida, e o que nos interessa aqui, são os relatos de sua personalidade fria, radical e, por vezes, cruel. Em nome da lei, Saulo deu vazão aos impulsos mais indesejados no meio social, tais como a intolerância, o orgulho, a inveja, a impaciência, a prepotência, a vingança e o ódio. Um assassino, sem dúvida. Cego para as potências do amor universal.

Curiosamente, sua cegueira espiritual materializou-se na interrupção da visão física na estrada que o conduzia à cidade de Damasco, onde pretendia interromper a ferro e fogo o crescimento do cristianismo local. Lá, surpreendido pela presença envolvente do espírito amoroso de Jesus, Saulo é virado ao avesso ao ouvir Jesus questioná-lo: – Saulo, Saulo. Por que me persegues?² Por não encontrar justificativa em si mesmo, a opção foi entregar-se de corpo e alma à defesa da nova lei que seguia revolucionando os corações. É evidente que sua transformação não ocorreu naquele instante. A estrada de Damasco é o que chamamos vulgarmente de “a gota d’água”. Todo aquele temperamento mediado
por paixões, toda aquela energia, toda aquela determinação na suposta verdade, posicionava-o no limiar da mudança, desejoso de uma nova orientação. O Cristo, como abençoado servo da providência divina, desperta o que estava adormecido e o converte de Saulo – o homem velho, para Paulo – o apóstolo dos
gentios, o semeador da Boa Nova.

Querido irmão, querida irmã. Também somos perseguidores do Cristo! Quem persegue é quem segue por perto, mas ainda não alcançou. Exatamente por isso, abraçamos uma religião que nos conduz à conversão. Diante dela, todas as vezes que agimos com intolerância, discriminamos, radicalizamos nossas preferências, sejam elas políticas ou não, estamos “perseguindo o Cristo” que nos convidou amar ao próximo como a si mesmo. Saulo manifestava as mais odiosas características humanas. No entanto, encerra sua passagem pela Terra como um espírito fiel. – “Desde agora, ninguém me moleste, porque trago em meu corpo, as marcas do Senhor Jesus”³.

Encontramo-nos em uma posição particular no limiar da conversão, o que significa que estamos nos convertendo pouco a pouco. Ou estamos cansados de sofrer, ou transbordando de amor, ou ambos. É curioso reconhecer a nossa estrada de Damasco. Para alguns, é a estrada da doença tida como incurável. Para outros, a injustiça dos homens, a carência na pobreza, a futilidade da riqueza, a infidelidade, entre tantas outras. E ali, em pé a nossa frente, o Cristo sempre se apresenta de braços estendidos, oferecendo a mão e nos conclamando em espírito. – Levanta-te e anda4. E ao lado dele, Paulo complementa: -E assim vos rogo eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que
fostes chamado.5

Além de Paulo, temos muitos outros convertidos do evangelho. Francisco que se
tornou Chico Xavier, Hippolyte Leon que se tornou Allan Kardec, Simão que se tornou Pedro, Maria que se tornou Madalena, enfim. Em todos encontraremos as bases da conversão. E nós? Como saberemos o instante definitivo de nossa conversão? Identificando em si mesmo as cinco marcas do Cristo notáveis em todos os que se convertem: 1- Aproveitamento das horas na prática do bem. 2- Desapego material. 3- Humildade nas relações interpessoais. 4- Renúncia de si mesmo. 5- Amor e fidelidade incondicional a Deus. Quando a sua vida estiver pautada nessas virtudes cristãs, você poderá iniciar a escolha de um novo nome. E com alegria de um verdadeiro convertido dirá, repetindo o apóstolo Paulo: “Já não sou eu mais que vivo, e sim o Cristo que vive em mim.6”

Vinícius Moura
1- Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa.
2- Livro de Atos, 9:4-5.

3- Livro de Gálatas 6:17.
4- João, 5:8.
5- Efésios 4:1.
6- Livro de Gálatas 2:20.

A transição em nós

Construindo o Futuro

Chico Xavier, em entrevista dada no início da década de 1970 que originou o livro “Pinga Fogo”, foi questionado sobre a transição e o acirramento das questões sociais e políticas percebidas naquela época. Parte da resposta de Chico, citando Emmanuel, foi “(…) Nós nos encontramos no limiar de uma Era extraordinária, se nos mostrarmos capacitados coletivamente a recebê-la com a dignidade devida. (…)[1]”.

O capítulo XVIII da Gênese traz esclarecimentos sobre esse momento de transição, da lei do progresso e da relação íntima do progresso individual com o coletivo – “(…) Ambos, esses progressos se realizam paralelamente, porquanto o melhoramento da habitação guarda relação com o do habitante.2”

Nesse mesmo capítulo, há a afirmação de que a humanidade já avançou muito, desenvolveu a inteligência e progrediu física e moralmente, mas tem hoje ainda o desafio da elevação do sentimento.

Ao considerarmos que evoluir é sair do pessoal para a visão de conjunto, a elevação de sentimentos tem também relação com a mudança da nossa vibração em direção a um amor que sublime, que possibilite um novo pensar, um novo sentir e agir para a construção de novas consciências, para a “Era extraordinária” citada por Chico Xavier.

Pensando nisso, qual tem sido o nosso papel nesse contexto de transição, sendo a proposta da Doutrina Espírita essa renovação de consciências? Somos individualidades – tarefeiros (voluntários) e frequentadores que fazemos parte da Fraternidade Espírita Irmão Glacus – e um coletivo, inserido neste planeta composto por tantos outros coletivos neste momento de transição.

O contexto é desafiador também para a FEIG. Já são muitas as conquistas, os resultados obtidos, porém é cada dia maior a complexidade das questões que alcançam a Casa. Os desafios enfrentados em cada uma das atividades realizadas se desdobram em tantos outros. Grande é a diversidade de pessoas, de demandas e de expectativas que a cada dia chegam à Casa, que é também escola, oficina e hospital, como afirmam os mentores espirituais. Tudo isso em velocidade e dimensão nunca imaginadas. Felizmente, esse mesmo contexto é rico também em possibilidades.

Recentemente, localizamos uma foto na qual várias linhas de cores diferentes teciam o triângulo da logomarca da FEIG, resultado de uma atividade do “Programa de Aprimoramento do Atendimento ao Público da Casa de Glacus”/2015, que ilustra os vários pontos de intercessão e interdependência nas atividades da FEIG – o quanto as ações dos setores da Casa afetam e são afetados uns pelos outros.

A lembrança da abordagem desse encontro remeteu-nos ao fato de a FEIG ser um coletivo, que congrega muitas individualidades (tarefeiros e frequentadores) em busca de recursos para a nossa reforma intima a partir do trabalho no bem à luz dos preceitos da Doutrina Espírita. Estamos representados em cada ponto de encontro dessas linhas coloridas da foto quando, na tarefa, buscamos a oportunidade do trabalho no bem, como roteiro para o aprimoramento moral do nosso espírito; quando, na Fraternidade Espírita Irmão Glacus – esse laboratório de vivências –, experimentamos o trabalho para todos, ao mesmo tempo em que trabalhamos em benefício de nós mesmos e reciprocamente, nesse caminho possível, apontado na Gênese,3 para a nossa evolução.

Consideradas as devidas proporções, é fato que a nossa atuação individual nesse contexto de transição pode ser diminuta para a humanidade. Porém é e sempre será determinante nos pequenos coletivos dos quais fazemos parte – família, trabalho, escola, casa espírita… –, a partir da forma como desempenhamos o nosso papel em cada um deles.

É com outra parte da resposta de Chico Xavier sobre a transição que encerramos esta proposta de reflexão: (…) “Mas isso terá um preço. Terá o preço da paz. Se nós pudermos nos suportar uns aos outros, amar uns aos outros, segundo os preceitos de Jesus, até que essa Era prevaleça provavelmente no próximo milênio, não sabemos se no princípio, se nos meados ou se no fim. O terceiro milênio nos promete maravilhas, se o homem, filho e herdeiro de Deus, se mostrar digno dessas concessões. Se não, vamos aguentar, nós todos talvez, com as estacas zero ou quase zero para recomeçarmos e fazer tudo de novo. Somos espíritos imortais.4”

Míriam D’Ávila Nunes

1 Pinga-fogo com Chico Xavier; Saulo Gomes (org.), pág. 88, 2009.
2 A Gênese; Allan Kardec, pág. 356, 2013.
3 A Gênese; Allan Kardec, cap. XVIII.
4 Pinga-fogo com Chico Xavier; Saulo Gomes (org.), pág. 88, 2009.

Aproveite a sua reencarnação

Os caminhos da Fé